As eleições de meio de mandato realizadas nesta terça-feira (3) nos Estados Unidos apontaram uma derrota política para o presidente Donald Trump. Com a apuração ainda em andamento, o Partido Democrata conquistou uma cadeira republicana no Senado, venceu disputas importantes na Geórgia e em Nova Hampshire e apareceu como favorito para recuperar a maioria na Câmara dos Representantes. Os resultados ocorreram após nove meses de guerra contra o Irã, sem que os Estados Unidos conseguissem derrotar o país persa, e em meio ao crescimento da rejeição à política do governo.
Segundo projeção divulgada pela emissora norte-americana CNBC por volta das 23h, no horário de Brasília, os democratas deveriam conquistar pelo menos 205 das 435 cadeiras da Câmara, contra um mínimo de 160 para os republicanos. A disputa pelo controle da Casa foi classificada como favorável aos democratas, embora o resultado ainda não estivesse definido.
Para obter a maioria, um partido precisa conquistar 218 cadeiras. Os democratas chegaram à eleição com 212 representantes, enquanto os republicanos defendiam a maioria que lhes permitiu aprovar as principais medidas do governo durante os dois primeiros anos do segundo mandato de Trump.
No Senado, onde 35 cadeiras estavam em disputa, a principal vitória democrata ocorreu na Carolina do Norte. O ex-governador Roy Cooper derrotou Michael Whatley, antigo presidente do Comitê Nacional Republicano e candidato apoiado por Trump. A cadeira pertencia ao Partido Republicano e ficou vaga após a decisão do senador Thom Tillis de não disputar a reeleição.
A vitória foi a primeira de um democrata para o Senado na Carolina do Norte desde 2008. Cooper, que governou o estado por dois mandatos, conseguiu derrotar um aliado do presidente em um território que havia votado em Trump nas eleições presidenciais de 2016, 2020 e 2024.
Na Geórgia, o senador democrata Jon Ossoff foi reeleito contra o deputado republicano Mike Collins. O adversário reconheceu a derrota antes do encerramento da apuração. Ossoff era o único senador democrata que disputava a reeleição em um estado vencido por Trump em 2024.
Em Nova Hampshire, Chris Pappas derrotou o ex-senador republicano John Sununu e manteve a cadeira deixada pela democrata Jeanne Shaheen. Segundo pesquisa da CNBC, 56% dos eleitores do estado consideravam Sununu excessivamente ligado a Trump, apesar de sua tentativa de apresentar uma candidatura moderada.
As três vitórias foram projetadas pela CBS News e pela Associated Press. Os republicanos chegaram à votação com uma maioria de 53 cadeiras no Senado, contra 47 dos democratas e independentes alinhados ao partido. Para conquistar o controle da Casa, os democratas precisavam obter um saldo positivo de quatro cadeiras.
Outras disputas ainda estavam indefinidas. No Texas, a CNBC passou a considerar o democrata James Talarico favorito contra o procurador-geral republicano Ken Paxton. Caso confirmada, sua vitória seria a primeira de um democrata em uma eleição estadual no Texas desde 1994.
Na Carolina do Sul, Annie Andrews ameaçava a reeleição da senadora republicana Darline Graham. A CBS classificou a disputa como favorável aos democratas, enquanto a CNBC considerava o resultado imprevisível. O estado não elegia um senador democrata desde 1998.
Os republicanos, por sua vez, garantiram a vitória de Ashley Moody na Flórida, além de manter cadeiras em Wyoming e Virgínia Ocidental.
A votação para a Câmara também apresentou resultados desfavoráveis ao partido de Trump. Na Carolina do Norte, Jamie Ager conquistou o 11º distrito, anteriormente controlado pelos republicanos. Trump havia vencido naquele distrito por aproximadamente 9,5 pontos percentuais em 2024.
Na Flórida, Pia Dandiya venceu no 22º distrito, que havia favorecido Trump por cerca de 10,5 pontos percentuais. Kathy Castor e Jared Moskowitz também foram reeleitos em distritos cujos limites haviam sido alterados em benefício dos republicanos.
Os primeiros resultados indicaram que o Partido Republicano perdeu parte do apoio obtido na eleição presidencial de 2024. A principal explicação para esse desgaste apareceu nas pesquisas realizadas com os próprios eleitores.
Guerra contra o Irã prejudicou republicanos
A guerra de Trump contra o Irã foi um dos fatores mais importantes das eleições. Segundo pesquisa da CNBC, 74% dos eleitores afirmaram que o conflito havia sido uma questão fundamental ou importante para seu voto. Outros 62% consideraram errada a decisão norte-americana de iniciar as operações militares.
O governo começou a guerra esperando impor uma derrota rápida ao Irã. Nove meses depois, os ataques norte-americanos não haviam conseguido submeter o país, enquanto os custos econômicos e militares da ofensiva continuavam aumentando.
Um levantamento do economista-chefe da Moody’s Analytics, Mark Zandi, calculou que a guerra custou, até o final de outubro, US$2.147,00 por família norte-americana. Desse total, US$1.227,00 corresponderam ao aumento das despesas com energia, US$559,00 aos custos adicionais dos empréstimos e US$361,00 aos gastos militares.
O preço médio da gasolina, que estava próximo de US$2,98 por galão antes da guerra, chegou a aproximadamente US$4,15. O aumento atingiu diretamente os trabalhadores norte-americanos, que já enfrentavam dificuldades com a inflação.
Na mesma pesquisa, 79% dos entrevistados afirmaram que o custo de vida provocava dificuldades moderadas ou graves. Outros 62% atribuíram a inflação principalmente às políticas do presidente. Além disso, 65% consideraram que as tarifas comerciais impostas pelo governo prejudicaram a economia nacional.
O governador republicano da Flórida, Ron DeSantis, reconheceu o efeito negativo da guerra sobre o desempenho de seu partido e classificou o conflito como um grande obstáculo para os candidatos republicanos.
A rejeição ao presidente também apareceu nas respostas sobre a motivação dos votos. Entre os entrevistados pela CNBC, 43% disseram que haviam votado para manifestar oposição a Trump, contra apenas 16% que declararam ter votado para apoiá-lo. Para outros 41%, o presidente não foi um fator determinante.
Os números ajudam a explicar por que os republicanos perderam terreno mesmo em regiões que haviam apoiado Trump dois anos antes. A guerra que o governo pretendia apresentar como uma demonstração da superioridade militar norte-americana transformou-se em um dos principais motivos de seu desgaste eleitoral.
Trump tenta diminuir importância da guerra
Na véspera da eleição, forças norte-americanas realizaram novos ataques contra a ilha iraniana de Qeshm, no estreito de Ormuz. Um funcionário do governo afirmou que a operação havia sido uma medida defensiva, realizada em resposta à atuação de mísseis antiaéreos iranianos.
Nesta terça-feira, Trump declarou ao jornal britânico Financial Times que os Estados Unidos não tinham planos imediatos para renovar os ataques contra o Irã. O presidente também procurou diminuir a dimensão do conflito.
“Parece que estamos conseguindo tudo o que queremos”, afirmou.
Em outra declaração, Trump disse que os Estados Unidos não estavam propriamente em guerra contra o Irã, apesar das operações militares realizadas desde o início do ano.
As declarações ocorreram quando a guerra já havia provocado grandes prejuízos econômicos e políticos ao governo. Embora os Estados Unidos tenham realizado sucessivos bombardeios contra o território iraniano, não conseguiu impor sua vontade ao país.
Trump havia conquistado o apoio de uma parcela importante da população norte-americana prometendo encerrar as guerras prolongadas e evitar novas intervenções militares. Sua política para o Irã produziu o resultado contrário: um conflito sem solução imediata, com custos crescentes e forte oposição interna.
O fracasso também contribuiu para aprofundar as divisões entre os próprios apoiadores do presidente.
Ruptura na direita norte-americana
O caso mais conhecido foi o do comentarista conservador Tucker Carlson, que havia apoiado Trump na eleição presidencial de 2024 e se tornou um dos principais adversários de sua política contra o Irã.
Em abril, Carlson condenou as ameaças norte-americanas contra a infraestrutura civil iraniana, classificando-as como um crime de guerra e um crime moral. Também criticou as declarações do presidente contra o islamismo e chegou a advertir sobre o risco de utilização de armas nucleares.
Trump reagiu chamando o comentarista de uma pessoa de baixa inteligência e afirmou que já não mantinha relações com ele.
A importância da ruptura está no fato de que Carlson não passou a apoiar os democratas. Sua oposição expressou a insatisfação de uma parcela da direita que havia apoiado Trump por acreditar em suas promessas de abandonar as guerras promovidas pelos governos anteriores.
Outros comentaristas conservadores, como Megyn Kelly, Joe Rogan, Candace Owens e Alex Jones, também fizeram críticas à guerra. Jones chegou a levantar a possibilidade de utilizar a 25ª Emenda da Constituição para afastar Trump da Presidência.
A oposição desses setores não representa uma adesão ao Partido Democrata. Trata-se de uma divisão dentro da própria base política que levou Trump de volta à Casa Branca.
Em abril, uma pesquisa da CNN já havia mostrado que 28% dos eleitores de Trump em 2024 desaprovavam sua política para o Irã. Outros 45% manifestavam insatisfação com os preços da gasolina. Os resultados eleitorais desta terça-feira indicaram que essas divergências passaram a produzir consequências concretas para o Partido Republicano.
Democratas recuperam terreno, mas permanecem divididos
A recuperação eleitoral dos democratas não significa que o partido tenha superado a crise que levou à derrota de 2024.
O governo de Joe Biden provocou importantes divisões entre os setores que apoiavam o Partido Democrata, especialmente em razão do apoio ao genocídio promovido por “Israel” na Palestina, da política externa norte-americana e da situação econômica.
A vitória de Trump ocorreu em meio ao desgaste dessa política. Agora, menos de dois anos depois, o próprio governo republicano passou a enfrentar uma perda de apoio semelhante.
A diferença é que parte dos setores insatisfeitos com Trump não está se aproximando dos democratas. A oposição de Tucker Carlson e de outros comentaristas conservadores demonstra que o desgaste presidencial também está produzindo novas divisões no campo republicano.
O Partido Democrata, por sua vez, continua enfrentando conflitos internos. Uma demonstração ocorreu na disputa pelo Senado em Michigan, onde Abdul El-Sayed concorreu contra o republicano Mike Rogers.
A deputada democrata Haley Stevens, derrotada por El-Sayed nas eleições primárias, anunciou apoio ao candidato republicano por discordar das posições de seu antigo adversário sobre “Israel”. Sua decisão provocou uma nova disputa dentro do partido, que ainda não havia conseguido superar as divergências abertas durante o governo Biden.
A recuperação democrata tem, portanto, um caráter limitado. Os resultados iniciais indicam que o partido está recuperando parte do terreno perdido em 2024, mas essa recuperação decorre sobretudo do fracasso do governo Trump, e não de uma solução para os problemas políticos que levaram à derrota anterior.
Caso os democratas conquistem a Câmara, o presidente perderá a maioria parlamentar que lhe permitiu governar com pouca oposição legislativa. O partido poderá bloquear propostas do governo, abrir investigações e dificultar a aprovação de medidas orçamentárias.
Uma eventual conquista do Senado ampliaria essas dificuldades, atingindo também a nomeação de funcionários de alto escalão e integrantes do Judiciário.
O resultado poderá produzir um impasse entre a Casa Branca e o Congresso justamente quando Trump enfrenta uma guerra que não conseguiu vencer e uma crescente oposição dentro de seu próprio partido.
As eleições também não resolverão as divisões democratas. O partido recuperou apoio porque seus adversários se desgastaram, mas continua comprometido com a política imperialista que provocou conflitos durante o governo Biden.
O que aparece nas urnas, portanto, é uma crise que ultrapassa o governo Trump. Primeiro, os democratas perderam terreno em consequência de sua própria política. Agora, os republicanos começaram a sofrer derrotas pelo fracasso das promessas que levaram Trump ao poder.
A guerra contra o Irã agravou essa situação. Além de não conseguir derrotar a resistência iraniana, Trump passou a pagar um preço político dentro dos Estados Unidos. Com a apuração ainda em andamento, as primeiras projeções já apontavam que seu governo poderia terminar os dois últimos anos do mandato diante de uma oposição parlamentar fortalecida e de uma base republicana cada vez mais dividida.
A recuperação dos democratas não elimina essas contradições. Ao contrário, a combinação entre a perda de apoio a Trump, as divisões dos dois partidos e o impasse militar no Oriente Próximo aponta para um aprofundamento da crise geral do regime político norte-americano.





