A questão do imperialismo

A esquerda deve estar com Putin ou com os inimigos de Lula?

Enganado pela propaganda da OTAN, colunista do Brasil 247 quer que a esquerda se coloque contra Putin

Muitos setores da esquerda pequeno-burguesa têm dificuldades de compreender os problemas fundamentais e até elementares da luta de classes. Essas dificuldades não são resultado apenas de ignorância política. Muitas vezes são produto de uma política oportunista que acaba empurrando a esquerda para posições pró-imperialistas.

Esse é o caso da posição de boa parte da esquerda sobre a guerra na Ucrânia. Alguns setores se posicionam contra a Rússia, outros demonstram uma suposta neutralidade que serve apenas para disfarçar seu alinhamento ao imperialismo.

Esse é o caso do jornalista Luís Costa Pinto, que publicou alguns artigos no sítio Brasil 247 criticando a esquerda que está a favor da Rússia.

Em coluna do dia 28 de fevereiro, ele critica os que consideram a reação de Putin como legítima diante da ofensiva imperialista e chama de iludidos, desinformados e detentores de má-fé os que comungam essa posição ─ como é o caso do PCO, embora ele não cite, em nenhum de seus artigos, explicitamente o partido.

No mesmo artigo, Luís Costa Pinto se esquiva do debate usando um método tradicional dos oportunistas: desqualificar o adversário, desqualificando os conceitos usados para a análise. Para ficar mais claro o que queremos dizer, vejamos o que escreve o colunista:

A expressão ‘imperialismo’, ou ver alguém acusando outro de ‘imperialista’ em debates sérios – como alguns que foram travados no curso dessa guerra que já dura quase seis dias –, causa-me um misto de enfado, urticária e vergonha alheia.

Os ideólogos burgueses usam esse truque há muito tempo. Um conceito marxista, cientificamente desenvolvido, não serve mais caso ele coloque em risco os interesses da burguesia. “Imperialismo” não é somente um conceito marxista, apesar de ter sido plenamente desenvolvido por Lênin. O próprio revolucionário bolchevique explica que utilizou contribuições de economistas burgueses como Hobson John Atkinson. O conceito refere-se ao capitalismo atual, mais especificamente ao capitalismo a partir do início do Século XX. E ele não é utilizado somente pelos marxistas, mas também por outros setores da esquerda, particularmente o nacionalista, como o PT, o chavismo, o peronismo ─ embora de uma maneira levemente deturpada.

Luís Costa Pinto diz que se sente enfadado quando utilizam o conceito para explicar as relações entre os países capitalistas. Ele não explica, apenas se sente mal. Ele não diz qual conceito deveria ser usado e por que imperialismo não serve como instrumento de análise da questão atual. Ele apenas sente “vergonha alheia”.

Nós, marxistas – ou mesmo para qualquer pessoa que leva minimamente a sério as discussões políticas e econômicas -, poderíamos dizer a mesma coisa sobre a declaração de Luís Costa Pinto. Nos dá certo constrangimento a revelação de completa ignorância do colunista que se aventura a escrever um artigo com a pretensão de analisar a situação internacional desprezando qualquer consideração sobre o problema do imperialismo. Como dissemos acima, esse é um truque antigo dos inimigos do marxismo e pretende encobrir um debate com desqualificações sem conteúdo.

A ausência de um conceito fundamental para a compreensão da situação mundial explica a dificuldade de Luís Costa Pinto de entender o que acontece e tomar a posição correta.

Incompreensão revelada nos artigos seguintes do colunista. No dia 4 de março, Costa Pinto publicou coluna em que afirma que “pedir a queda, a prisão e o julgamento de Putin é dever democrático”. A posição do colunista do Brasil 247 é ainda mais reacionária do que a do jornal O Estado de S. Paulo ou da Revista Veja. Seu discurso é ainda mais agressivo do que o do governo dos EUA. Assemelha-se aos discursos da extrema-direita brasileira contra o ex-presidente Lula.

Aliás, se o colunista não gosta de usar a palavra “imperialismo” ele tem todo o direito de praticar a sua ignorância. Mas o preço a ser pago vai ser alto como por exemplo acreditar na propaganda imperialista de que Putin é um ditador e Zelensky é um democrata.

E quando dizemos que ele acredita na propaganda imperialista – se ele preferir podemos chamar de propaganda dos Estados Unidos e da OTAN -, não é força de expressão. Diz ele:

Se é legítimo tomar por aceitável que um governo eleito (o de Volodymyr Zelensky) com 73% dos votos numa Democracia ocidental que em 2019 figurava no ranking ‘Índice da Democracia’ com 5,9 pontos e classificada na categoria amarela de ‘Regime Híbrido’, como argumentam os partisans de Vladimir Putin nesta guerra tão insana quanto desumana contra a Ucrânia, por que seria ilegítimo advogar e defender abertamente a derrubada de um líder autocrata de um Estado que no mesmo ranking tem desempenho de apenas 3,11 pontos e figura como ‘Regime Autoritário’?

Isso sim é constrangedor! O colunista levanta os dados de um ranking montado pelo imperialismo para provar que a Ucrânia de Zelensky, um governo eleito sobre a base de um golpe de Estado e se apoiando em grupos nazistas, é mais democrático que Putin. Democracia, para o colunista, é um problema de índice. A política feita por cálculos matemáticos é a escola norte-americana da ciência política, em que a análise histórica, econômica e social é substituída por um conjunto de estatísticas e operações matemáticas. A Ucrânia é tão democrática quanto o Brasil do golpe. Zelensky é tão legítimo como Bolsonaro. Ambos os países sofreram um golpe de Estado e seus presidentes foram eleitos dentro desse regime golpista que persegue opositores. No caso da Ucrânia, a situação é ainda mais extrema, pois se proibiu partidos comunistas, o uso do idioma russo, jornais opositores, prende-se cidadãos comuns que discordam do governo, grupos nazistas atuam livremente espancando, torturando, sequestrando, assassinando, estuprando pessoas, uma guerra foi deflagrada para matar 14 mil cidadãos ucranianos-russos no Donbass, etc.

Esse aparato pseudo-científico serve para encobrir os problemas políticos centrais, em primeiro lugar a luta de classes. E é justamente aí que Luís Costa Pinto não tem a menor ideia do que está falando, menos ainda do que sobre o imperialismo. Democracia para ele é um conceito abstrato medido por um “índice” formulado por agências ligadas justamente à OTAN. Quem tiver alguma dúvida sobre isso deveria pesquisar as posições de Cuba e Venezuela nesse índice.

Incrível como os cálculos do “Índice da democracia” usados pelo colunista colocam como ditaduras os inimigos dos Estados Unidos e como exemplo de democracia os aliados dos EUA e da Europa Ocidental.

É graças a essas considerações infantis que Luís Costa Pinto acha que a esquerda deveria pedir o julgamento de Putin. Em nome da democracia, quem julgaria Putin seriam os EUA e a OTAN? Com certeza não seria a esquerda nem o próprio Luís Costa Pinto.

Como não quer nem ouvir falar de imperialismo, o colunista não quer nem saber onde estão as forças mais reacionárias do mundo. Não quer saber que essas forças reacionárias, os EUA e a OTAN, são as responsáveis pelo genocídio em vários países do mundo. Que são essas forças que deram o golpe no Brasil – assim como deram na Ucrânia. São essas forças que ameaçaram o território russo, com esse golpe, depois com a tentativa de enfiar a OTAN nas fronteiras do País.

E por se recusar a ter as coordenadas políticas ele não compreende que Putin, ameaçado por uma força muito maior do que a dele, está reagindo defensivamente e que essa ação de Putin pode levar a um enfraquecimento dessas forças reacionárias, que chamamos de imperialismo, o que será um progresso para toda a humanidade.

A dificuldade de compreender esse problema fica bem expressa na coluna mais recente do mesmo articulista. No dia 8 de março, ele publicou artigo afirmando que: “Ala da esquerda tem de decidir: quer ganhar a guerra de Putin com a Rússia ou vencer a eleição no Brasil com Lula?”.

Segundo a lógica de Luís Costa Pinto, o enfraquecimento do imperialismo será maléfico para Lula. Segundo ele, deveríamos ficar contra a Rússia e a favor da OTAN para beneficiar Lula. Até onde consta, os maiores inimigos de Lula e do PT nesse momento são justamente aqueles que têm a mesma posição de Luís Costa Pinto. Como seria isso?

De acordo com ele, a esquerda que apoia Lula deveria estar do lado dos inimigos de Lula. Sim, não sabemos se o articulista acompanha o desenvolvimento da política nacional, mas rede Globo e toda a imprensa golpista, os partidos da direita tradicional e mesmo Bolsonaro – apesar da posição relativamente ambígua do governo – estão todo unidos com a OTAN e contra Putin.

Fazer e analisar política sem as coordenadas fundamentais acaba dando nisso. Luís Costa Pinto quer fortalecer os inimigos de Lula para que Lula ganhe a eleição. Nem mesmo as operações aritméticas e as estatísticas forjadas dos órgãos acadêmicos da ciência política norte-americana são capazes de explicar essa lógica.

Um conselho para o colunista: o melhor mesmo é recorrer a Lênin.

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