França

Mais de 1 milhão nas ruas e paralisação contra o regime de Macron

CGT contabilizou 350 mil manifestantes em Paris; mobilização reuniu operários, estudantes e coletes amarelos sob operação de 70 mil policiais

Manifestação e greve geral na França contra a política de Macron. Foto: Jeanne Menjoulet / Flickr (CC BY 4.0)

A França teve nesta quinta-feira (5) um dia nacional de greve e manifestações contra a carestia e a política econômica neoliberal do governo de Emmanuel Macron. Segundo a Confederação Geral do Trabalho (CGT), cerca de 1,6 milhão de pessoas foram às ruas em todo o país, das quais 350 mil em Paris. O Ministério do Interior apresentou uma estimativa de 600 mil manifestantes. Mas mesmo uma média entre as duas estimativas indicaria, portanto, mais de um milhão de franceses nas ruas ontem.

Convocada pelas principais centrais sindicais, a paralisação reuniu trabalhadores dos setores público e privado, estudantes, coletes amarelos e organizações camponesas.

A secretária-geral da CGT, Sophie Binet, afirmou que o número de manifestantes foi duas vezes maior que o registrado em 17 de outubro. “Nada nos deterá. A única coisa que fará cessar a mobilização é o atendimento das reivindicações”, declarou, segundo o jornal francês L’Humanité. Os grevistas exigem aumento dos salários e do salário mínimo, investimentos nos serviços públicos e medidas contra a alta dos preços.

Em Paris, a Praça da República ficou lotada antes do início previsto da passeata. A multidão seguiu em direção à Praça da Nação, por um trajeto imposto pela prefeitura de polícia. Segundo o L’Humanité, o percurso era estreito demais para a quantidade de participantes, que se concentraram nas ruas próximas.

Entre os grupos presentes estavam cerca de cem operários da fábrica de alimentos Bigard, de Quimperlé, na Bretanha. Eles denunciaram o aumento do custo de vida, especialmente dos combustíveis.

Ferroviários e estudantes marcharam juntos

A greve dos ferroviários teve um episódio importante na estação de Montparnasse, na capital. Trabalhadores da companhia SNCF realizaram uma assembleia geral com a participação de Binet. Estudantes universitários e secundaristas juntaram-se aos grevistas e seguiram com eles até a Praça da República.

“É importante manter o vínculo estabelecido com os estudantes universitários e secundaristas mobilizados”, afirmou Marcel, maquinista de 27 anos ouvido pelo L’Humanité.

A adesão do setor educacional também foi expressiva. Segundo o Sindicato Nacional do Ensino Secundário (Snes-FSU), 52% dos professores e demais profissionais das escolas secundárias paralisaram suas atividades. Quase mil estabelecimentos foram bloqueados, total ou parcialmente, ou fechados administrativamente.

O sindicato lembrou que a greve se seguiu à paralisação do funcionalismo de 29 de setembro e a cinco semanas de protestos estudantis.

Os coletes amarelos, que se destacaram nas manifestações contra Macron iniciadas em 2018, participaram dos atos ao lado dos sindicatos. O dia de greve deu continuidade aos protestos de sábado (31), que haviam reunido entre 320 mil e 500 mil pessoas.

Inflação corrói os salários

Os dados econômicos explicam a revolta. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos (INSEE), o poder de compra das famílias caiu 0,2% no primeiro trimestre e 0,6% no segundo trimestre de 2026. A previsão para o ano é de recuo de 0,4%. Em setembro, a inflação acumulada em 12 meses chegou a 3%, enquanto os salários aumentaram apenas 1,6%.

A CGT informa que mais de nove milhões de trabalhadores recebem, por mês, menos que o salário mínimo francês, o Smic, incluindo empregados de meio período e contratos curtos.

Na fábrica da Stellantis em Poissy, cerca de 20 empregados aderiram à greve. “Os salários precisam, sem dúvida, ser aumentados, porque tudo está ficando mais caro”, disse à Rádio França Internacional (RFI) o eletricista Ken Armede.

A CGT defende um reajuste de 10% do salário mínimo. As centrais também reivindicam mais investimentos públicos e maior tributação dos ricos, enquanto o governo apresenta um orçamento com cortes nas despesas do Estado.

70 mil agentes para reprimir os manifestantes

O governo respondeu à convocação da greve com uma operação policial de grandes proporções. Na quarta-feira (4), o ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou o emprego de 70 mil policiais e gendarmes e prometeu uma reação de “extrema firmeza” a eventuais incidentes. Em várias cidades, as autoridades restringiram ou proibiram manifestações.

Em Lião, a Justiça manteve a proibição de um ato no centro urbano. Em Paris, um tribunal administrativo confirmou o percurso alternativo definido pela polícia, contra a vontade dos organizadores. A secretária-geral da CGT denunciou uma “deriva autoritária” do governo.

Em Estrasburgo, a polícia deteve cerca de 50 manifestantes. Dezenas deles foram colocados em um ônibus requisitado à companhia municipal de transportes. Os organizadores estimaram em 30 mil o público na cidade.

A violência policial também atingiu a juventude. Em La Courneuve, um estudante de 16 anos ficou ferido durante um bloqueio diante do colégio Denis-Papin. A mobilização de 70 mil agentes demonstrou que Macron prefere intimidar os trabalhadores a atender suas reivindicações.

Greve pode continuar

Diante da dimensão dos protestos, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou uma conferência social para segunda-feira (9). O ministro do Trabalho, Jean-Pierre Farandou, já havia prometido medidas salariais. Os sindicatos, porém, não anunciaram o fim das paralisações.

Frédéric Souillot, dirigente da Força Operária (FO), defendeu negociações salariais imediatas e mencionou a possibilidade de uma greve por tempo indeterminado. Os coletes amarelos convocaram outro protesto para sábado (7), na Praça da Concórdia, em Paris, apesar da proibição das autoridades.

A greve mostrou o tamanho da insatisfação com o regime neoliberal de Macron, capacho dos banqueiros e dos grandes capitalistas. Enquanto os salários perdem valor e os serviços públicos sofrem cortes, o governo mobiliza dezenas de milhares de policiais para defender sua política. Os trabalhadores franceses responderam com greves e manifestações, unindo operários, estudantes e camponeses. É esse o caminho que os trabalhadores e a juventude brasileira devem seguir para enfrentar a carestia e os ataques aos seus direitos.

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