Centenas de pessoas se reuniram diante de uma instalação militar utilizada pelo grupo Azov, nos arredores de Quieve, capital da Ucrânia, após denúncias de que soldados estavam sendo mantidos presos e submetidos a maus-tratos. O protesto, realizado em 2 de novembro, terminou em confrontos com a polícia e a Guarda Nacional ucraniana. Quatro militares feridos foram retirados do imóvel para receber atendimento médico. As autoridades abriram uma investigação sobre possíveis abusos cometidos pelos responsáveis pela instalação.
O acontecimento ocorreu em Petropavlivska Borshchahivka, localidade próxima à capital ucraniana. O imóvel, uma residência particular de dois andares, era utilizado pela unidade militar 3121, pertencente ao 1º Corpo da Guarda Nacional da Ucrânia, comandado pelo Azov. A própria organização reconheceu que abrigava ali homens recentemente mobilizados e soldados que haviam abandonado suas unidades sem autorização.
A denúncia que desencadeou a manifestação foi divulgada por Valentyna Moloda, uma mulher de 49 anos que chegou ao local numa ambulância e se apresentou como integrante de uma equipe médica. Segundo ela, cerca de 40 homens estavam sendo mantidos contra a vontade no prédio. Moloda afirmou que alguns estavam gravemente feridos, que um deles apresentava uma fratura na coluna e que outro havia morrido.
As informações circularam rapidamente pelas redes sociais. Moradores e familiares de militares passaram a se concentrar diante do imóvel, exigindo que os homens fossem libertados e recebessem atendimento médico.
O protesto ganhou grandes proporções ao longo do dia. Segundo a Al Jazeera, que realizou uma reportagem no local, a multidão chegou a aproximadamente 500 pessoas. Manifestantes tentaram derrubar os portões, lançaram objetos contra os militares e enfrentaram a polícia, que utilizou gás lacrimogêneo. Houve disparos de arma de fogo, mas as autoridades não esclareceram quem atirou.
A crise obrigou o comandante da Guarda Nacional, Oleksandr Pivnenko, e o chefe do Gabinete Presidencial, Kirilo Budanov, a comparecerem ao local. Ambos participaram das negociações com os manifestantes.
O comando militar determinou a retirada de homens que estavam no interior do prédio. A multidão chegou a bloquear um ônibus da Guarda Nacional, impedindo sua saída. Os confrontos prosseguiram até perto da meia-noite.
A agência Reuters informou que as autoridades investigavam as circunstâncias em que 22 militares haviam sido mobilizados ou reconduzidos ao serviço. Posteriormente, um comandante do Azov declarou ao jornal Ukrainska Pravda que havia 26 mobilizados na instalação, além de integrantes da própria unidade.
A existência de quatro homens feridos foi confirmada. As denúncias de tortura, entretanto, ainda não foram comprovadas. A polícia negou que alguém tivesse morrido no imóvel.
O comandante Pavlo Kurchenko apresentou explicações individuais para os ferimentos, atribuindo-os a problemas anteriores de saúde, acidentes e episódios envolvendo militares sob efeito de substâncias. Um dos homens, Oleksandr Pavliuchenko, possuía diagnóstico de fratura numa vértebra. Segundo o comandante, a lesão ocorrera anteriormente, durante um deslocamento para um abrigo antiaéreo.
O Departamento Estatal de Investigações da Ucrânia abriu um procedimento para apurar possíveis excessos de autoridade e as condições em que os homens eram mantidos. A Ouvidoria Militar também passou a examinar o caso. A apuração deverá determinar a origem dos ferimentos e a legalidade das medidas adotadas pelos militares.
Um exército que enfrenta centenas de milhares de casos de deserção
O caso ocorreu quando o governo de Vladimir Zelensqui enfrenta dificuldades prolongadas para conseguir soldados e manter suas unidades militares em funcionamento.
Segundo informações da Procuradoria-Geral da Ucrânia divulgadas pelo jornal The New Voice of Ukraine, entre fevereiro de 2022 e outubro de 2025 foram registrados aproximadamente 255 mil procedimentos criminais por ausência não autorizada do serviço militar e outros 56,2 mil por deserção. São mais de 311 mil procedimentos, embora o número não corresponda necessariamente à mesma quantidade de soldados, já que uma pessoa pode figurar em mais de uma ocorrência.
A maior parte dos casos se concentrou nos últimos anos. Somente entre janeiro e outubro de 2025 foram abertos aproximadamente 162,5 mil procedimentos por abandono não autorizado de unidades militares.
Os números mostram o tamanho do problema enfrentado pelo governo ucraniano. Uma parte dos soldados deixa suas unidades depois de permanecer por longos períodos nas frentes de combate, frequentemente sem perspectivas definidas de desmobilização.
Um estudo publicado em abril de 2026 pelo Centro de Estudos Orientais da Polônia apontou que a ausência de prazos claros para o término do serviço militar e as deficiências na organização das unidades estão entre os principais fatores associados ao abandono das tropas.
O mesmo estudo registrou que, segundo representantes das autoridades ucranianas, diversas brigadas operavam com apenas 40% a 60% de seus efetivos previstos.
A resposta do governo tem sido intensificar a mobilização de novos soldados. Homens em idade militar são abordados por agentes dos centros territoriais de recrutamento, que passaram a atuar de maneira ostensiva nas ruas.
A própria imprensa internacional tem documentado denúncias de espancamentos, intimidação e detenções irregulares durante essas operações. A Al Jazeera informou que, até agosto de 2026, 76 agentes de recrutamento haviam sido presos em investigações sobre corrupção.
Os abusos e a possibilidade de ser enviado para a frente de combate produziram uma resistência crescente ao recrutamento. Há registros de familiares e moradores intervindo para impedir que homens sejam levados pelos agentes militares.
Azov ocupa posição importante no aparato militar ucraniano
O envolvimento do Azov torna o escândalo particularmente significativo. Criada em 2014, a organização surgiu como um batalhão de mercenários formado por nazistas.
Posteriormente, o grupo foi incorporado à Guarda Nacional ucraniana, recebeu armamentos e passou por sucessivas reorganizações. Atualmente, o Azov integra oficialmente a estrutura militar do Estado.
As origens da organização chegaram a provocar restrições ao fornecimento de armamentos norte-americanos. Em junho de 2024, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou a retirada dessas restrições, depois de afirmar que uma avaliação não encontrara provas de graves violações de direitos humanos cometidas pela brigada examinada.
A decisão norte-americana permitiu ampliar a cooperação militar com uma organização surgida de setores da extrema direita ucraniana. O crescimento de seu papel nas Forças Armadas ocorre paralelamente à crise de pessoal e às dificuldades enfrentadas pelo governo para sustentar a guerra.
O caso de Petropavlivska Borshchahivka mostra que militares ligados ao Azov também participam do processo de recepção e recondução de soldados ao serviço. Um dos comandantes admitiu que um militar que havia abandonado sua unidade foi localizado em sua residência, detido por integrantes do regimento e levado à instalação.
Autoridades prendem denunciantes e investigam manifestação
O governo ucraniano reagiu à manifestação acusando seus organizadores de promover uma provocação destinada a prejudicar as Forças Armadas.
Valentyna Moloda foi presa em 3 de novembro. As autoridades afirmaram que ela utilizou indevidamente a aparência de uma equipe médica e participou de uma operação previamente organizada para retirar um militar da instalação.
Outras duas pessoas também tiveram a prisão preventiva determinada. A polícia abriu investigações sobre desordens públicas, ataques aos agentes de segurança e divulgação da localização de instalações militares.




