Aconteceu em Assis, no interior de São Paulo, entre os dias 30 de maio e 2 de junho, a Mostra de Teatro Ruarada. Além das diversas apresentações teatrais que circularam na cidade, aconteceu um bate-papo sobre arte, política e movimentos sociais com o ator e diretor Fernando Cruz, do Teatro Imaginário Maracangalha, de Campo Grande. Cruz nos contou um pouco sobre o grupo, da sua atuação em Campo Grande e da importância de unir forças e não fragmentar as lutas nesse momento em que vemos um “levante” fascista no mundo. O Diário da Causa Operária estava presente para fazer a cobertura do debate.

O Teatro Imaginário Maracangalha foi criado no ano de 2006 com uma produção ininterrupta. Desde sua fundação, o grupo está focado na pesquisa cênica para atuação de rua com uma abordagem de viés político. O grupo se concentra em questões como o genocídio indígena e o extermínio de trabalhadores no Mato Grosso do Sul. As suas montagens partem de documentos e de registros que a história oficial não conta. Um exemplo é o espetáculo Tekoha, em que o grupo conta a vida de Marçal de Souza, liderança indígena que foi assassinada na década de 80, ao lutar pela retomada de terras. Marçal deixou um material vasto de suas lutas e de suas falas, como os registros encontrados no Serviço Nacional de Informações(SNI), nos sindicatos rurais, na FUNAI, em suas próprias filmagens e nos depoimentos de pessoas que lutaram e militaram com ele.
Fernando Cruz diz que fazer teatro em Campo Grande é “fazer teatro no latifúndio”. Mato Grosso do Sul é um estado agrário, um grande território do agronegócio. E há, no momento, mais de 90 fazendas ocupadas por povos indígenas, a maioria Guarani-Kaiowá e Terena. Fernando também relata que o grupo aprende muito com a organização e luta dos guerreiros indígenas.
Durante o bate-papo, ele falou a respeito das Conferências Nacionais de Cultura implantadas no governo PT e que viraram uma referência para criar uma lei nacional em que os municípios teriam seu 1% mais uma parcela do Estado e mais uma parte do dinheiro da União. Nessa época, o projeto já enfrentava uma grande dificuldade, pois tinha que passar pelo Congresso e pelo Senado para que pudesse virar um lei. Até hoje está truncado e , com o golpe, está colocado de maneira mais perversa e piorou com a extinção do Ministério da Cultura. “As questões das leis mesmo tendo um Conselho constituído pela sociedade civil com representantes do teatro, da dança do artesanato das culturas populares do audiovisual e de todos os segmentos culturais que estavam contemplados dentro do sistema e com encontros regulares em Brasília, nós não conseguimos avançar a ponto de ter a lei efetivada (…)Mesmo sendo lei ela não se torna uma garantia”, reflete Fernando.
Mesmo no governo do PT, esses conselhos não conseguiam chegar dentro do Congresso ou do Senado para poder ampliar a lei. Hoje, esse sistema está aprovado mas a lei que regulamenta como esse dinheiro vai ser distribuído não está aprovada. Ou seja, existe um sistema mas ele não tem o dinheiro. Só que agora está mais complicado ainda, pois não existe mais o Ministério da Cultura e o governo Bolsonaro fechou quase todos os conselhos, entre eles, o conselho de cultura. O que vivemos hoje é um desmonte da cultura.
Cruz diz que esse desmonte vem dentro da lógica perversa do capital. É o grande mecanismo que está por trás disso e que isso já vem de longe. Até a década de 80 na Europa nos Estados Unidos, tinha uma parcela grande de investimento público na cultura. Mas foi percebido que esse investimento provocava uma autonomia da produção e da criação. Isso significava uma arte que falava sobre questões raciais, étnicas, sobre a própria perversidade do capital, sobre questões de desigualdade, sobre a questão ambiental, enfim, sobre as questões humanas. Com isso, o investimento público começa a ser retirado ou colocado com restrições. Dessa maneira, entra de forma pesada a lógica do mercado, que é a lógica do capital que começa a interferir dentro do orçamento público. Era este financiamento público que dava autonomia às organizações populares e de trabalhadores.
Fernando também comentou sobre a lei Rouanet que é uma lei de renúncia fiscal, dizendo que é uma lei perversa, pois é dinheiro público que fica na mão do empresário e ele faz o que quiser com esse dinheiro. O empresário usa o dinheiro público e faz o que ele bem entende. “Aí que tá a distorção da lei Rouanet que foi uma fala forte da campanha do Bolsonaro. Na verdade, a lei acabou financiando a indústria cultural como se tornou nos Estados Unidos e numa boa parte da Europa hoje”. O dinheiro público financia a indústria cultural mas não chega na produção dos artistas que produzem dentro da própria comunidade.
Fernando nos coloca que os artistas não podem mais se enxergar apenas como um fórum. Salienta a importância de entender que existe um desmonte por aí e que é uma estratégia de poder fascista. O artista não deve perceber a cultura como um necessidade pessoal como artista mas deve se enxergar como cidadão . Destaca também a necessidade de correlação de forças com outros movimentos pois, sem isso, não será possível enfrentar essa onda de extrema direita pesada que veio e está varrendo todos os nossos direitos. Contudo, para isso é preciso revermos nossa posição política.
Para Fernando, as ações dos artistas terão que ser mais pontuais e mais ousadas para poder defender o que nós temos. Não dá mais pra fragmentar as lutas, pois esta fragmentação levou ao enfraquecimento do sindicalismo e de alguns movimentos sociais. “Não adianta ter uma política pública de cultura se eu não tenho uma política pública de saúde”. O ator e diretor também denuncia que no “Brasil desde o governo Temer pra cá, mais de 200 trabalhadores já foram assassinados por questão política entre indígenas, quilombolas, trabalhadores sem-terra e mulheres militantes”.




