O presidente do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Bolívia, Romer Saucedo, anunciou na quarta-feira (4) que fugiu do país com sua família, denunciando perseguição política do governo de Rodrigo Paz. Contra o magistrado, foi expedida uma ordem de prisão por suspeita de envolvimento com o narcotráfico, acusação que ele rejeita.
Saucedo afirmou que sua liberdade e sua vida estavam ameaçadas. Em publicação nas redes sociais, declarou que preferia deixar a Bolívia a permanecer no país sob o risco de prisão ou assassinato. O magistrado também denunciou tentativas de intimidação e afirmou acreditar que seriam fabricadas provas para desacreditá-lo.
A Promotoria boliviana confirmou a existência de uma investigação por tráfico de substâncias controladas e associação criminosa. O procurador-geral interino, José Armando Urioste, anunciou que solicitaria à Interpol a emissão de um alerta vermelho para localizar Saucedo. As autoridades, entretanto, não apresentaram publicamente provas de sua participação nos crimes investigados, alegando que o processo tramita sob sigilo.
O caso ganhou repercussão depois que outras autoridades judiciais foram presas por suspeitas de envolvimento com o narcotráfico, entre elas o ex-procurador-geral Roger Mariaca. A relação de Saucedo com essas investigações ainda não foi esclarecida publicamente.
Saucedo foi eleito magistrado pelo departamento de Santa Cruz em 2024, recebendo mais de 700 mil votos, e posteriormente escolhido por seus pares para presidir o tribunal. O TSJ é a mais alta instância da Justiça comum boliviana, enquanto as questões constitucionais pertencem ao Tribunal Constitucional Plurinacional.
Após sua saída, Rosmery Ruiz assumiu interinamente a presidência do órgão. Saucedo declarou que não renunciará ao cargo e que pretende regressar quando existirem garantias para sua segurança.
Um governo de direita sustentado pela repressão
A crise do Judiciário ocorre num país que atravessa um período de intensos conflitos sociais. Rodrigo Paz assumiu a Presidência em novembro de 2025, após uma eleição da qual Evo Morales foi impedido de participar por decisões judiciais. O ex-presidente havia sido uma das principais figuras políticas bolivianas durante quase duas décadas.
Morales denunciou a proibição de sua candidatura como uma manobra política. A exclusão representou uma fraude contra o direito da população de escolher seus representantes, favorecendo a chegada da direita ao governo.
Depois da posse, Paz iniciou um programa de arrocho econômico. Em dezembro de 2025, anunciou a retirada dos subsídios aos combustíveis por meio do Decreto Supremo 5503. A medida provocou manifestações e bloqueios de estradas organizados pela Central Operária Boliviana (COB) e por outras organizações populares.
Sob pressão, o governo retirou parte do decreto, mas manteve o fim dos subsídios. Novas medidas contra direitos trabalhistas e mudanças nas regras agrárias ampliaram a revolta.
Em maio, a Bolívia foi praticamente paralisada por uma greve geral e pelos bloqueios realizados por mineiros, professores, transportadores, camponeses, índios e trabalhadores de diversas categorias. Em La Paz e El Alto, os manifestantes passaram a exigir a renúncia de Paz.
O presidente respondeu com operações policiais e militares. Em 18 de maio, uma ofensiva destinada a remover bloqueios mobilizou milhares de agentes. Aproximadamente 100 manifestantes foram presos, incluindo dois adolescentes.
A repressão prosseguiu em junho. Paz sancionou uma legislação que facilitava a decretação de medidas excepcionais e, no dia 20 daquele mês, declarou estado de emergência por 90 dias. O decreto autorizou a participação das Forças Armadas na remoção dos bloqueios e proibiu a obstrução de estradas que prejudicasse o abastecimento.
Na ocasião, as autoridades já contabilizavam 365 detenções e 37 feridos em confrontos relacionados às manifestações.
Lula ajudou o governo contra os trabalhadores
Foi durante essa revolta que o governo brasileiro decidiu prestar auxílio a Rodrigo Paz.
Em 25 de maio, Lula conversou por telefone com o presidente boliviano e anunciou o envio de ajuda humanitária ao país. O governo brasileiro informou que a iniciativa pretendia enfrentar o desabastecimento provocado pelos bloqueios de estradas.
Na mesma ocasião, Paz solicitou o empréstimo de uma aeronave da Força Aérea Brasileira para distribuir alimentos e insumos que não conseguiam chegar às cidades. O pedido foi examinado pelo governo brasileiro.
O Palácio do Planalto declarou solidariedade ao governo de Paz e defendeu o respeito às instituições e ao Estado de Direito. Pediu ainda que o governo boliviano e os movimentos sociais privilegiassem o diálogo, atuando como um verdadeiro fura-greve.
A ‘democracia’ muda conforme a conveniência
No Brasil, os dirigentes petistas apresentam o Supremo Tribunal Federal como uma instituição fundamental para impedir o avanço da extrema direita. As arbitrariedades cometidas contra os adversários políticos do governo são frequentemente justificadas como medidas necessárias ao combate ao golpismo e ao fascismo.
Alexandre de Moraes foi transformado numa espécie de símbolo dessa política. O PT defendeu sua atuação contra Bolsonaro e seus aliados, mesmo diante das denúncias de censura, perseguição política e violação das garantias dos acusados.
Entretanto, na Bolívia, o governo com o qual Lula mantém boas relações está sendo acusado pelo próprio presidente da mais alta corte da Justiça comum de persegui-lo e tentar afastá-lo.
Se a simples invocação das instituições fosse suficiente para demonstrar o caráter democrático de um governo, como explicar a política de Paz? E como justificar a colaboração brasileira com um presidente que colocou as Forças Armadas nas ruas para enfrentar grevistas?





