Por Tiago Carneiro, correspondente para assuntos europeus
No último final de semana de setembro, moradores de Londres começaram a sofrer com a escassez de combustível e passaram a fazer longas filas em postos de gasolina. De acordo com a Sputnik News, cerca de um terço dos postos de combustível da British Petroleum (BP) sofrem com a escassez, fazendo com que alguns deles fechassem as portas. Ainda, de acordo com o canal no Youtube do veículo de comunicação russo, já era possível presenciar brigas entre aqueles que esperavam nas filas para abastecer seus automóveis.
Entretanto, o governo britânico chegou a declarar que não há falta de combustível, que todo o caos observado nas ruas, noticiado mundo afora, se deu tão somente por uma corrida irracional para abastecer o carro, causada pelo pânico da população que teme ficar impossibilitada de usar seus automóveis. “Não há falta de combustível. As pessoas devem ser sensatas e só abastecer quando necessário”, disse o secretário de transportes do Reino Unido, Grant Shapps, à BBC (BBC, 26/09/2021).
Nesse sentido, o que vem acontecendo no Reino Unido seria algo como a famosa “crise do papel higiênico”, que se deu no início do confinamento, quando as pessoas, em países como Inglaterra e Austrália, temendo ficar sem papel higiênico, iam às vias de fato em supermercados para conseguir o tão precioso item de limpeza pessoal.
Entretanto, a declaração de Shapps não se mostrou verdadeira. Um mapa compilado pelo próprio governo britânico, que classifica as regiões do país em verde – estoques em mais de 40%, amarelo – entre 20% e 40% e vermelho – menos de 20%, mostra que quase todo o país estava vermelho até o dia 26 de setembro. No dia 1º de outubro quase todo o país estava amarelo e o sudeste vermelho. Ou seja, a situação ainda é crítica.
Dependência da mão de obra estrangeira
A principal causa da escassez de combustíveis no Reino Unido é a falta de caminhoneiros. A associação de transportadores rodoviários de carga aponta a falta de 100 mil trabalhadores. De acordo com a Sputnik, muitos dos caminhoneiros saíram do país devido ao Brexit, enquanto outros trabalhadores do transporte esperam passar no teste de habilitação para trabalhar no Reino Unido. Para tentar diminuir a crise, Londres anunciou, através do portal do governo, que vai oferecer visto para 5 mil caminhoneiros estrangeiros, acelerar o processo de habilitação e acionar motoristas do exército.
É importante dizer que o problema que o Reino Unido vem sofrendo com os combustíveis é somente o agravamento da crise de desabastecimento de alimentos que ocorreu no fim de julho, quando era possível ver na imprensa burguesa notícias sobre um possível desabastecimento de alimentos no Reino Unido. “As principais cadeias de abastecimento do Reino Unido correm o risco de ‘falhar a um nível sem precedentes e inimaginável’” (RTP, 26/08/2021). Isso se dá pela falta de trabalhadores do setor de transporte, mas, também, pela falta de mão de obra no setor de alimentos.
Uma das principais causas da escassez de mão de obra é que muitos estrangeiros voltaram para casa durante a pandemia. Além disso, o fim da livre circulação com a União Européia, consequência do Brexit, também diminuiu a oferta de mão de obra. Um levantamento da Câmara de Comércio Britânica mostra que 70% das empresas passam por problemas para encontrar trabalhadores neste segundo semestre de 2021. Os setores mais afetados são construção civil, hotelaria e gastronomia (El País, 12/08/2021). Para mitigar o problema, o governo estuda liberar um visto de trabalho temporário para 30 mil trabalhadores estrangeiros.
A hipocrisia das potências imperialistas
O que vem ocorrendo na Inglaterra mostra a hipocrisia das potências imperialistas: por um lado, há ataques raciais contra imigrantes que vêm de todas as partes do mundo à procura de trabalho. Por outro lado, quando a economia reaquece minimamente, vários setores ficam impossibilitados de trabalhar, pois falta pessoal. Esse fato evidencia a dependência da mão de obra estrangeira, pessoas que muitas vezes aceitam trabalhar em condições bem inferiores às que seriam dadas a um cidadão local.
A classe capitalista britânica (imperialista) utiliza os imigrantes, vindos de países oprimidos pela mesma classe imperialista, para rebaixar o conjunto dos salários dos trabalhadores no Reino Unido ─ como ocorre em todos os países imperialistas. Isso é um ataque a toda a classe trabalhadora, esmagada enquanto a burguesia faz demagogia barata com os imigrantes, altamente explorados.
Os países imperialistas, através dos seus monopólios de comunicação, difundiram através dos anos uma imagem negativa de estados operários ou outros países não alinhados através de reportagens que falam, geralmente, da “escassez de alimentos”. Diga-se de passagem, muitos desses países sofrem embargos visando a asfixia econômica, que é tão somente uma arma covarde contra a população. Agora, vale destacar que a crise se dá em uma das principais potências imperialistas do mundo, que no passado foi o maior império colonial da terra.
A burguesia do Reino Unido, apesar de todo o poder econômico e a tecnologia empregada no país, não consegue nem organizar os processos logísticos, colocando em xeque a capacidade do imperialismo de prover à população o mínimo, nesse caso, o acesso a alimentos e a segurança energética. Por fim, esse país que hoje passa por uma crise de combustíveis é uma das sedes das Sete Irmãs, as sete (hoje quatro) monopolistas que se uniram para dominar o mercado mundial de petróleo.
Eis uma grande contradição do Brexit: a crise econômica estourada em 2008 levou também a uma crise política que obrigou a burguesia imperialista a aceitar a derrota no plebiscito, deixando o país e favorecendo um setor menor da burguesia britânica, voltada ao mercado local. Com o fim da livre circulação de mercadorias das principais empresas imperialistas para o Reino Unido, a burguesia interna britânica não consegue suprir o mercado local, gerando uma enorme crise de desabastecimento.
Dentro da União Europeia, os trabalhadores britânicos estavam sendo brutalmente atacados e o país submergia em uma crise econômica considerável. No entanto, as promessas da extrema-direita (um dos principais propulsores do Brexit) mostraram-se pura demagogia: a situação da classe operária não melhorou e a crise se aprofunda.
É possível que, seguindo essa tendência de desestabilização econômica e crise política, com a manutenção da polarização entre as classes sociais, um novo período de conflitos se abra. Para os trabalhadores, fica evidente que não há solução dentro dos marcos do regime capitalista.





