O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou nesta quinta-feira (5), depois que a quebra do Ueno Bank, instituição ligada a seus antigos negócios, deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso ao dinheiro e atingiu os fundos de aposentadoria do país. A saída ocorreu em meio a manifestações e a um pedido de impeachment no Congresso. O vice-presidente Pedro Alliana deverá substituí-lo.
O escândalo expôs a associação entre os banqueiros e o governo paraguaio. Recursos recolhidos dos trabalhadores para pagar aposentadorias foram depositados em um banco controlado por empresários próximos ao poder. Quando a instituição deixou de cumprir suas obrigações, os depositantes ficaram com as contas congeladas.
Na terça-feira (3), o Banco Central do Paraguai (BCP) determinou a liquidação do Ueno Bank após constatar sua insuficiência de capital. O banco havia crescido rapidamente com serviços digitais e se tornado o maior emissor de cartões de crédito do país. As investigações identificaram empréstimos a empresas vinculadas ao grupo controlador.
O dinheiro das aposentadorias
O Ueno Bank concentrava cerca de US$850 milhões em depósitos de órgãos públicos. Desse total, entre US$345 milhões e US$380 milhões pertenciam ao Fundo Comum de Aposentadorias e Pensões do Instituto de Previsão Social (IPS), de acordo com o Resumen Latinoamericano.
O dinheiro destinado aos aposentados foi colocado à disposição de um banco privado. O jornalista Adilio Lezcano denunciou que mudanças no manual de investimentos do IPS retiraram limites que impediam a aplicação de parcelas tão grandes dos recursos previdenciários em uma única instituição.
A medida permitiu que a poupança dos trabalhadores alimentasse os negócios de um grupo financeiro favorecido pelo governo. A quebra mostrou o caráter dessa política: os banqueiros utilizam recursos sociais para financiar suas operações, mas os trabalhadores ficam expostos aos prejuízos.
O governo prometeu acelerar a devolução dos depósitos cobertos pelo Fundo de Garantia, até 75 salários mínimos, aproximadamente US$39 mil por pessoa. Valores superiores dependerão da liquidação dos bens do banco. Não havia garantia de recuperação integral dos recursos previdenciários.
O fiscal era um antigo dirigente do banco
Peña permaneceu acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, até março de 2025, quando já governava o país havia mais de um ano. Carlos Carvallo, presidente do Banco Central desde 2023, havia comandado a financeira Ueno antes de assumir a fiscalização do sistema bancário. Carvallo renunciou depois da intervenção.
O Ministério Público acusou 27 pessoas ligadas ao banco e a empresas relacionadas. Oito dirigentes foram presos, entre eles o presidente-executivo Miguel Vázquez. As suspeitas incluem empréstimos irregulares e negócios entre empresas do mesmo grupo, ainda sujeitos à apuração judicial.
A chamada independência do Banco Central não impediu que um antigo dirigente da instituição assumisse o órgão encarregado de fiscalizá-la. Não foi apenas uma falha administrativa. Os representantes do capital financeiro ocupavam postos decisivos do Estado enquanto recursos dos trabalhadores eram entregues a seus negócios.
A crise
Na quarta-feira (4), 35 deputados apresentaram uma iniciativa de impeachment contra Peña. No dia seguinte, segundo a teleSUR, o Partido Colorado retirou seu apoio, afirmando que não ficaria “do lado do roubo dos fundos públicos, privados e dos aposentados”. Sem sustentação política, Peña anunciou a renúncia.
Deputados contrários à aceitação imediata da saída exigiram a continuidade do julgamento político. Alegaram que Peña poderia adquirir os privilégios de senador vitalício e dificultar sua responsabilização judicial. Também houve questionamentos contra Alliana, acusado por adversários de ter defendido medidas relacionadas ao caso.
O Partido Colorado, que governa o Paraguai quase sem interrupções desde 1947, procura preservar o regime com a substituição do presidente. A troca por Alliana não altera a ligação dos grandes empresários com o Estado.
Quem paga a conta
A direita brasileira costuma apresentar o Paraguai como exemplo de liberdade econômica, com impostos reduzidos e vantagens aos investidores. O escândalo do Ueno Bank mostrou quem se beneficia dessa liberdade. O governo utilizou recursos públicos para favorecer um banco privado ligado a seus dirigentes. Quando a instituição quebrou, milhões de pessoas ficaram impedidas de retirar suas economias.
Se os prejuízos forem transferidos aos fundos previdenciários, os aposentados pagarão por operações das quais não participaram. Os mesmos setores que defendem a entrega da poupança social aos banqueiros poderão usar as perdas para justificar novos ataques às aposentadorias.
É preciso exigir a restituição integral dos depósitos, a recuperação dos recursos do IPS e a responsabilização dos envolvidos. A queda de Peña não basta: é necessário impedir que a poupança dos trabalhadores continue sendo utilizada para financiar a especulação financeira.



