A política identitária vem ganhando certo destaque por conta das manifestações que tomaram conta dos Estados Unidos e outros países do mundo contra o racismo. Fica cada vez mais claro, com isso, como essa ideologia, criada principalmente nas universidades norte-americanas, é uma arma da burguesia para desviar o foco da luta fazendo demagogia com setores oprimidos da sociedade.
O conteúdo geral do identitarismo é exatamente esse: substituir a luta de classes real por um arremedo de “luta contra a opressão” na esfera das ideias. Substitui-se, assim, a luta pela libertação econômica, a luta contra a exploração, por um reformismo inócuo, subjetivo. Esse é o caso da ideologia que procura nas palavras, ou na origem delas, todo o problema da opressão.
Artigo publicado no jornal golpista O Globo, escrito pela historiadora Angélica Ferrarez, diz que é preciso “repensar a categoria mulata”. O centro do artigo é a tase de que a “mulata” seria uma invenção da sociedade racista.
Segundo a coluna, a literatura, a arte e o carnaval foram “construindo essa categoria”, como ela diz. Ou seja, o problema da “mulata” e da opressão da mulher negra seria um problema em primeiro lugar cultural. É uma ideia o grando problema de tudo.
Por isso, a coluna conclui dizendo que “repensar a categoria mulata é urgente, a fim de se reescrever essa história do ponto de vista de mulheres negras. Na recusa em ser a mulata, mulheres negras criam regimes de visibilidade, deslocando aquelas gastas imagens das mulheres no carnaval, elaboradas pela agência sexual selvagem e reposicionam a experiência do olhar sobre o corpo humanizado.” Se concordassemos com tal oobservação deveríamos crer que o primeiro e mais importante passo para a libertação da mulher negra é a mudança na sua imagem.
Essa mudança, conforme está dito, deve ser inclusive individual. A mulher negra deve “se recusar a ser mulata”.
Temos aqui duplamente uma concepção idealista do problema da opressão das mulheres, em particular das mulheres negras. Não se trata, é preciso dizer, de uma opressão baseada em relações sociais fundamentadas e relações econômicas que torna a mulher negra o setor mais explorado da sociedade. Para a colunista, basta “repensar”, ou se não basta, este seria o principal a ser feito de início.
A opressão, segundo a coluna, é ainda um problema em primeiro lugar individual. Essa ideia, que é errada no seu fundamento, também revela uma concepção de setores pequeno-burgueses que conseguiram certa ascensão social. Desse modo, acreditam que como eles tiveram alguma possibilidade de ascensão social em relação à esmagodora maioria das outras pessoas como elas, iinterpretam sua condição como a condição para todo o resto. Bastaria portanto uma solução individual.
Desse modo, anula-se a luta política que é essencialmente uma luta coletiva, uma luta de classes, e a substitui por uma solução individual, essencialmente conservadora.




