O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais de outubro, realizou neste sábado (31) seu primeiro pronunciamento após deixar o Brasil. Durante uma transmissão de aproximadamente 17 minutos, explicou as circunstâncias de sua saída do País, acusou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de perseguição política e anunciou que continuará atuando na oposição ao governo Lula a partir do exterior. “Eu não saí do Brasil, eu saí pelo Brasil”, declarou.
Flávio afirmou que decidiu deixar o Brasil depois de ser intimado de uma decisão de Moraes que determinava a apreensão de seus passaportes e o proibia de sair do País. Segundo ele, a ordem foi expedida poucos minutos depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) anunciar o resultado da eleição presidencial.
O senador contou que tomou conhecimento da decisão na manhã da segunda-feira seguinte ao segundo turno, quando visitava seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar. Flávio havia recebido autorização para conversar com ele durante 30 minutos, na condição de advogado.
“Foi na segunda-feira, na parte da manhã, em torno de 10 horas da manhã, fui visitar o meu pai pela última vez. Eu não sabia que ia ser a última vez. Eu não sei quando é que eu vou poder vê-lo mais uma vez”, relatou.
Segundo Flávio, os dois conversaram sobre o resultado da eleição e a situação política do País. Ao término da visita, foram informados de que agentes da Polícia Federal aguardavam na entrada da residência.
“Então eu olhei pra cara dele e falei: ‘Pai, começou a perseguição até um pouco antes do que eu imaginava que começaria, porque todos sabem que o Brasil hoje vive um regime de exceção’”, afirmou.
Flávio relatou que foi acompanhado pelo pai até o portão, onde recebeu a intimação. Ao ler a decisão, percebeu que seus passaportes seriam apreendidos e que estava proibido de deixar o território nacional.
De acordo com seu relato, Jair Bolsonaro ficou emocionado e pediu aos policiais que se afastassem para conversar reservadamente com o filho.
“Ele me olhou com os olhos cheios de lágrima, falou: ‘Já sabe onde é que eles querem chegar com isso, né?’ Eu falei: ‘Pai, já sei. Acho que Deus tá no comando de tudo. Tô preparado, vou enfrentar. Agora eu sei o que eu tenho que fazer’.”
Depois da visita, Flávio voltou para casa e conversou com sua esposa, Fernanda Bolsonaro. Os dois decidiram deixar o Brasil acompanhados das filhas. O senador afirmou que ninguém de sua equipe política foi informado antecipadamente da decisão.
“Não teve ninguém ali que fez algo contra mim. A decisão eu tomei junto com a minha esposa, sem que ninguém soubesse, até porque, se soubesse, a chance de dar errado seria maior”, declarou.
Flávio pediu aos apoiadores que não responsabilizassem seus aliados pela saída do País. Durante a transmissão, não explicou como conseguiu viajar apesar da ordem judicial que, segundo seu próprio relato, o proibia de sair do Brasil.
O senador dedicou parte do pronunciamento às acusações contra Alexandre de Moraes e o funcionamento do Poder Judiciário. Afirmou que a decisão de apreender seus passaportes havia sido tomada sem que a Procuradoria-Geral da República fosse ouvida.
Segundo Flávio, o ministro o acusa de envolvimento com contas bancárias de uma empresa pertencente a um amigo. Ele negou qualquer participação e afirmou que o Banco Santander havia encaminhado um documento, no próprio domingo da eleição, afastando sua ligação com a empresa.
“Ele apenas ganhou velocidade no que ele queria fazer numa ação em que ele falsamente me acusa de ter algum envolvimento com contas bancárias de um amigo meu, sendo que no próprio domingo das eleições o Banco Santander tinha enviado um ofício dizendo que eu não tinha absolutamente nada a ver com aquela empresa”, declarou.
Flávio comparou sua situação à do ex-assessor presidencial Filipe Martins, cuja prisão também atribuiu à atuação de Moraes. Disse que, caso permanecesse no Brasil, poderia ser preso e impedido de continuar se manifestando politicamente.
O senador também questionou o resultado da eleição presidencial. Acusou Lula de cometer irregularidades durante a campanha e criticou a atuação da Justiça Eleitoral, embora não tenha apresentado provas dessas acusações durante o pronunciamento.
“Muitas coisas são sem explicação nessas eleições, matematicamente impossíveis de terem ocorrido no mundo real, sem que houvesse, como eu falei, algum gol de mão”, afirmou, utilizando uma comparação com o futebol.
Flávio prometeu explicar posteriormente suas acusações de irregularidades eleitorais. Também voltou a questionar o tratamento dispensado pela Justiça a políticos de diferentes partidos, citando processos contra governadores do Rio de Janeiro e de Roraima por abuso de poder político e econômico.
“Eu perdi pro sistema, não perdi pro meu adversário. Todo mundo aí sabe disso”, declarou.
O senador afirmou que a atuação do STF demonstra que as instituições brasileiras estão submetidas a interesses políticos. Citou ainda a esposa de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, e criticou a Procuradoria-Geral da República por, segundo ele, ter impedido sua investigação.
Para justificar a decisão de sair do País, disse que não via possibilidade de recorrer à Justiça contra as medidas de Moraes.
“Eu entendi qual era o cenário e eu dei um passo atrás para dar dois para a frente”, afirmou.
Flávio Bolsonaro anunciou que pretende concentrar a oposição ao governo Lula no Congresso Nacional, especialmente no Senado Federal. Para isso, indicou o senador Rogério Marinho (PL-RN) como seu candidato à presidência da Casa.
“A nossa trincheira neste momento será o Congresso Nacional, em especial o Senado Federal. E a pessoa que eu vou indicar é o Rogério Marinho pra presidência do Senado Federal. Vamos cobrar dos senadores que vocês votaram para que votem em Rogério Marinho para a presidência do Senado”, declarou.
O senador pediu que seus apoiadores pressionassem os parlamentares eleitos para votar em Marinho. Segundo ele, a eleição de uma direção oposicionista no Senado seria necessária para enfrentar o governo Lula e impedir o que considera uma ampliação da perseguição judicial.
Flávio também criticou possíveis negociações envolvendo a situação de Jair Bolsonaro. Afirmou que a liberdade do ex-presidente estaria sendo utilizada como moeda de troca em acordos políticos e que ele próprio poderia ser submetido à mesma pressão.
“Essas tentativas aí de negociação, usando como moeda de troca a liberdade do presidente Bolsonaro, são nojentas”, afirmou.
De acordo com o senador, sua saída do Brasil permitirá que continue exercendo a liderança política recebida do pai. Ele afirmou que Jair Bolsonaro está impedido de se manifestar livremente e de orientar seus apoiadores.
Flávio pediu ainda que deputados e senadores ligados ao bolsonarismo continuassem atuando contra as decisões do Judiciário e as medidas do governo federal, apesar das possíveis represálias.
Outra parte importante do pronunciamento foi dedicada às perspectivas do quarto mandato de Lula. Flávio Bolsonaro afirmou acreditar que o governo enfrentará uma grave crise econômica, capaz de provocar sua queda antes de 2030.
Segundo ele, Lula não conseguirá cumprir as promessas feitas durante a campanha sem agravar a situação econômica do País. Ao mesmo tempo, não estaria disposto a adotar as medidas que o senador considera necessárias para enfrentar os problemas da economia brasileira.
“Se ele cumprir o que ele prometeu, ele vai ter que tomar medidas muito radicais na economia, que ele não vai fazer, porque simplesmente ele não acredita que elas são o caminho para resolver a economia. E, por outro lado, se ele fizer aquilo que ele prometeu, o Brasil vai quebrar ainda mais rápido”, afirmou.
Flávio comparou a situação atual à enfrentada pelo governo de Dilma Rousseff entre 2014 e 2015. Na sua avaliação, as dificuldades econômicas serão ainda maiores e poderão provocar uma crise política durante os primeiros anos do novo mandato.
“A minha expectativa é que a economia vai ser o principal fator de desgaste do atual governo. O cenário é muito pior do que o da Dilma lá em 2014, 2015”, declarou.
O senador afirmou ainda que está disposto a disputar novamente a Presidência da República. Agradeceu os quase 60 milhões de votos que disse ter recebido e indicou que considera possível a realização de uma nova eleição antes do fim do mandato de Lula.
“Inclusive, se for preciso para disputar a Presidência da República de novo, esses quase 60 milhões de votos que vocês me deram, para mim significa demais. É uma honra que poucos no Brasil podem carregar, ser tão bem votado assim, sabendo que meus votos realmente vieram de eleitores reais”, afirmou.
Em seguida, deixou claro que não estava se referindo às eleições presidenciais de 2030.
“Isso me dá muita força, isso me dá muita consciência e ainda mais coragem para enfrentar o que tiver que enfrentar, se preciso for para resgatar, para salvar o nosso país, para disputar mais uma eleição para presidente da República. Eu não estou falando de 2030, não, eu estou falando de antes disso.”
Flávio Bolsonaro afirmou que pretende voltar a se comunicar regularmente com seus apoiadores pelas redes sociais. Disse que, fora do Brasil, poderá expressar opiniões que, segundo ele, resultariam em novas medidas judiciais caso permanecesse no País.
O senador não informou onde está residindo nem apresentou uma previsão para seu retorno. Disse apenas que está reorganizando sua vida junto à esposa e às duas filhas.
Também mencionou seu irmão Eduardo Bolsonaro, que se encontra nos Estados Unidos. Segundo Flávio, Eduardo não poderia voltar ao Brasil sem correr o risco de ser preso.
Ao se dirigir aos parlamentares que acompanhavam a transmissão, Flávio pediu que continuassem denunciando as medidas do governo e do Judiciário.
“Quero pedir aos deputados e senadores, alguns que eu já vi que estão aqui acompanhando a nossa live, continuem fazendo a parte de vocês, sem preocupação, sem medo. Falem de verdade o que tá no coração de vocês”, afirmou.





