O governo ditatorial de Iván Duque anunciou, no último dia 25, a detenção de pelo menos 134 pessoas ligadas ao grupo “Primera Línea” (“Primeira Linha” em português ou “Linha de Frente” em tradução livre), organização surgida durante os protestos que vêm sacudindo o país desde o dia 28 de abril. Segundo o regime, as prisões ocorreram em várias cidades colombianas.
“O trabalho da Polícia e da ‘Fiscalía General’ (equivalente à Procuradoria Geral da República no Brasil) levou à captura de 134 pessoas responsáveis pela criminalidade urbana pertencentes à ‘Primera Línea’, através de 34 operações em 18 cidades. Seguiremos trabalhando por uma democracia segura”, publicou nas redes sociais o ministro da Defesa, Diego Molano. Segundo a agência de notícias russa Sputnik, os presos estão sendo acusados de envolvimento em ações que incluem vandalismo, ataques contra as forças de repressão, contra a infraestrutura, bloqueios de rodovias, entre outros “crimes”. Do total de prisões, 21 foram efetuadas na capital colombiana, Bogotá, e 20 na cidade de Cali.
Tendência latina
Terceira maior cidade da Colômbia, Cali tem se destacado como epicentro das mais radicalizadas manifestações desde o levante iniciado no dia de 28 de abril. Vem desta cidade, próxima à costa do Pacífico, a “Unión de Resistencias Cali” (URC), responsável por agrupar vários grupos identificados com o coletivo “Primera Línea”.
Após o Comité Nacional de Paro (Comitê Nacional de Greve) anunciar a suspensão dos protestos no dia 15 de junho, uma liderança da organização, de identidade não revelada, garantiu ao Sputnik que a continuidade dos protestos após a suspensão chamada pelo CNP deve-se à atividade do URC (“La Primera Línea de Colombia analiza dónde ubicarse en las elecciones de 2022“, 20/7/2021).
Inspirado em coletivos homônimos surgidos durante os protestos do Chile, em 2019, o “Primera Línea” colombiano reúne manifestantes, maioritariamente jovens, de diferentes regiões do país para reagir à repressão policial em meio às manifestações. Com métodos similares aos “black blocks” brasileiros, são conhecidos por trajarem máscaras e capuz durante os protestos, usarem tipos rudimentares de escudos e agruparem um setor menos disposto a aceitar a violência estatal do que o padrão da esquerda pequeno-burguesa.
O governo Duque, por sua vez, acusa os coletivos de serem financiados pela guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN) e também por dissidências das FARC.
Enquanto isso, a ONG Indepaz identificou 80 pessoas mortas pela polícia colombiana. Durante o primeiro semestre de 2021, a ONG identificou 55 massacres com 206 mortes no país. Até o dia 20 de julho, pelo menos 346 manifestantes haviam desaparecido na Colômbia e 83 perderam a vista pelos ataques perpetrados pela repressão.
Reforma tributária ressurge
Há oito dias de completarem-se três meses dos protestos que incendiaram a Colômbia, no último dia 20 de julho, a ditadura controlada com mão de ferro por Ivan Duque voltou a apresentar um projeto de reforma tributária aumentando a incidência de impostos sobre a população, com a perspectiva de arrecadar cerca de 15,2 trilhões de pesos a mais (US$3,95 bilhões segundo a cotação do dólar em 20/7). A proposta apresentada em meados de abril e que desencadearam a atual onda de protestos previa aumento nos impostos da ordem de 23,4 trilhões (US$6,089 bilhões).
Para tornar o aumento palatável, o governo Duque promete aliar a proposta com medidas de cunho social, como o subsídio de 25% do salário mínimo destinado às empresas para que contratem jovens e gratuidade na mensalidade universitária para estudantes oriundos de famílias pobres. “A lei de investimento social, que construiremos entre todos nós, é o maior salto no desenvolvimento humano nas últimas décadas”, defendeu Duque ao apresentar a proposta aos parlamentares no Congresso. No dia 20 de julho, comemora-se a Independência da Colômbia. Entre a população, a recepção ao retorno da proposta foi bem menos entusiasmada.
“Como pode ser justo que eles comprem armas com nossos impostos para matar pessoas comuns? Viemos apoiar a juventude”, disse à agência de notícias Reuters a aposentada Alicia, de 68 anos (“Colombia government sends $3.9 bln tax reform to congress amid renewed protests“, 21/7/2021, Julia Symmes Cobb, Reuters). Alicia era uma entre cerca de 10 mil manifestantes que foram às ruas de Bogotá, em 23 pontos de protestos ocorridos no dia e que deixaram um rastro de destruição na capital. Os dados foram apurados pelo sítio norte-americano Democracy Now (“Colombia Erupts in Protest Again over Right-Wing Gov’t Tax Plans Even as “Solidarity Is Criminalized”, 21/7/2021), que informa ainda a realização de manifestações em Barranquila, Cali e muitas outras cidades, incluindo 10 das 32 capitais provinciais do país.
A exemplo de outras experiências na América do Sul, destacadamente o Equador de Lenín Moreno e suas reformas econômicas, a retomada da reforma tributária pelo governo Duque reforça a ineficácia da luta pontual e a necessidade da mobilização popular derrubar o governo. A reforma, tema de interesse vital do imperialismo e por isso mesmo, recorrente, continuará ameaçando roubar a população enquanto o regime fantoche não for posto abaixo.




