O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes manteve contato frequente com Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master, até três dias antes da prisão do banqueiro, em novembro de 2025. Levantamento divulgado pelo UOL nesta sexta-feira (6) identificou 316 interações entre os dois nos dois meses anteriores à prisão. Desse total, 187 foram atribuídas a mensagens enviadas por Vorcaro e 129 a comunicações recebidas do ministro, incluindo outros registros do sistema.
A reportagem recuperou respostas de Moraes até então desconhecidas. Em uma delas, enviada em 24 de outubro de 2025, o ministro agradeceu ao banqueiro: “Obrigado amigo. Nem dá pra perceber que não sou eu rsrs”. A frase acompanhava uma imagem cujo conteúdo não pôde ser recuperado.
As mensagens demonstram a intimidade entre o ministro e o proprietário de um banco envolvido em uma fraude de pelo menos R$12,2 bilhões. Também contradizem as negativas anteriores de Moraes, que havia afirmado não ter mantido as conversas atribuídas a ele.
O levantamento identificou 69 mensagens, das quais 52 já haviam sido encontradas pela Polícia Federal (PF). Outras 17 foram recuperadas pelo UOL. As comunicações ocorreram entre 17 de setembro e 17 de novembro de 2025.
Parte das conversas havia sido apagada automaticamente pelo WhatsApp, configurado para excluir mensagens após 24 horas. Entretanto, bancos de dados secundários do aplicativo e registros do iPhone conservaram informações que permitiram recuperar trechos das comunicações.
O uso das mensagens temporárias dificultou o acesso ao conteúdo das conversas. Não há comprovação de que Moraes tenha ativado esse recurso especificamente para ocultar provas, mas o procedimento impediu que os investigadores encontrassem os diálogos no histórico convencional do aplicativo.
As mensagens de Moraes
Entre os trechos recuperados pela reportagem estão as seguintes comunicações:
24 de outubro de 2025
Moraes: “Obrigado amigo. Nem dá pra perceber que não sou eu rsrs”
28 de outubro de 2025
11h03 — Vorcaro: “Opa tudo bem?”
11h43 — Vorcaro: “Boa, tinha esquecido disso. Sorte aí”
11h44 — Moraes: “Obrigado”
6 de novembro de 2025
16h20 — Moraes: “Boa tarde”
16h20 — Vorcaro: “Opa”
12 de novembro de 2025
20h48 — Moraes: “Não basta ser pai, tem de participar rsrs”
21h11 — Vorcaro: “Você é paizão”
21h11 — Vorcaro: “Manda abraço pra todos”
21h12 — Moraes: “Pode deixar”
14 de novembro de 2025
13h24 — Moraes: “Me avise quando pousar”
13h25 — Vorcaro: “Em voo”
14h32 — Moraes: “Chegou?”
14h35 — Vorcaro: “Agora pousei”
14h46 — Moraes: “A caminho então”
A última conversa ocorreu três dias antes da prisão de Vorcaro. Naquela tarde, o banqueiro viajou de São Paulo para Brasília em seu jato particular. Moraes acompanhou sua chegada, perguntou se ele havia pousado e, depois da confirmação, respondeu: “A caminho então”.
A sequência indica que os dois poderiam ter combinado um encontro naquele dia. Embora as mensagens não comprovem que a reunião aconteceu, mostram que Moraes acompanhava pessoalmente o deslocamento do banqueiro.
Dois dias antes, Vorcaro havia elogiado o ministro por sua dedicação à família. “Você é paizão”, escreveu, depois de Moraes afirmar que “não basta ser pai, tem de participar rsrs”. O banqueiro ainda pediu que fossem enviados abraços aos familiares do magistrado.
A familiaridade não era conhecida publicamente quando Moraes negou a existência das conversas. Até então, as principais revelações se concentravam nas mensagens enviadas por Vorcaro, muitas delas por meio de fotografias de textos com visualização única.
Entre os assuntos tratados pelo banqueiro estavam possíveis medidas da PF e do Banco Central contra o Master. Em uma das mensagens, Vorcaro pediu que Moraes procurasse o procurador-geral da República, Paulo Gonet, ou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, para tentar adiar providências contra o banco. Também perguntou se corria risco de prisão e se deveria deixar o País.
O amigo dos R$208 milhões
As novas mensagens são mais uma revelação sobre as relações de Moraes com o proprietário do Master. Em setembro, a revista Veja informou que contratos entre o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e empresas de Vorcaro somavam R$208 milhões.
Um dos contratos previa R$108 milhões líquidos em honorários pagos pelo Banco Master, divididos em 36 parcelas de R$3 milhões. Considerados os tributos, o valor bruto chegava a aproximadamente R$131 milhões.
Outros documentos envolviam negócios de R$100 milhões com a Viking Participações, empresa do banqueiro. Reportagens posteriores esclareceram que se tratava de dois contratos de honorários e um termo de dação em pagamento, e não de três contratos independentes.
Um dos documentos previa o pagamento de R$40 milhões mediante cotas de fundos proprietários de um jato Legacy 650 e de um helicóptero.
A participação de Moraes nesses negócios também apareceu nos arquivos examinados pela PF. Os metadados de uma minuta contratual apontaram o usuário “Ministro Alexandre de Moraes” como responsável pela última modificação do documento.
O escritório de Viviane alegou que havia consultado o ministro sobre a existência de eventuais impedimentos legais.
“Melhor amigo do Daniel”
A relação pessoal entre Moraes e Vorcaro já havia sido descrita por Fabiano Zettel, cunhado e operador do banqueiro, em um áudio divulgado pela revista piauí em setembro.
“O Xandão é melhor amigo do Daniel. Tô contando com ele. Melhor amigo, faz jantar junto, sai junto”, afirmou Zettel.
Em 30 de dezembro de 2023, Vorcaro organizou um almoço de luxo para Moraes no hotel Six Senses Botanique, em Campos do Jordão. O cardápio incluía caviar, foie gras, trufas e carne wagyu.
O banqueiro, que não compareceu ao almoço, acompanhou os preparativos à distância e descreveu o ministro como “meu convidado mais importante até hoje”.
Moraes também participou da preparação de um fórum em Londres patrocinado pelo Master. Em 30 de julho de 2025, Ana Matos, funcionária responsável pelos eventos do banco, informou a Vorcaro que estava trabalhando diretamente com o ministro e sua esposa.
“Passei o dia aqui com Vivi Moraes e o ministro fechando o programa do evento”, escreveu.
Segundo as mensagens divulgadas pelo Estadão, Moraes telefonava “muitas vezes ao dia” para tratar da programação, da lista de convidados e dos convites enviados. A edição de 2025 acabou cancelada depois das medidas adotadas pelo governo norte-americano contra o ministro. A edição anterior, realizada em abril de 2024, havia recebido financiamento do Master.
As viagens de Moraes também foram vinculadas ao banqueiro. Levantamento da Folha de S.Paulo identificou pelo menos oito deslocamentos do ministro e de Viviane, entre maio e outubro de 2025, em aviões de empresas ligadas a Vorcaro.
Sete viagens envolveram a Prime Aviation. Um vídeo mostrou o casal desembarcando de um Legacy 650, prefixo PP-NLR, no aeroporto Santos Dumont, em 22 de agosto de 2025.
Inicialmente, o gabinete de Moraes afirmou que ele “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”. Posteriormente, o escritório de Viviane admitiu a contratação de serviços da Prime Aviation e informou que o ministro acompanhou a esposa em algumas viagens.
Tentam anular as provas
As novas revelações surgiram quando a defesa de Vorcaro procurava anular as provas extraídas de seu celular.
Em petição apresentada ao STF, os advogados afirmaram que o banqueiro não reconhecia a autenticidade das mensagens atribuídas a ele. A defesa também questionou a cadeia de custódia do aparelho apreendido pela PF e apontou supostas alterações nos arquivos.
O próprio Moraes já havia negado a existência das conversas e questionado a integridade dos registros. Em outra manifestação, atribuiu o relatório policial a uma suposta tentativa de vingança por sua atuação nos processos relacionados à tentativa de golpe de Estado.
As tentativas de desacreditar o material beneficiam diretamente Vorcaro, acusado de comandar uma organização criminosa responsável por fraudes bilionárias mediante a venda de carteiras de crédito com ativos inexistentes. Também interessam a Moraes, cuja relação com o banqueiro está documentada em contratos, mensagens, viagens e encontros sociais.
A defesa de Vorcaro e o ministro foram procurados pelo UOL e pelo Estadão, mas não quiseram comentar as novas informações.
A situação de Moraes é cada vez mais comprometedora. Não se trata apenas de um magistrado que mantinha relações sociais com um empresário. O ministro participou da edição de um contrato milionário envolvendo o escritório de sua esposa, utilizou aviões de empresas ligadas ao banqueiro, ajudou a organizar um evento financiado pelo Master e manteve comunicações frequentes com Vorcaro quando este já demonstrava preocupação com a possibilidade de ser preso.
Agora, apareceram também suas próprias respostas, apesar das negativas anteriores.
Se o Brasil fosse a democracia que a burguesia e a esquerda que defende o STF afirmam existir, Moraes já teria sido afastado do tribunal para que essas relações fossem investigadas sem sua interferência. Dependendo do resultado da investigação, poderia inclusive responder criminalmente.
Em vez disso, o ministro permanece no cargo, enquanto as provas que podem comprometê-lo são contestadas judicialmente. O escândalo mostra que os integrantes da cúpula do Judiciário, apresentados como guardiões da democracia, desfrutam de privilégios que dificilmente seriam concedidos a qualquer cidadão comum.



