Governo Lula

José Dirceu defende entregar o governo para a direita

Dirigente petista apresenta a vitória de Lula como justificativa para ampliar a influência dos partidos burgueses e afastar ainda mais o PT dos trabalhadores

O ex-ministro José Dirceu defendeu que o presidente Lula amplie a participação dos partidos da direita em seu quarto mandato. Em entrevista publicada pelo jornal O Globo nesta terça-feira (3), o dirigente petista afirmou que a vitória eleitoral não pertence ao PT e cobrou do presidente um compromisso maior com as forças que apoiaram sua reeleição. Para Dirceu, o resultado das urnas exigiria uma nova composição do governo, com mais espaço para os aliados e para setores da sociedade que não estão tradicionalmente ligados ao partido.

O que o ex-ministro apresenta como uma exigência popular é, na realidade, uma defesa da entrega do governo aos partidos burgueses. Dirceu procura transformar a mobilização eleitoral “de rua” em uma autorização para que a direita amplie seu controle sobre a administração federal.

“Ele já se comprometeu a ouvir a voz que se expressou nas ruas. Houve uma revolução pacífica e democrática pelo voto no Brasil. A sociedade clamou para que Lula fizesse um governo que retratasse as forças que o elegeram na composição”, declarou.

A afirmação contém um equívoco político. Se foram “as ruas” que deram a vitória a Lula, o que Dirceu está propondo é uma traição aos movimentos populares, porque Rede, PSB, PDT etc não têm militantes e nunca estiveram nas ruas. Seria um estelionato eleitoral aplicar, trazendo ainda mais direitistas para o governo, uma política contrária às reivindicações populares.

Contudo, de certa forma Dirceu está certo. Foi a aliança com a burguesia que deu a vitória a Lula. Logo, Lula deve cargos e medidas administrativas aos políticos da burguesia e aos capitalistas.

O próprio ex-ministro deixa claro o significado de sua proposta ao afirmar que Lula teria uma oportunidade histórica de convocar o País para um “pacto político”, envolvendo reformas tributária, financeira, política e do Judiciário.

Não se trata de uma proposta para mobilizar os trabalhadores contra os capitalistas, mas de estabelecer um acordo com os setores que controlam a economia e as instituições do Estado. A experiência dos governos anteriores já demonstrou que esses acordos são utilizados para impor à população as exigências dos banqueiros e grandes empresários.

A defesa da ampliação da coalizão aparece de maneira ainda mais explícita quando Dirceu aborda o futuro do PT.

“A vitória na eleição não foi do PT. Temos que tirar consequências disso, não pode só falar. Temos que fazer quase uma reconstrução do PT. E dialogar com PSOL, Rede, PDT e PSB para constituir uma força mais orgânica”, afirmou.

Os partidos citados estão longe de representar os interesses independentes da classe operária. O PSB é uma organização burguesa tradicional, integrada aos governos e às instituições capitalistas. O PDT, apesar de suas referências ao trabalhismo, também é um partido de direita, fisiológico e burguês.

A Rede representa uma expressão ainda mais clara da influência do capital financeiro e das organizações não governamentais estrangeiras sobre a política nacional. Seu ambientalismo, apresentado como uma causa acima das classes sociais, corresponde em numerosos aspectos aos interesses dos monopólios internacionais que procuram controlar os recursos naturais dos países atrasados.

O PSOL, por sua vez, embora se apresente como uma organização socialista, é um partido pequeno-burguês, marcado pela influência direta das ONGs imperialistas, do identitarismo e da adaptação às instituições do regime político. Sua direção não tem qualquer perspectiva efetiva de organização independente da classe operária.

A proposta de Dirceu consiste, portanto, em aumentar a influência de partidos que, em diferentes graus, estão vinculados à política neoliberal, ao capital financeiro e aos interesses imperialistas.

É especialmente revelador que o dirigente petista apresente essa orientação como uma maneira de fortalecer a esquerda. Se o PT já sofre com a influência da direita sobre seu governo, entregar uma parcela maior dos ministérios aos aliados burgueses somente aprofundará essa situação.

Não há motivo para acreditar que o PSB, a Rede e os demais partidos pressionarão Lula a enfrentar os banqueiros, romper com o ajuste fiscal ou atender às reivindicações dos trabalhadores. Sua participação servirá para reforçar justamente as forças que exigem a continuidade dessa política econômica.

A outra parte da entrevista revela que essa orientação não se limita à composição do governo. Dirceu também defendeu uma profunda renovação do próprio PT.

Segundo o ex-ministro, o partido deverá realizar um congresso para discutir mudanças em seu estatuto e “abrir espaço a essas realidades novas, das mulheres, dos jovens”. Ao comentar o resultado das eleições parlamentares, reconheceu ainda o crescimento de candidaturas ligadas às questões identitárias, particularmente entre os eleitores mais jovens.

Essas declarações indicam o caminho que setores da direção petista pretendem seguir. Em lugar de recuperar as ligações históricas do partido com os sindicatos e com a classe operária, procuram ampliar a influência dos setores pequeno-burgueses que passaram a dominar grande parte da esquerda.

A questão não é a participação de mulheres ou jovens na política, mas o programa defendido por aqueles que se apresentam como seus representantes. A política identitária procura substituir a luta coletiva dos trabalhadores contra a exploração capitalista por reivindicações particulares que podem ser incorporadas pelas grandes empresas e pelo próprio Estado burguês.

Os grandes capitalistas não têm qualquer dificuldade em aceitar representantes de diferentes grupos sociais na direção de suas empresas. O que não aceitam é uma organização política que coloque em questão seus lucros, seus privilégios e seu domínio sobre a sociedade.

A orientação defendida por Dirceu é particularmente grave porque o PT surgiu justamente das grandes greves operárias e da organização sindical. Foi essa base social, e não os acordos com os partidos burgueses, que permitiu sua transformação em uma das maiores organizações políticas do País.

A direção petista, entretanto, pretende substituir definitivamente essa tradição por uma política de colaboração com a burguesia, acompanhada de uma adaptação crescente ao programa da esquerda pequeno-burguesa. Está muito claro que o PT está em seus últimos momentos enquanto partido ligado aos trabalhadores.

A vitória de Lula deveria servir supostamente para demonstrar a força que o presidente ainda conserva entre os trabalhadores. Dirceu tira a conclusão oposta: como a eleição contou com o apoio de outras forças políticas, seria necessário entregar a elas uma participação ainda maior no governo.

A entrevista de José Dirceu revela que a direção do PT não pretende corrigir sua política de submissão às pressões da direita. Ao contrário, prepara-se para aprofundá-la, tanto no governo quanto na organização partidária.

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