Tereza Cruvinel encontrou uma explicação para a reeleição de Lula e a derrota de Donald Trump nas eleições legislativas norte-americanas: o “espírito do tempo”. No artigo EUA e Brasil: a força da onda democrática, publicado no Brasil 247 na quinta-feira (5), ela recorre aos filósofos Herder e Hegel para sustentar que uma mesma força estaria atravessando os países e derrotando a chamada extrema direita.
Segundo a jornalista, “o ‘espírito do tempo’ é uma força que ultrapassa fronteiras nacionais, cria vontades coletivas”. A entidade teria começado sua marcha pelo Brasil e chegado aos Estados Unidos. Cruvinel termina anunciando outras transformações, agora que esse espírito estaria, supostamente, solto pelo mundo.
Acontecimentos de diferentes países podem ter causas comuns. A crise capitalista e a política imperialista têm consequências internacionais. Mas Cruvinel substitui a investigação dessas causas por uma abstração que parece agir por vontade própria, independentemente da economia, das classes sociais e dos governos.
A primeira vítima da explicação é o resultado brasileiro. Cruvinel escreve que nem os petistas mais otimistas esperavam a vitória de Lula por mais de quatro milhões de votos. Esquece o que seu jornal publicava. Em 28 de setembro, o Brasil 247 anunciou que Lula se aproximava da vitória no primeiro turno. Na véspera da votação, publicou a manchete CNT/MDA mostra Lula perto da vitória no primeiro turno.
Ocorreu o contrário. Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro ficou em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. O presidente chegou ao segundo turno atrás do adversário. Esse fato tem significado maior do que a surpresa com a diferença final.
Lula virou o resultado, mas o PL elegeu 121 deputados federais e passou a contar com 28 senadores, as maiores bancadas das duas Casas. O PT terá 70 deputados e nove senadores. Dos 27 governadores eleitos, 16 apoiaram Flávio, sete apoiaram Lula e quatro permaneceram neutros. Eis a suposta onda de esquerda.
Cruvinel admite que a direita elegeu muitos governadores e parlamentares, mas trata o dado como uma ressalva. Ele deveria ser o ponto de partida de qualquer análise. Lula conquistou um novo mandato diante de um Congresso ainda mais hostil, sem que a política petista de conciliação com a burguesia ofereça solução para essa contradição.
Nos Estados Unidos, a derrota republicana foi contundente. Em 3 de novembro, os democratas conquistaram o controle das duas Casas do Congresso e venceram em redutos conservadores, como Texas, Kansas e Carolina do Sul. Mas não há razão para concluir que os trabalhadores tenham aderido ao programa democrata.
Apenas dois anos antes, a população escolhera Trump porque estava descontente com os democratas. Ele prometera recuperar a indústria, reduzir o custo de vida, colocar os interesses nacionais em primeiro lugar e encerrar as guerras. Seus eleitores esperavam uma ruptura com a política tradicional de Washington.
No governo, Trump abandonou as promessas. Lançou, ao lado de “Israel”, uma guerra contra o Irã, ampliou os gastos militares e não resolveu os problemas econômicos da população. A alta dos combustíveis agravou o descontentamento. Ao aplicar uma política belicista característica do imperialismo, rompeu com as expectativas de quem votara nele para acabar com as guerras.
O próprio vice-presidente J. D. Vance reconheceu o problema e atribuiu a derrota à guerra. Segundo ele, antigos eleitores de Trump votaram nos democratas porque exigiam o fim do conflito, combate à inflação, prioridade aos Estados Unidos e mudanças na relação com “Israel”. Uma explicação mais concreta que o deslocamento de um espírito filosófico.
Cruvinel menciona a inflação, o custo de vida e as guerras como causas óbvias, mas insuficientes. Por quê? Se trabalhadores se voltaram contra Trump porque suas condições de vida pioraram e o governo traiu promessas, é essa contradição que deve ser explicada, não uma suposta mensagem universal em defesa da democracia.
Quando Trump derrotou os democratas em 2024, o espírito do tempo era de direita? E dois anos depois resolveu mudar de posição? Se a mesma ideia serve para explicar resultados opostos, não explica nenhum deles.
A referência a Hegel confere aparência filosófica à explicação. Mas Marx e Engels criticaram precisamente a inversão idealista que faz das ideias os motores independentes da história. As opiniões políticas não caem do céu. Formam-se nas relações entre as classes, nas crises econômicas e na experiência concreta com os governos.
Cruvinel também enumera a eleição de mulheres, negros, indígenas, latinos e homossexuais como avanço político. Mas a identidade pessoal não revela quais interesses um governante defenderá. Ela própria comemora a eleição do republicano Byron Donalds como primeiro governador negro da Flórida. Como um integrante do partido derrotado também comprovaria uma onda contra esse partido?
Barack Obama foi o primeiro presidente negro dos EUA. Seu governo participou da destruição da Líbia e espionou autoridades brasileiras, inclusive Dilma Rousseff. Margaret Thatcher foi a primeira mulher a governar o Reino Unido e dirigiu uma ofensiva contra os sindicatos. A cor da pele e o sexo não determinam a política de classe.
O Partido Democrata não se tornou adversário do imperialismo ao conquistar o Congresso. Obama e Joe Biden deram continuidade à política de guerras e intervenções que Trump prometia combater. Biden armou “Israel” durante o massacre em Gaza e sustentou a guerra na Ucrânia. As divergências entre os partidos não eliminam seu compromisso com a dominação norte-americana e os interesses do grande capital.
A previsão de Cruvinel de que a vitória democrata reduzirá as tensões com a América Latina não tem fundamento. Basta ver o que foi feito com a Venezuela sob Trump, ou o que Obama fez com o Brasil, para ficarmos em apenas dois exemplos. Os interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos permanecem.
A crença na onda democrática atribui às eleições uma importância que elas não têm. A troca de parlamentares não entrega os bancos, as fábricas ou o aparelho militar aos trabalhadores. Lula não suprimiu o poder da burguesia brasileira, assim como os democratas não resolveram a crise que levou milhões de norte-americanos a votar em Trump.
As eleições podem revelar mudanças na disposição das massas, apenas isso; não substituem sua organização. Greves, mobilizações e enfrentamentos contra o imperialismo não obedecem ao calendário eleitoral, muito menos a uma força misteriosa que percorre o planeta.
O resultado brasileiro mostrou a força da direita, apesar da derrota presidencial de Flávio Bolsonaro. O norte-americano mostrou a revolta contra Trump após o abandono de suas promessas. Apresentá-los como uma única vitória da democracia é um erro de avaliação.
Cruvinel procura no espírito do tempo aquilo que deveria procurar na realidade. Nenhuma onda salvará a esquerda das consequências de sua própria política. A crise prosseguirá enquanto permanecerem as condições que a produziram.





