A inteligência artificial permite consultar informações, comparar argumentos, estudar assuntos difíceis e executar em minutos tarefas que antes consumiam horas. No artigo Estamos terceirizando o cérebro para a inteligência artificial, publicado no Brasil 247 na quinta-feira (5), Washington Araújo apresenta exemplos de fraude e preguiça intelectual como sinais de uma ameaça à capacidade humana de raciocinar.
Logo na abertura, Araújo enumera o estudante que entrega um trabalho sobre um livro que não leu, o profissional que assina um relatório sem examinar os dados e a redação que publica informações sem apuração. Nenhuma dessas práticas, no entanto, foi inventada pela inteligência artificial. Estudantes colam em provas, compram trabalhos e copiam páginas de livros desde sempre. Relatórios podem ser assinados sem leitura; jornais publicam erros e informações falsas desde muito antes dos computadores. É fato que a IA pode facilitar essas fraudes, mas não é a causa delas.
Um aluno pode pedir à IA que faça sua lição e entregar a resposta sem compreender nada. Pode igualmente pedir uma explicação, contestar, solicitar outros exemplos e resolver exercícios mais difíceis. Se o primeiro uso prejudica a aprendizagem, o segundo pode ampliá-la. Por que acreditar que o primeiro seria a expressão do que a tecnologia faz?
Araújo escreve que as máquinas organizam argumentos com uma aparência de autoridade capaz de dispensar a investigação. Mas uma frase bem escrita nunca foi garantia de verdade. Inúmeros trabalhos acadêmicos estão recheados de citações e linguagem complicada que dão aparência científica a argumentos fracos. Especialistas também usam seus títulos para conseguir que suas opiniões sejam aceitas sem discussão.
Confrontar documentos e verificar fatos é uma obrigação diante de qualquer fonte, seja um livro, uma reportagem ou um programa de computador. A IA é mais um instrumento que pode ser submetido à crítica.
Para sustentar seu alerta, o articulista menciona um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Microsoft e da Universidade Carnegie Mellon. O trabalho ouviu 319 profissionais a respeito de 936 situações em que empregaram inteligência artificial. Os participantes mais confiantes nas respostas da ferramenta relataram menor esforço de pensamento crítico. O próprio autor reconhece que se trata de uma associação, não de uma prova de dano intelectual.
Se o autor tivesse utilizado uma IA para saber mais sobre a pesquisa, teria descoberto que em 555 dos 936 exemplos (mais ou menos 59%) os profissionais relataram alguma atividade de pensamento crítico durante o uso da IA. Os pesquisadores também identificaram mudanças na natureza das tarefas como menos esforço para obter informações e mais trabalho de verificação, integração de respostas e supervisão. Não mediram uma suposta atrofia cerebral. Apenas estudaram relatos dos próprios participantes sobre suas práticas de trabalho.
Ainda que esses resultados justifiquem uma investigação da dependência excessiva e ensinar a conferir respostas. Não cabe transformar a diminuição de esforço em sinônimo de diminuição de inteligência. Se uma máquina executa parte de uma tarefa repetitiva, o ser humano pode empregar o tempo economizado em problemas mais difíceis. Seria absurdo sustentar que a calculadora prejudicou o pensamento matemático apenas porque ninguém precisa fazer todas as contas à mão.
Conferir uma resposta pode exigir tanto conhecimento quanto produzi-la. Um pesquisador pode apresentar uma hipótese à IA, pedir objeções, consultar referências e descobrir aspectos que não havia considerado. Pode fazer novas perguntas até compreender o assunto. Nada o obriga a aceitar a primeira resposta.
Araújo lembra, com razão, que escrever, errar e corrigir fazem parte da aprendizagem. Mas alunos pouco preparados, professores sobrecarregados e escolas sem equipamentos já existiam antes da IA. A péssima formação de uma parcela da população não pode ser colocada na conta de uma tecnologia que acaba de se popularizar.
Para um estudante que não consegue acompanhar a aula, uma ferramenta capaz de explicar o mesmo conteúdo de várias maneiras pode ser um auxílio. Ela pode mostrar erros numa conta, explicar uma passagem difícil e propor exercícios adequados às dificuldades do aluno. Não substitui necessariamente o professor; pode permitir que o estudante chegue à aula com mais perguntas. Cabe às escolas orientar e conferir esse uso.
O articulista teme a multiplicação de textos corretos, porém semelhantes, como se antes da IA os livros e jornais fossem exemplos generalizados de originalidade. A produção cultural já estava submetida às exigências comerciais das editoras, das plataformas e dos grandes meios de comunicação. Fórmulas repetidas são produzidas por seres humanos todos os dias.
Um escritor não vai perder suas ideias se utilizar uma máquina para comparar traduções, organizar anotações ou experimentar uma estrutura. Tampouco ganha imaginação apenas por recusar esses recursos, é claro. A originalidade depende do que se pretende expressar, não das tarefas mecânicas que executadas.
O jornalista cita ainda uma metanálise de 52 estudos sobre os efeitos de intervalos de descanso na criatividade, publicada em 2026. A pesquisa encontrou benefícios do período de incubação de ideias. Mas o estudo não investigou o uso de inteligência artificial. Nada em seus resultados diz que utilizar IA impeça alguém de refletir durante uma caminhada ou de amadurecer uma ideia ao longo de vários dias. Introduzir essa pesquisa como apoio a uma advertência contra a ferramenta é misturar duas questões diferentes.
Localizar estudos, confrontar resultados e identificar documentos são possibilidades importantes para qualquer pesquisa. Um estudante sem assistentes pode obter auxílio para traduzir artigos, organizar dados e compreender conceitos especializados. A verificação permanece necessária, no entanto, as dificuldades de acesso ao conhecimento ficam menores.
Araújo admite que seria um desperdício renunciar à IA. Entretanto, toda sua exposição caminha no sentido oposto, até terminar chamando de “tetraplégicos intelectuais” aqueles que, segundo ele, deixam de julgar por conta própria. É um retrato muito exagerado de um problema que depende da maneira de utilizar os programas.
O capitalismo age negativamente nessa questão, pois a exigência patronal de produzir cada vez mais, com menos tempo e pessoal, pode favorecer o uso irrefletido das ferramentas. Mas esses problemas decorrem da propriedade privada, da exploração do trabalho e das condições em que a tecnologia é empregada. Não são defeitos inerentes ao aumento da capacidade técnica da humanidade.
O desenvolvimento das forças produtivas permite reduzir o trabalho necessário e ampliar o acesso ao conhecimento. É uma conquista, mesmo quando os capitalistas procuram apropriar-se de seus benefícios. A resposta dos trabalhadores não pode ser a desconfiança diante das máquinas, mas a luta para que o progresso técnico seja utilizado em favor de toda a população.
A inteligência artificial não garante que alguém aprenderá, assim como um livro não garante que será lido. Também não condena ninguém à ignorância. Ela oferece novas possibilidades para pesquisar, criar, estudar e trabalhar. O que se deve combater é a fraude, a dependência irrefletida, a falta de formação e o monopólio capitalista sobre os instrumentos do conhecimento. Confundir tudo isso com uma ameaça produzida pela própria tecnologia é deixar de perceber o quanto ela pode contribuir para o desenvolvimento da inteligência humana.




