Os últimos acenos de Lula têm sido lamentáveis e revelam um deslocamento cada vez mais evidente à direita. Declarações exaltando a pauta da segurança pública, participação em cultos evangélicos, afirmações de que não seria de esquerda, a defesa da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas e, ainda, o absurdo contingenciamento de verbas das universidades federais em pleno período pré-eleitoral compõem uma sequência de medidas e posicionamentos preocupantes.
A campanha de 2022 foi, sem dúvida, mais identificada com pautas à esquerda do que os movimentos atuais. Ainda assim, o governo iniciado em 2023 já assumiu um perfil bastante conservador em diversos aspectos. Se, antes mesmo do início oficial de uma nova disputa eleitoral, o discurso já se apresenta mais à direita, cabe perguntar: quão direitista poderá ser um eventual novo governo Lula?
Há um aspecto que o PT parece não compreender. A oposição bolsonarista não se assemelha à antiga oposição do PSDB. Trata-se de um campo político mais organizado, radicalizado e ideologicamente coeso. Nesse contexto, as tentativas do PT de incorporar pautas tradicionalmente associadas à direita tendem a ser ineficazes. Lula e o partido vêm buscando apresentar-se como os principais adversários das facções criminosas, por meio de declarações e medidas que reforçam a lógica repressiva. Entretanto, do outro lado estão os Bolsonaro, cuja trajetória política sempre esteve marcada pela defesa explícita do endurecimento penal, do aumento das penas e até pela abjeta exaltação da ditadura militar. Diante disso, é pouco provável que um eleitor cuja principal preocupação seja o combate ao crime abandone quem historicamente sustenta esse discurso para optar por uma versão mais moderada dele. A tendência é que permaneça com Bolsonaro.
Lula deveria apresentar um programa efetivamente comprometido com a esquerda. Somente assim conseguiria polarizar politicamente com Bolsonaro em seus próprios termos e, mais do que isso, estimular um debate público em torno das questões estruturais do país, como o programa econômico defendido por Flávio Bolsonaro e suas implicações para os trabalhadores brasileiros.
Independentemente do resultado das eleições, há uma tarefa fundamental para os revolucionários: deixar claro que o processo eleitoral, por si só, não resolverá os problemas nacionais. A análise do cenário político indica que, qualquer que seja o vencedor, dificilmente haverá uma transformação substancial da conjuntura. Isso não significa afirmar que uma vitória de Lula e uma vitória de Bolsonaro produziriam os mesmos efeitos para o país. A eleição de Bolsonaro certamente representaria um cenário mais desfavorável para os trabalhadores. No entanto, a incapacidade demonstrada por Lula e pelo PT de enfrentar os impasses nacionais tende apenas a preservar o movimento lento e contínuo de deterioração já em curso. Acaso Lula proporá medidas moderadas como o fim da autonomia do Banco Central ou a reestatização da Eletrobrás? Não. Acaso ele tocará em pontos ainda mais importantes como a estatização do sistema financeiro ou a estatização completa da Petrobrás? Também não. Assim, a eleição, isoladamente, não será suficiente para interromper esse processo.





