O presidente nacional do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou nesta sexta-feira (6), em entrevista à jornalista Anáisse, da TV 247, que o quarto governo de Luiz Inácio Lula da Silva será um governo de crise, marcado pelo aprofundamento dos acordos com a burguesia e pelas dificuldades econômicas. Segundo ele, a vitória eleitoral do petista não interrompeu o esgotamento do regime político brasileiro, que faz parte de uma crise internacional.
“Agora, o Lula, por exemplo, ele vai ter que fazer um governo em aliança muito mais estreita com a burguesia do que os governos anteriores. Eu vi aí que ele tá procurando o Kassab, tá procurando o Aécio Neves e tal para formar um governo com o que sobrou dos partidos típicos do regime político do lado da burguesia. Tudo isso são, na minha opinião, sintomas de crise. Eu acho que o governo Lula vai ser um governo de crise”, declarou.
Pimenta explicou que a vitória de Lula foi mais favorável à política do PCO do que seria a de Flávio Bolsonaro, mas rejeitou a ideia de que o resultado representasse uma recuperação do regime político. Lembrou que o Partido é revolucionário e não considera as eleições um instrumento de transformação da sociedade.
O dirigente destacou que Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno e recebeu uma votação expressiva, o que demonstrou a força da direita e a insatisfação de uma parcela considerável da população. Para ele, o resultado eleitoral mostrou que o PT enfrenta dificuldades que não desaparecerão com a conquista de mais um mandato presidencial.
Uma crise internacional
A avaliação sobre o Brasil foi relacionada por Pimenta à situação política internacional. Ao comentar os protestos na França e em outros países europeus, afirmou que as manifestações decorrem do esgotamento dos regimes estabelecidos depois da Segunda Guerra Mundial.
“Eu acho que não é um problema de geração Z, nada. É um problema do colapso do regime político francês e dos outros países também. Isso aí chegou num ponto de esgotamento total. Nós estamos vendo aqui uma mudança profunda. É o esgotamento, na realidade, se a gente for pegar uma linha do tempo um pouco mais abrangente, dos regimes que foram estabelecidos depois da Segunda Guerra Mundial, da chamada democracia”, afirmou.
Segundo Pimenta, a crise econômica é o principal fator desse processo. As manifestações europeias seriam apenas o começo de uma crise que deverá adquirir proporções muito maiores. O fenômeno, acrescentou, não se limita à Europa e atinge também o Brasil.
Nos Estados Unidos, o dirigente atribuiu a derrota eleitoral de Donald Trump para os democratas à política externa adotada pelo presidente norte-americano. Trump havia prometido encerrar as guerras imperialistas, mas acabou se aproximando dos setores tradicionais do imperialismo, nomeando Marco Rubio para comandar a política externa e promovendo agressões contra países da América Latina e contra o Irã.
Pimenta classificou essa mudança como um estelionato eleitoral. Segundo ele, Trump abandonou as promessas que o levaram à presidência e perdeu o apoio de parte de seu eleitorado. O dirigente também destacou a importância da mobilização contra o genocídio na Faixa de Gaza para a crise política norte-americana.
Ao comentar a guerra contra o Irã, afirmou que a derrota do imperialismo representou um acontecimento importante, mas não significou o fim das agressões contra o país.
“Não acho que a agressão imperialista contra o Irã vai terminar, vai mudar de forma diante dessa derrota, mas não vai terminar. Os democratas, por exemplo, se eles chegarem à presidência da República no próximo mandato, eles são um perigo tão grande ou maior ainda pro Irã do que o Trump”, advertiu.
Para Pimenta, Trump subestimou a capacidade de resistência iraniana e o apoio popular ao aiatolá Ali Khamenei. A aventura militar também teve consequências econômicas negativas para os Estados Unidos, contribuindo para o desgaste do governo.
A crise do sionismo foi outro assunto abordado. Diante da possibilidade de queda de Benjamin Netaniahu, Pimenta afirmou que a política de extermínio na Faixa de Gaza havia provocado uma crise profunda no regime israelense.
“Primeiro, ao contrário da propaganda imperialista e sionista, a questão de Gaza foi uma crise total para o sionismo. A queda do Netaniahu é a demonstração disso, porque, se ele tivesse sido bem-sucedido, ele não iria cair”, declarou.
O dirigente também destacou o crescimento eleitoral dos partidos árabes, que poderão desempenhar um papel decisivo na formação do próximo governo israelense. Segundo ele, isso amplia as contradições internas do regime sionista.
Pimenta não espera que uma eventual substituição de Netaniahu modifique a natureza do Estado de “Israel”. Considerou possível, entretanto, uma mudança na política adotada contra os palestinos, não por uma diferença de princípios entre os dirigentes sionistas, mas pela impossibilidade de continuar a política anterior.
O esgotamento da política do PT
No Brasil, Pimenta avaliou que a situação econômica será o principal problema do próximo governo. Segundo ele, os governos petistas não reverteram as privatizações nem os fundamentos da política neoliberal implantada anteriormente. Em vez disso, procuraram compensar seus efeitos com programas sociais e outras medidas limitadas.
“Eles adotaram uma política compensatória, mas não uma política de reversão de rumos. Agora, eu acho que nós temos que nos basear no governo que tá se encerrando agora. Esse governo fez isso que você falou, ele procurou equilibrar as coisas. Ao invés de adotar uma atitude drástica, adotou uma política neoliberal moderada, mas foi um desastre. A eleição mostrou isso”, afirmou.
Para o dirigente, a derrota de Lula no primeiro turno mostrou que essa política perdeu a capacidade de conquistar o apoio de setores importantes da população. Parte dos eleitores de Flávio Bolsonaro, segundo ele, votou no candidato da direita não por convicção bolsonarista, mas por considerar que o País não oferece perspectivas de melhora.
O presidente do PCO destacou ainda que a dívida pública cresceu, os juros continuam elevados e o endividamento da população dificulta a manutenção das políticas compensatórias. Segundo ele, as despesas anuais com juros ultrapassam R$1 trilhão, enquanto uma parcela expressiva dos trabalhadores depende de empregos mal remunerados ou de programas sociais.
Pimenta considerou que Lula será pressionado a realizar um ajuste fiscal em acordo com os bancos. Criticou a política de equilíbrio fiscal adotada pelos governos da Nova República, afirmando que ela não oferece uma saída para o desenvolvimento econômico brasileiro.
“O grande problema do ajuste fiscal não é o ajuste fiscal em si, é que isso daí não leva a lugar nenhum. O Brasil tá vivendo essa política neoliberal, um dos pilares da política neoliberal é equilíbrio fiscal. E isso já tá aprovado. Nós temos, desse ponto de vista, não apenas o governo Lula, mas todos os governos da chamada Nova República. O País só perdeu com isso”, declarou.
Questionado sobre a possibilidade de Lula combinar os acordos parlamentares com uma mobilização popular, o dirigente afirmou que o PT tradicionalmente evita esse tipo de iniciativa quando está no governo.
Como exemplo, lembrou que, no início do terceiro mandato, Lula procurou mobilizar seus apoiadores contra a política de juros do Banco Central, mas abandonou rapidamente a campanha.
Pimenta também contestou a importância atribuída ao chamado Exército do Lula, organizado nas redes sociais com a participação do deputado André Janones. Para ele, os números apresentados pelos organizadores não demonstram a existência de um movimento popular capaz de influenciar os rumos do governo.
O dirigente destacou que as primeiras iniciativas políticas do novo mandato apontam em outra direção. Citou as negociações com o União Brasil e o PSDB, a preparação de um ajuste fiscal e a política de segurança pública.
“A burguesia tem muito mais peso do que as forças populares. E segundo, é uma política de administração da situação, não é uma política de reversão, de mudança estrutural. Então, eu acho que nós temos que considerar o seguinte: é uma política que o Lula vem fazendo há muito tempo e essa política tá esgotada”, afirmou.
STF não tem credibilidade
Outro tema da entrevista foi a atuação do Supremo Tribunal Federal (STF). Questionado sobre sua caracterização de Flávio Bolsonaro como perseguido político, Pimenta explicou que a perseguição não depende necessariamente da inocência do acusado.
“Porque não são só as pessoas inocentes que são perseguidas. Por exemplo, o culpado pode ser perseguido também. Daniel Vorcaro, por exemplo, ele tá sendo perseguido e ele é culpado”, afirmou.
O dirigente declarou que não tinha condições de determinar se Flávio Bolsonaro havia cometido os crimes investigados, mas considerou que os inquéritos foram instaurados por razões políticas.
“O STF não tem credibilidade. Eles abriram esses inquéritos aí por motivos eleitorais, os dois inquéritos onde o Flávio Bolsonaro aparece. Só isso já seria motivo para você ficar contra os inquéritos”, declarou.
Pimenta também comentou a possibilidade de novos enfrentamentos entre o bolsonarismo e o Supremo no Senado. Segundo ele, o resultado dependerá da capacidade de organização da direita, que saiu fortalecida das eleições.
O presidente do PCO advertiu que o governo Lula poderá enfrentar manifestações populares caso as condições econômicas se agravem. Lembrou que os protestos de junho de 2013 começaram em São Paulo, contra a repressão da Polícia Militar durante o governo de Geraldo Alckmin, e posteriormente foram aproveitados pela direita.
Uma situação semelhante, segundo ele, poderá ocorrer novamente. Pimenta considerou que o bolsonarismo está mais organizado e continuará fazendo oposição ao governo, independentemente das tentativas de Lula de conquistar apoio entre setores conservadores.
Nesse sentido, criticou a proposta de criação do Ministério da Segurança Pública. Para o dirigente, medidas destinadas a fortalecer o aparato policial tendem a beneficiar a direita bolsonarista, que exerce grande influência sobre as forças de segurança.
Ao avaliar as perspectivas do quarto mandato, Pimenta afirmou que o governo dependerá de uma melhora das condições econômicas internacionais para manter sua política sem grandes dificuldades. Considerou, porém, mais provável um agravamento da situação.
“Se a situação econômica piorar, eu acho que o governo vai ser hostilizado por mobilizações populares de esquerda e de direita”, advertiu.
Uma política de reivindicações
Ao final da entrevista, Pimenta defendeu que a esquerda organizasse um movimento em torno de reivindicações capazes de enfrentar os interesses dos bancos e dos grandes capitalistas.
Como exemplo, citou a proposta de não pagamento da dívida pública defendida na França por Jean-Luc Mélenchon. Segundo o dirigente, Lula poderia adotar medidas mais audaciosas, mas isso exigiria um enfrentamento com a burguesia que o presidente não demonstrou disposição para realizar.
Pimenta também mencionou a estatização do petróleo como uma reivindicação que poderia servir de base para a mobilização dos trabalhadores. Para ele, medidas limitadas, como a compra de empresas privadas do setor, não seriam suficientes para resolver os problemas econômicos brasileiros.
“Eu acho que nós precisamos aí, essa é a nossa preocupação, de um movimento por reivindicações positivas. Por exemplo, não adianta nada ficar criticando o governo Lula, embora, logicamente, nós vamos criticar. Nós precisamos colocar aí amplamente reivindicações, por exemplo, não pagamento da dívida pública, estatização do petróleo, quer dizer, e ver se a gente consegue um movimento em torno dessas reivindicações”, concluiu.



