América Latina

Paraguaios têm contas congeladas em banco ligado ao presidente

Quase metade da população tem conta no Ueno Bank, instituição ligada ao presidente Santiago Peña. Escândalo provocou a renúncia do presidente do Banco Central

O Banco Central do Paraguai (BCP) interveio, nesta terça-feira (3), no Ueno Bank, instituição financeira ligada ao presidente Santiago Peña, após identificar uma grave insuficiência de capital. A medida suspendeu os serviços bancários e deixou milhões de paraguaios sem acesso imediato ao próprio dinheiro. A crise provocou a renúncia do presidente do BCP, Carlos Carvallo, e manifestações exigindo o impeachment de Peña.

O escândalo expôs as relações entre o governo e os banqueiros. Peña foi acionista de um grupo que controlava o Ueno Bank até 2025. Carvallo, responsável pela fiscalização dos bancos desde 2023, havia presidido a financeira Ueno antes de assumir o Banco Central.

Quase metade dos 6,4 milhões de paraguaios tem conta na instituição, que também administra recursos de fundos de pensão e outras entidades estatais. Segundo o senador oposicionista Rafael Filizzola, os prejuízos ultrapassam US$3 bilhões, aproximadamente R$16,47 bilhões.

Em Assunção, longas filas se formaram diante das agências. O Banco Central anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis, aproximadamente R$9.200,00, aos depositantes com recursos bloqueados.

“Perdi todas as economias da minha vida, só tenho 8 mil guaranis (R$7,35). Todos devem ir para a prisão”, declarou à AFP Marcelino Vergara, de 68 anos, durante uma manifestação na capital.

O caso revelou o que está por trás da política econômica paraguaia, tão elogiada pela direita brasileira por suas facilidades à iniciativa privada e ao investimento estrangeiro. O que se apresenta como liberdade econômica é um sistema de privilégios para os grandes capitalistas, sustentado pelo Estado.

Um banco favorecido pelo governo

A ligação entre o Ueno Bank e o poder político não se limitava à participação de Peña no grupo controlador. Segundo Filizzola, o governo adotou medidas que favoreceram a instituição, incluindo o direcionamento de recursos públicos.

“Quase todos os recursos públicos e as economias do Estado foram direcionados ao banco. Sua ligação com esse escândalo é direta”, afirmou o senador, referindo-se ao presidente.

Filizzola também acusou Peña de flexibilizar mecanismos das leis anticorrupção para beneficiar a instituição. Segundo o parlamentar, o presidente continuou envolvido no esquema mesmo depois de se desfazer formalmente de suas ações.

As denúncias são particularmente graves porque o banco administrava recursos públicos, incluindo dinheiro de fundos de pensão. Valores destinados a aposentadorias e outras obrigações estatais foram entregues a uma instituição ligada aos próprios dirigentes do governo.

A renúncia de Carvallo agravou a crise. Inicialmente, o presidente do Banco Central anunciou que deixaria o cargo, mas permaneceria durante as investigações. Horas depois, após Peña exigir sua saída, formalizou o pedido.

A Justiça também determinou a prisão de oito diretores do Ueno Bank, entre eles seu presidente, Miguel Vázquez, que se apresentou à polícia. Diante do escândalo, Peña cancelou uma viagem a Madri, enquanto manifestantes exigiam sua destituição nas ruas de Assunção.

O paraíso dos banqueiros

O Paraguai tornou-se uma referência para empresários brasileiros interessados em reduzir impostos e despesas trabalhistas. O país é apresentado como exemplo das vantagens da liberdade econômica, da baixa tributação e dos incentivos ao capital estrangeiro.

O escândalo bancário mostrou quem são os beneficiários dessa política.

Longe de representar a ausência de intervenção estatal, o modelo paraguaio depende de uma atuação permanente do governo em favor dos grandes capitalistas. Enquanto empresários recebem benefícios fiscais e facilidades para seus investimentos, trabalhadores enfrentam baixos salários e condições desfavoráveis de trabalho.

No caso do Ueno Bank, as denúncias indicam que o próprio Estado direcionou recursos para uma instituição ligada ao presidente da República.

A crise atingiu também pequenos comerciantes, profissionais autônomos e outros setores da pequena burguesia. Para quem depende do dinheiro depositado no banco para pagar fornecedores, funcionários ou despesas domésticas, o bloqueio das contas pode significar a ruína financeira.

O governo, que se apresenta como defensor da propriedade privada, não conseguiu assegurar aos depositantes o acesso imediato às próprias economias.

Quase 80 anos de domínio oligárquico

O domínio dos grandes capitalistas sobre o Estado paraguaio não surgiu com Peña. O país é governado quase ininterruptamente pelo Partido Colorado desde 1947. Durante 35 anos, entre 1954 e 1989, esteve submetido à ditadura militar de Alfredo Stroessner, sustentada pelo mesmo partido.

A derrubada de Stroessner não acabou com o predomínio colorado. A organização continuou controlando o governo durante a chamada transição democrática, preservando a influência dos grandes latifundiários, empresários e banqueiros.

A única exceção ocorreu em 2008, com a eleição de Fernando Lugo. Seu governo, entretanto, foi derrubado em 2012 por um impeachment aprovado pelo Congresso em menos de dois dias. Em 2013, o Partido Colorado recuperou a Presidência após aquele golpe de Estado.

Peña, eleito em 2023, é mais um representante desse regime. Antes de chegar à Presidência, ocupou o Ministério da Fazenda durante o governo de Horacio Cartes, empresário e uma das principais lideranças coloradas.

A continuidade desse domínio explica a concentração do poder político nas mãos de um pequeno número de grupos econômicos. Os dirigentes do Estado pertencem, muitas vezes, aos próprios grupos empresariais que deveriam fiscalizar.

O escândalo do Ueno Bank demonstrou que a chamada independência do Banco Central não impediu a ligação entre o órgão fiscalizador e os banqueiros. Também mostrou que o problema ultrapassa a conduta individual dos dirigentes envolvidos: está no próprio regime oligárquico paraguaio.

A liberdade econômica propagandeada pela direita latino-americana significa, na prática, entregar aos grandes empresários condições privilegiadas para explorar os trabalhadores e administrar recursos públicos.

Enquanto os banqueiros movimentavam bilhões de dólares com o favorecimento do governo, milhões de paraguaios descobriram que não podiam retirar o próprio dinheiro. Esse é o resultado do modelo que a direita brasileira apresenta como exemplo a ser seguido.

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