O Partido dos Trabalhadores (PT) procurou o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, para negociar o apoio dos tucanos ao próximo governo Lula. Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (5), o presidente do PT, Edinho Silva, e o senador eleito Rui Costa (BA), ex-ministro de Lula, entraram em contato com Aécio para discutir uma possível aliança a partir de 2027. A oferta de cargos no governo não foi descartada.
Os três combinaram uma reunião presencial para a próxima semana. Inicialmente, os petistas pretendem saber como o PSDB deverá se comportar no Congresso e se existe a possibilidade de obter seu apoio na aprovação de projetos. Segundo a Folha, os aliados de Lula pretendem negociar com praticamente todos os partidos, com exceção do PL e do Novo.
O PSDB elegeu apenas 11 deputados federais e terá três senadores em 2027. Também conquistou os governos de Alagoas, com JHC, e Tocantins, com Vicentinho Jr. Embora tenha perdido grande parte de sua força eleitoral, o partido passou a ser considerado um possível aliado do governo petista.
A iniciativa é reveladora. O PT, que durante décadas apresentou os tucanos como seus principais adversários, procura agora incorporar ao governo justamente um dos maiores dirigentes da direita antipetista. Aécio Neves não foi um adversário qualquer. Foi candidato à Presidência da República contra Dilma Rousseff em 2014 e insuflou a campanha que levou ao golpe de Estado de 2016.
O partido que destruiu o Brasil
Desde sua ascensão, nos anos 1990, até o crescimento do bolsonarismo, o PSDB foi o principal partido da grande burguesia e do imperialismo no Brasil. Sob Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002, comandou uma ofensiva contra o patrimônio público, a indústria nacional e os direitos dos trabalhadores.
O governo FHC privatizou a Companhia Vale do Rio Doce, o sistema Telebrás e dezenas de empresas estatais. O patrimônio construído com recursos públicos foi entregue a grandes grupos capitalistas, muitos deles estrangeiros. A abertura da economia às importações e ao capital internacional agravou a dependência do País e prejudicou a indústria brasileira.
A política de juros elevados favoreceu os bancos e contribuiu para o crescimento da dívida pública. O desemprego aumentou, enquanto o governo atacava direitos trabalhistas e submetia a economia nacional às exigências do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Essa foi a política que fez do PSDB o principal representante da burguesia brasileira. Os tucanos defendiam as privatizações, a submissão ao imperialismo e a transferência da riqueza nacional para os grandes capitalistas. Seu programa econômico era diretamente contrário aos interesses da classe operária.
Aécio e a ofensiva contra Dilma
A campanha presidencial de 2014 mostrou que o PSDB permanecia fiel a essa orientação. Aécio Neves disputou a Presidência contra Dilma Rousseff com uma campanha reacionária, marcada pelo antipetismo e por ataques sistemáticos ao governo.
Os tucanos promoveram uma ofensiva de propaganda contra Dilma, inclusive nos postos de gasolina, explorando os preços dos combustíveis e os problemas da Petrobrás. A campanha procurou responsabilizar a presidente pela situação econômica e preparar a opinião pública para uma política ainda mais favorável aos banqueiros e aos grandes empresários.
Depois de perder as eleições, Aécio questionou o resultado e contribuiu para a mobilização da direita contra o governo. O PSDB participou da ofensiva que resultou na derrubada de Dilma Rousseff, em 2016, e apoiou a administração golpista de Michel Temer.
Foi durante o governo Temer que se aprovou a reforma trabalhista, retirando direitos dos trabalhadores, além do teto de gastos, que limitou as despesas públicas durante duas décadas.
Agora, dez anos depois do golpe, o PT procura o dirigente que ajudou a organizar aquela ofensiva para negociar sua participação no governo. Trata-se de uma aproximação com um dos principais responsáveis pela política antipetista da direita brasileira.
A extinção dos tucanos
O PSDB, entretanto, já não representa a força política que representava nos governos FHC, Alckmin e Aécio. A ascensão de Jair Bolsonaro provocou uma crise profunda na direita tradicional, retirando dos tucanos o papel de principal organização eleitoral da burguesia, que ficou sem um partido dominante.
Nas eleições de 2018, Geraldo Alckmin, então candidato presidencial do PSDB, recebeu menos de 5% dos votos válidos. Em 2022, o partido não apresentou candidato próprio à Presidência. Nas eleições deste ano, elegeu somente 11 deputados federais.
A decadência dos tucanos demonstra o repúdio de amplos setores da população a um partido identificado com as privatizações, os ataques aos trabalhadores e a defesa dos banqueiros. Depois de oito anos na Presidência e de sucessivas disputas nacionais contra o PT, o PSDB foi reduzido a uma organização secundária.
Os tucanos entraram em extinção. No entanto, quando o próprio eleitorado de direita praticamente abandonou o PSDB, o PT apareceu para tentar recuperá-lo.
A operação não começou agora. Em 2022, Lula já havia escolhido Geraldo Alckmin, antigo governador tucano de São Paulo, como seu candidato a vice-presidente. A aliança foi justificada pela necessidade de derrotar Bolsonaro e defender a “democracia”.
Na prática, o PT ajudou a devolver importância política a um dos principais representantes da direita brasileira. Quatro anos depois, a aproximação com Aécio Neves demonstra que aquela aliança não foi uma medida excepcional, mas parte de uma orientação permanente.
De petistas a ‘PTucanos’?
A aproximação também se manifesta na política econômica. Fernando Haddad, principal responsável pela orientação econômica do governo Lula, adotou uma política de contenção dos gastos públicos e compromisso com as exigências do capital financeiro. Seus elogios à responsabilidade fiscal correspondem à defesa de uma política que sempre foi característica dos governos tucanos, os quais ele disse ter “saudade”.
O arcabouço fiscal, apresentado como substituto do teto de gastos de Temer, manteve limites às despesas públicas. Enquanto os bancos continuaram recebendo enormes somas em juros da dívida, o governo procurou demonstrar aos grandes capitalistas seu compromisso com o controle dos gastos.
Não é apenas uma questão de distribuição de ministérios. A política econômica do governo já se aproxima das posições defendidas pelo PSDB. A negociação com Aécio Neves seria mais um passo na incorporação dos representantes dessa direita à administração petista.
Durante as campanhas eleitorais, o PT apresentou a derrota de Bolsonaro como uma luta decisiva contra a extrema direita. Para justificar suas alianças, argumentou que seria necessário reunir todas as forças dispostas a defender a “democracia”.
Agora, passada a eleição, procura também os dirigentes do partido que comandou a ofensiva contra Dilma e participou do golpe de 2016. A luta contra a direita, utilizada para mobilizar os eleitores petistas, termina em negociações com a própria direita.
A transformação é profunda. O PT surgiu como expressão da organização da classe operária, embora sua direção burocrática sempre tenha procurado limitar a independência política dos trabalhadores. Ao longo dos anos, adaptou-se progressivamente às exigências da burguesia. Agora, procura integrar ao governo até mesmo os dirigentes mais tradicionais do PSDB.
A possibilidade de um governo de “PTucanos” demonstra o resultado dessa política. Para salvar os tucanos da extinção, o PT aproxima-se cada vez mais do partido que privatizou o patrimônio nacional e liderou a derrubada de Dilma.
Ao mesmo tempo que recupera os representantes de uma direita derrotada, abandona o que ainda resta de sua antiga condição de representante, mesmo que deformado, da classe operária. A fusão política com os tucanos seria mais uma demonstração de que o PT caminha para se transformar definitivamente em um partido burguês como qualquer outro.



