O Estadão publicou nesta segunda-feira (2) o conselho de Renan Santos para a direita derrotar o PT em 2030. O dirigente do Movimento Brasil Livre (MBL) quer abandonar os métodos bolsonaristas e seguir Fernando Henrique Cardoso. A recomendação aparece uma semana depois de Flávio Bolsonaro receber quase 60 milhões de votos para presidente. Mal se encerrou a eleição, e os jornais já procuram entregar a direção desse eleitorado a políticos que já estão domesticados pela burguesia.
Flávio perdeu para Lula por 4.430.191 votos, após vencer o primeiro turno. Jair Bolsonaro está preso, Eduardo já estava exilado e Flávio fugiu do País depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenou a apreensão de seus passaportes. Ainda assim, o candidato do PL obteve 48,21% dos votos válidos. Renan, apresentado como possível futuro dirigente da direita, ficou em quarto lugar no primeiro turno, com cerca de 2,7 milhões. A distância entre os dois mostra que a sucessão pretendida pelo monopólio da imprensa capitalista terá de ser arrancada numa disputa política manipulada pela burguesia.
A derrota de Flávio era desejada pelo setor majoritário da burguesia. A imprensa monopolista atacou sua candidatura durante a campanha. No próprio domingo do segundo turno, a pedido da campanha de Lula, o ministro Cristiano Zanin determinou que seções eleitorais ainda abertas recebessem votos até as 19h. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) parou a apuração para adaptar os procedimentos à ordem do STF. Não há prova de que os votos recebidos nesse período tenham determinado a vitória de Lula. O fato é que um ministro alterou o encerramento da votação enquanto a eleição ocorria.
A pressão continuou depois da apuração. Minutos após a confirmação matemática da derrota de Flávio, a Polícia Federal preparou um pedido para apreender seus passaportes. Alexandre de Moraes proibiu o senador de sair do Brasil e mandou entregar os documentos. A medida atingiu o principal nome de uma oposição que acabara de receber 59.826.041 votos. Era uma clara operação de perseguição política. Combater a direita bolsonarista não exige conceder a um ministro o poder de escolher quais adversários do governo poderão circular livremente.
Os Bolsonaro não ameaçam os lucros dos bancos ou a propriedade dos grandes empresários. O que incomoda a direção da burguesia é a força própria que a família reuniu entre a pequena burguesia, setores dos trabalhadores e uma parte dos capitalistas. Muitos desses apoiadores rejeitam a política do STF. Uma vitória de Flávio, somada ao avanço do PL no Senado, colocaria essa corrente na Presidência em condições de disputar a influência sobre as instituições do Estado. A burguesia prefere negociar com políticos cujos mandatos dependam mais dos acordos entre partidos, empresários e tribunais do que de uma base capaz de pressioná-los.
Renan Santos encaixa-se na substituição desejada. O fundador do MBL pago pelos irmãos Koch ganhou projeção na campanha que levou ao golpe contra Dilma Rousseff. A revista The Economist, porta-voz do mercado financeiro internacional, o apoiou nestas eleições, deixando claro que Renan é um sugar baby dos banqueiros. Depois do segundo turno, ele negou a acusação de fraude nas urnas, disse que “o antibolsonarismo é maior que o antipetismo” e aconselhou os derrotados a não irem às ruas contestar o resultado. Agora aponta FHC, presidente das privatizações, como exemplo de direita capaz de vencer o PT.
A relação com os petistas também é instrutiva. Durante o segundo turno, um articulista do Brasil 247 defendeu que Lula procurasse Renan para negociar seu apoio. O aspirante a novo FHC não aderiu à campanha: declarou neutralidade. Mas a proposta mostrou que, para uma parte da esquerda da frente ampla, até um ultraneoliberal que propõe abertamente o extermínio dos pobres pela polícia podia tornar-se parceiro se isso ajudasse Lula a derrotar Flávio. Passada a eleição, os jornais promovem o mesmo político como candidato para enfrentar o PT.
Os dirigentes das igrejas disputam outra parcela da base bolsonarista. Silas Malafaia atacou os filhos de Jair Bolsonaro depois da divulgação de uma carta de Flávio. Segundo a Folha de S.Paulo, lideranças evangélicas reclamam que a família trata as igrejas como eleitorado garantido e preferiam a candidatura de Tarcísio de Freitas. A crítica vem de antigos aliados dos Bolsonaro e abre uma disputa concreta pela influência sobre fiéis que votaram na direita, ao mesmo tempo em que a burguesia faz campanha por Tarcísio, aquele que era o seu nome favorito já nestas eleições, mas foi preterido por Jair Bolsonaro.
A Igreja Universal, de Edir Macedo, já havia se afastado da eleição presidencial. Depois de apoiar Jair Bolsonaro em 2022, não declarou apoio a Flávio nem a Lula neste ano e concentrou esforços em eleger parlamentares ligados à instituição. Na manhã do segundo turno, Macedo afirmou em um culto que não aprovava a ordem do lema “Deus, pátria e família”: para ele, a família deve vir antes do Estado. A diferença entre as duas frases não constitui, sozinha, uma ruptura com os Bolsonaro. A decisão eleitoral da Universal, porém, mostra que seus dirigentes procuram preservar uma força política própria.
Renan disputa espaço com a ajuda dos jornais; Tarcísio recebe acenos de dirigentes evangélicos; a Universal trabalha por seus candidatos ao Legislativo. Cada um tenta recolher uma parte dos votos que a família Bolsonaro reuniu. Para os grandes capitalistas, interessa uma direita que conserve esse eleitorado sem depender de seus dirigentes atuais. Os 59,8 milhões de votos de Flávio explicam por que essa operação começou tão depressa — e por que seus promotores ainda não podem anunciar que venceram.




