O imperialismo, por intermédio de sua máquina de controle ideológico planetário, a saber: USAID; CIA; NED; IRI; CIPE; NDI; NSA. Além de órgãos oficiais para controle e monitoramento de informações, uma estrutura filantrópica que se vincula diretamente ao Estado norte-americano, cujo maior objetivo é impedir o desenvolvimento da luta de classes na escala planetária. Claro, organizações de monitoramento para a realização do softpower só faz sentido com o aparato militar sem precedentes na história, não só pelo desenvolvimento das forças produtivas, mas pela construção de um Estado militar para manter com rigor o imperialismo.
Controle social do imperialismo
O monitoramento do imperialismo, realizado com facilidade e ampla penetração da maioria dos países atrasados, permite a habilidade dos norte-americanos em organizar guerrilheiros no Curdistão; mercenários nazistas na Ucrânia; movimento de “Vidas negras importam”; budistas pela independência do Tibet e mulheres contra a Revolução Iraniana. Alguns países atrasados vivem profunda guerra como Filipinas, Burkina Faso, Iêmen, Somália e Ucrânia, enquanto países latino-americanos não vivem ainda a crise capital.
Apesar de o Brasil ter vivido os chamados “Anos de Chumbo”, com organizações que foram para a clandestinidade e para luta armada, Geisel e Golbery, com a ajuda do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) – think tank anticomunista e CIA, organizou a “abertura lenta, gradual e segura”, demarcando o controle sobre as organizações de Estado, e relativa facilidade de monitoramento das organizações operárias até 1978. O final da década de 1970, marcado pelo desenvolvimentismo de Geisel, grande urbanização e industrialização, ascende o movimento operário urbano mais organizado, de massas, ao mesmo tempo que novos partidos são legalizados, demandando as rédeas da segurança institucional.
A institucionalização das esquerdas no Brasil nos anos 1980 não ocorreu sem conflitos, veio com dificuldades de formação partidária e sindical, mas não foi marcado por uma guerra civil ou revolução. A luta política no interior de um regime de coalizão produziu distorções e contradições entre as demandas concretas dos trabalhadores, atendidas parcialmente por reformas organizadas ao modo da conciliação de classes. Naturalmente, parte da esquerda se colocou a reboque dessa estratégia do regime político.
Progressivo deslocamento à direita
Após as eleições presidenciais de 1989, coincidentemente com o ano da famosa Rodada Uruguai do GATT (atualmente OMC), que estabeleceu o Consenso de Washington. Esse consenso estabeleceu para a América Latina a agenda neoliberal, uma programação envolvendo fundamentos econômicos, sociais e culturais, que alterariam profundamente a organização operária e das esquerdas de modo geral. Além de todo projeto de “regionalismo aberto” (abertura econômica maior da América Latina) proposto pela Cepal/ONU, sob liderança de Fernando Fajnzylber, o projeto educacional previu maior intercâmbio de intelectuais e reestruturação das bases teórico-metodológicas nas universidades brasileiras, suprimindo o marxismo, paulatinamente, das disciplinas dos currículos das Ciências Sociais.
A vulgarmente chamada de “abertura econômica” da década de 1990 trouxe consigo a abertura para a proliferação da filantropia imperialista. A ausência de políticas públicas educacionais veio acompanhada do sucateamento da ciência brasileira. Diante disso, uma grande fuga de recursos humanos foram para os países adiantados; uma parte dos recursos para desenvolvimento científico veio massivamente de fora com os fundamentos e bases de conhecimento externos. Pesquisas e bolsas passaram a ser amplamente apoiados por ONGs e think tanks pró-imperialistas, disseminando uma frágil base intelectual.
Por outro lado, os movimentos sindicais foram pouco a pouco sendo municiados com dinheiro externo, além de organizações de trabalhadores terem sido formadas pelos próprios governos latino-americanos. Todo imposto de contribuição sindical era carreado para barrar as organizações operárias. No campo, os governos neoliberais faziam falsa reforma. No Brasil, especificamente, FHC utilizava os fundos da agricultura para comprar terras griladas e lotear ao campesinato, que na maior parte das vezes não conseguia tocar a agricultura com os parcos recursos do Pronaf. Uma operação que facilitava a retomada de terras pelo latifúndio.
No século XX, no Brasil, a esquerda tomou o poder, mas o imperialismo tratou de rachá-la institucionalmente. A crise do Mensalão serviu para entornar o caldo da fragmentação e o imperialismo formou o PSOL; este se aliou à direita, além de PSTU e PCB, tornando-se a ponta de lança do golpe de 2016. No caldo da fragmentação não existia somente o “combate à corrupção”, tinha a maior arma do imperialismo para a esquerda brasileira, o identitarismo.
O golpe do identitarismo
Um golpe eleitoral vem sendo engendrado no País. Esse golpe é materialmente visível pelo vultuoso uso dos recursos públicos para distribuição de emendas parlamentares e auxílios para setores econômicos e regiões estratégicas e dinâmicas. A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) foi amplamente divulgada pela imprensa. Somente pela ponta do iceberg, o uso do orçamento como instrumento eleitoral nos autoriza a alertar sobre a possibilidade de fraude no próximo domingo, 30. A fraude não é uma contagem em favor de candidato A ou B, mas pela condução do processo pela burguesia e pelo imperialismo.
Sem embargo, vários outros elementos poderiam ser arrolados, tais como urnas sem auditoria pública; enxurrada de denuncismo de “fake news”; manipulação da imprensa com assuntos mais favoráveis à Bolsonaro; limitação da propaganda eleitoral, dificultando o acesso da esquerda à campanha de massas; a difusão ininterrupta da propaganda da “violência política” etc. Todos esses elementos se constituem como formas de manipulação das eleições, porém não menos importante é a autossabotagem da esquerda.
A esquerda não tem um programa político sólido, quem a carrega é o mar, e o mar é controlado pela direita, pelo imperialismo. Por isso, as reformas feitas nos anos 2000 foram superficiais, não colocando grandes contradições contra o imperialismo, e o maior exemplo disso foi a ampliação do sistema de ensino superior, sem um plano de educação de caráter nacionalista. As universidades, que são “autônomas”, de acordo com a Constituição, mantiveram-se a reboque das políticas do imperialismo. A meritocracia foi a base da administração acadêmica. Deste modo, quanto mais um autor publica nas bases Scielo e Scopus, quanto mais “internacionalização” da pesquisa, mais os centros dinâmicos se contaminavam com a política imperialista.
Sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos foram invadidos por acadêmicos com visão imperialista. Com o fim da contribuição sindical obrigatória, muitos pediram fomento à ONGs imperialistas. Movimentos Sociais se fixaram na ordem e no mesmo caminho dos sindicatos. Partidos naturalizaram o fomento filantrópico internacional, ignorando e aceitando por completo a imposição de pautas estranhas à natureza do trabalho, a verdadeira base para a transformação social de conjunto. Isso explica grande parte dos problemas que vemos na campanha da esquerda, onde Lula cede ao máximo, a ponto de perder quase por completo as diretrizes fundamentais para vencer.
Romper com o identitarismo no debate mais importante das eleições
Lula, refém do identitarismo durante a campanha eleitoral, viu as pesquisas (também manipuladoras) apontarem aproximação de Bolsonaro. Apesar de todo frisson em questões morais, Lula não conseguiu trazer a campanha para o fundamental, a destruição econômica produzida por Bolsonaro e o Golpe de Estado. Falar em golpe parece ser questão proibida pelo estafe de Lula, e esse deveria ser o ponto de partida, inclusive trazendo Roberto Jefferson, um delinquente político, como inventor da mentira do “Mensalão”, pois foi Jefferson que criou o nome.
A pandemia, outra muleta identitária, também deve ser deixada de lado. O foco de Lula deve ser a saúde pública de modo geral. As políticas públicas foram abandonadas e o orçamento da saúde se desintegrou quase por completo, com a deterioração do SUS. Lula, abordando a saúde pública, pode falar do SAMU e dizer que ampliará o sistema de atendimento à saúde básica e cirurgias.
Também é preciso parar de falar que criou universidades e escolas técnicas, sem falar de reforma de ensino, profundamente deteriorado nos estados e nas próprias universidades, atualmente tomada por ONGs imperialistas, que a fomentam na falta de políticas públicas para a ciência e tecnologia.
Sobre a Amazônia, Lula precisa falar menos em preservação e mais em conservação, em manejo econômico da floresta, que contém muito ouro, bauxita, urânio, rios para desenvolvimento de energia e propor maior presença do Brasil na região, não somente dos governos locais, mas com uma política pública nova de monitoramento da Amazônia, que inclua na lista de inimigos da floresta, não somente a mineração transnacional, mas os agentes infiltrados na floresta, que servem como biopiratas e informantes sobre as riquezas da região.
Por fim, Lula, no próximo debate, precisa passar esperança com respostas assimétricas a Bolsonaro, deixar a persona de “estadista” e vestir o macacão de operário, se colocando não como ex-presidente, mas um candidato postulante ao cargo, que foi vítima de prisão arbitrária e de um golpe. Isso precisa ser reforçado, apesar do golpe interno que Lula pode estar sofrendo nos bastidores, por seus próprios correligionários, na maior parte dos casos, oportunistas.





