A crise na Venezuela, motivada pelos contínuos ataques do Imperialismo ao governo chavista eleito de Nicolás Maduro, dispõe no tabuleiro político praticamente todas as peças do jogo político que vem sendo conduzido na última década em toda a América Latina. As organizações de esquerda devem extrair um aprendizado da experiência concreta recente. Uma vez iniciado o processo de ataque da burguesia ao povo, não há solução negociada possível: a única força política real da classe trabalhadora é sua capacidade de organização e mobilização – e não acordos de camarilha com a direita.
Os padrões do golpismo e da esquerda
Assim como os violentos golpes militares orquestrados pela CIA nas décadas de 1960 e de 1970, o modus operandi golpista atual tem seguido o mesmo padrão: esmagamento econômico e político dos governos da social-democracia de modo a desestabilizá-lo; criação e fomento de grupos fascistas destinados à agitação localizada da pequena-burguesia e em camadas menos favorecidas o proletariado; intensa campanha difamatória na imprensa local e internacional; cooptação de elementos das forças de repressão, das Forças Armadas e do Poder Judiciário (os tradicionais braços da classe dominante desde que o mundo é mundo); acordo com setores mais internacionalizados da burguesia local (sobretudo do setor financeiro) de modo a financiar localmente os representantes políticos centristas, constituindo maiorias parlamentares e partidos políticos de viés direitista; perseguição implacável às organizações e lideranças de esquerda, se necessário lançando mão de grupos fascistas.
A resistência da esquerda – ou sua ausência – também tem seguido um certo padrão.
Em refluxo após anos no poder desde o final do século 20, a classe trabalhadora viu em seus partidos social-democratas uma desmobilizante ascensão da burocracia afeita a cargos e mesmo de setores das burguesias locais. O diagnóstico de Leon Trotsky em seu Programa de transição de 1938 teve reforçada sua atualidade: “a situação política mundial no seu conjunto caracteriza-se, antes de mais nada, pela crise histórica da direção do proletariado. (…) O principal obstáculo na transformação da situação pré-revolucionária em situação revolucionária é o caráter oportunista da direção do proletariado, sua covardia pequeno-burguesa diante da grande burguesia, os laços traidores que mantém com esta, mesmo em sua agonia”.
Tem sido assim em Honduras e no Paraguai, onde a esquerda golpeada lançou-se a uma mera oposição parlamentar – e no segundo caso até mesmo ao apoio aos golpistas em troca de cargos nas instituições burguesas. Tem sido assim no Equador, onde a vitória de um setor centrista da esquerda revelou ser a própria vitória da direita. Tem sido assim no Brasil, onde em detrimento da mobilização popular a esquerda vem mantendo uma crença quase infantil no processo eleitoral e em sua capacidade parlamentar no Congresso bem como uma inexplicável fé no Poder Judiciário. Tal atitude mantém os golpistas com o “mando de campo” por meio das instituições controladas por eles mesmos. Dilma Rousseff foi derrubada da Presidência num processo ilegal, Luiz Inácio Lula da Silva foi preso sem provas, Bolsonaro venceu as eleições fraudadas, lideranças de organizações vêm sendo perseguidas e mesmo assassinadas em todo o país, enquanto assistimos a um aprofundamento do golpe, com o desmonte e privatização de nosso Estado, a entrega de nosso patrimônio, o ataque aos direitos das populações.
Mais um golpe na Venezuela
Por seu caráter pioneiro na ascensão da esquerda na década de 1990, pela organização apoio que a Social-Democracia obteve com os trabalhadores, por sua localização estratégica e por suas gigantescas reservas de petróleo, a Venezuela é a vanguarda no embate da classe trabalhadora latino-americana contra a presente investida do imperialismo. Desde 2002, o imperialismo vem tentando sucessivos golpes contra aquele país, repetidas vezes rechaçados pela população devidamente mobilizada. Seguiram-se anos de boicote econômico somados a uma contínua campanha interna e externa contra o governo nacionalista de Maduro, pontuadas por diversas tentativas de tomada do poder por prepostos políticos do grande capital externo.
É o que vem ocorrendo nesta semana, um grupo de parlamentares do partido de extrema-direita Voluntad Popular (VP), encabeçados pelo presidente da Asamblea Nacional Juan Guaidó resolveu se autoproclamar à frente do governo venezuelano após a posse de Nicolás Maduro. Seria apenas um caso burlesco de um coxinha com delírios de grandeza se esse gesto napoleônico não houvesse ocorrido com articulação internacional e o imediato apoio do governo de Trump nos Estados Unidos e do governo do golpista Jair Bolsonaro no Brasil, dentre outros regimes já francamente cooptados pelo Imperialismo, como a Colômbia ou o Paraguai.
O Imperialismo e seus capachos
De fato, direitistas venezuelanos andaram circulando recentemente no continente americano os países já alinhados com o Imperialismo – no Brasil, o ex-prefeito de Caracas, Antonio Ledezma visitou o Palácio do Planalto após a posse do capitão do exército, o qual por sua vez afirmaria em Davos, Suíça, que espera “que o governo da Venezuela mude rapidamente”, acrescentando em seu discurso oficial que “estamos preocupados em fazer uma América do Sul grande e que cada país mantenha a sua hegemonia local. Não queremos uma América bolivariana como há pouco existia no Brasil, em governos anteriores”.
O governo chavista porém manteve traços da aliança original com setores da burguesia nacional. Tal composição leva a pressões internas dentro do próprio governo de Nicolás Maduro pela negociação com os golpistas. Nisso, vem tendo apoio de alas direitistas não somente da esquerda venezuelana, mas também de outras organizações populares do continente. Foi o caso, por exemplo, do México ou do Uruguay, que se ofereceram para “mediar” o conflito que se anuncia – capitulando ante à ameaça do “banho de sangue” feita pelo próprio Guaidó. Também foi o caso do próprio PT, que após enviar corajosamente uma comitiva à posse de Maduro, publicou uma nota evasiva ponderando polidamente que “não compete ao Brasil nem a outros países decidir quem deve ou não deve governar a Venezuela”.
Ocorre que a luta dos venezuelanos é a luta de todos os povos oprimidos contra o Imperialismo. É a luta da classe trabalhadora latino-americana contra o golpismo. Não se trata apenas dos destinos de um país, mas sim da articulação internacional necessária às organizações populares de modo a rechaçar a brutal ofensiva da direita contra todo o continente. A solução negocial já se mostrou infrutífera: nossas lideranças de esquerda vem oferecendo sucessivamente a outra face aos seus carrascos direitistas, que não fazem outra coisa senão estapeá-las com cada vez mais violência, aprofundando um processo de extermínio de toda oposição à hegemonia imperialista.
O povo venezuelano já foi às ruas, deu mostras de que está organizado e mobilizado, acuando as manifestações de direita, que agora só têm capacidade de realizar ataques localizados em bairros secundários das metrópoles. É papel de toda organização popular, de todo partido político de esquerda – em qualquer país e sobretudo em nosso continente –, apoiar firmemente o regime de Nicolás Maduro e a organização dos trabalhadores da Venezuela. É preciso levar nosso próprio povo às ruas exigindo não apenas a permanência de Maduro, mas também pela retirada imediata de Jair Bolsonaro não apenas da política continental, mas sobretudo da Presidência da República, aonde chegou de modo fraudulento. Todo apoio à Venezuela! Não ao golpe imperialista na América Latina! Fora Bolsonaro!





