No dia 21 de outubro de 2025, tomou posse como ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República o então deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP), no lugar do ex-deputado federal Márcio Macêdo. A justificativa para a troca no ministério — que possui a incumbência de estabelecer relações com a sociedade civil e os movimentos populares — era de que um quadro advindo de um movimento popular possuiria maior capacidade de diálogo e de concretizar as demandas dos movimentos. Além disso, o fato de Boulos ter sido o deputado federal mais votado no Estado de São Paulo e ter quase vencido as eleições para a prefeitura da capital dar-lhe-ia maior respaldo para essa missão.
No começo de sua gestão, criou o chamado “Governo do Brasil na Rua”, um programa voltado a levar órgãos do governo federal para realizar o atendimento das pessoas, a fim de que conseguissem acessar as políticas públicas. Em tese, esse programa busca reduzir a burocracia e aproximar o cidadão das políticas. Quando vamos para a realidade dos fatos, porém, isso não aconteceu. Vi muitas pessoas dizerem que, inclusive, a Ação Global, realizada pelo SESI e pela Globo, tinha um desempenho melhor.
Medidas como o avanço do fim da escala 6×1 só foram adiante porque estamos em ano eleitoral, e o voto contrário dos parlamentares seria totalmente antipopular; além disso, as organizações sindicais e de luta, de forma geral, pressionaram nas ruas e nas redes para obter esse resultado. O governo teve a iniciativa de estimular esse debate, mas isso está muito longe de ser creditado como feito do ministro Boulos.
O caso mais recente da atuação desastrosa do ministro Boulos foi o resultado da seleção do Programa Minha Casa, Minha Vida-Entidades. Os movimentos tiveram projetos enquadrados que equivaliam a 98 mil unidades habitacionais de interesse social; porém, foram selecionadas somente 35 mil, deixando inúmeras famílias, que contribuíram para eleger e sustentar esse governo, frustradas por não alcançarem o sonho de ter uma moradia. Boulos, que teria o papel de articular, atender e unificar a sociedade civil e os movimentos populares nesse e em outros processos relacionados às políticas públicas do atual governo, fez o contrário e atuou apenas em benefício próprio, favorecendo, em vários casos, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em detrimento dos demais movimentos. Quando os movimentos populares se mobilizaram para tentar garantir a seleção das 98 mil unidades habitacionais, o ministro trabalhou para desmobilizá-los e desarticulá-los, em uma clara tarefa contrarrevolucionária. Mas o que esperar também de quem fez parte de um mesmo instituto que repressores como o ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, Sérgio Etchegoyen, e o ex-ministro da Defesa, Raul Jungmann?
Essa linha política do psolista já era uma tendência evidente quando se observa a verdadeira panelinha em que se transformou a Secretaria Nacional de Periferias, que vem excluindo vários movimentos, de reconhecida atuação nacional, das políticas públicas. A secretaria do Ministério das Cidades, que seria o sinônimo de resistência — tendo em vista o contexto de as demais serem hegemonizadas por figuras alinhadas com o ministro direitista Jader Filho (MDB-PA) —, frustrou a expectativa dos movimentos que, de forma constante, têm encontrado suas portas fechadas para várias demandas populares.
Essa atuação característica do referido ministro e de seu agrupamento político também pôde ser observada no caso da 6ª Conferência das Cidades, quando o MTST queria levar “no grito” um número de vagas do segmento dos movimentos populares urbanos na 6ª Gestão do Conselho das Cidades que seria incompatível com seu tamanho real no número de delegados eleitos, em mais um gesto de soberba, arrogância, deslumbramento e mesquinhez. O referido movimento preferiu ficar fora da gestão por não ter suas chantagens atendidas, apostando, assim, nas articulações “por cima” para ter suas demandas respondidas, tendo como carro-chefe a instrumentalização da Secretaria-Geral da Presidência da República.
O que se constata é que, ao invés de seguir a orientação política do presidente Lula (PT) para unificar a sociedade civil e os movimentos populares e democratizar o acesso às políticas públicas, a Secretaria-Geral da Presidência da República virou um “puxadinho” do grupo político do ministro Guilherme Boulos para concretizar interesses individuais e personalistas, causando grande descontentamento nos movimentos e estimulando rachas em um momento no qual a unidade é crucial para derrotar o imperialismo e o fascismo.
É evidente a pertinência e a capacidade de atuação política do MTST e do próprio ministro Boulos. Porém, quando esse significativo potencial de atuação é utilizado para causar desagregação e divisão, quem perde é o governo, porque fica desmoralizado e se mostra incapaz de dar respostas aos sérios problemas que afligem as trabalhadoras e os trabalhadores, servindo apenas para sanar os interesses de uma determinada fração que se sente privilegiada e mais cidadã do que qualquer outra.





