Governo Lula 4

Oligarquia nordestina tenta tomar controle do PT

Derrota de Haddad e desgaste de Edinho Silva fortalecem os dirigentes nordestinos e Alckmin na disputa pelos ministérios e pela sucessão presidencial

Presidente Lula em anúncio oficial

A ala paulista do PT perdeu influência na formação do quarto governo Lula, enquanto os dirigentes nordestinos do Partido e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) ganharam força na disputa pelos principais ministérios. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, anteriormente considerado o sucessor natural do presidente, e Edinho Silva, presidente nacional do PT, saíram enfraquecidos da campanha eleitoral. Em contrapartida, Camilo Santana, Rafael Fonteles e Rui Costa passaram a ser cotados para posições importantes no próximo governo.

A disputa foi revelada em reportagem publicada neste domingo (1º) pelo jornal O Globo. Segundo o periódico, o resultado das eleições alterou a correlação de forças dentro do PT e abriu uma disputa não apenas pelos cargos do próximo governo, mas também pela sucessão de Lula em 2030.

O fortalecimento dos dirigentes nordestinos é apresentado como consequência do desempenho eleitoral do PT na região. O que se verifica, entretanto, é a ascensão de uma oligarquia regional, formada por políticos que controlam governos estaduais e mantêm alianças com os capitalistas e os partidos tradicionais da direita. A disputa com os paulistas não envolve uma divergência política fundamental, mas o controle do governo federal e dos recursos que ele administra.

A derrota dos paulistas

O primeiro atingido foi Edinho Silva. O presidente nacional do PT foi criticado pela condução da campanha de Lula e perdeu influência durante o segundo turno, quando os dirigentes nordestinos assumiram responsabilidades importantes na coordenação eleitoral.

Segundo O Globo, em uma reunião da direção petista, a ex-ministra Kátia Abreu atacou a coordenação nacional, formada, segundo ela, por “paulistas sem voto”. O próprio Lula teria classificado a campanha como a mais desorganizada que já disputou. No discurso da vitória, não mencionou Edinho, embora posteriormente tenha publicado uma mensagem de apoio ao dirigente.

Fernando Haddad também saiu derrotado. Sua candidatura ao governo de São Paulo terminou no primeiro turno, com a vitória de Tarcísio de Freitas (Republicanos). Os aliados do ex-ministro argumentam que ele aceitou disputar uma eleição difícil a pedido de Lula e que contribuiu para o crescimento da votação presidencial no estado, de 38,20% no primeiro turno para 46,15% no segundo.

A derrota, porém, comprometeu suas pretensões nacionais. Haddad era apontado como principal candidato à Casa Civil e considerado o nome mais provável para suceder Lula. Agora enfrenta a concorrência dos dirigentes nordestinos, enquanto seu futuro no ministério permanece indefinido.

O problema é que Haddad, apesar de sua projeção nacional, não dispõe de uma máquina eleitoral comparável à dos governadores e ex-governadores do Nordeste. Sua influência depende principalmente da proximidade com Lula. Os dirigentes regionais, ao contrário, possuem governos, parlamentares e alianças locais que podem colocar à disposição do presidente.

A oligarquia nordestina quer o governo

A principal novidade é a ascensão de Camilo Santana, Rafael Fonteles e do grupo baiano comandado por Rui Costa e Jaques Wagner.

Na Bahia, o PT reelegeu Jerônimo Rodrigues para o governo estadual e conquistou as duas cadeiras do Senado em disputa, com Rui Costa e Wagner. No Piauí, Fonteles foi reeleito governador. No Ceará, Camilo Santana conquistou uma cadeira no Senado.

O resultado permitiu que esses dirigentes reivindicassem mais espaço no governo federal. Fonteles passou a ser mencionado para o Ministério da Fazenda, Camilo para a Casa Civil ou a Segurança Pública e Rui Costa para uma pasta da área de infraestrutura.

O deputado Rubens Pereira Jr. (PT-MA), vice-presidente nacional do Partido, justificou a ampliação da influência nordestina:

“É normal que o Nordeste tenha maior representatividade, porque o desempenho foi muito bom. Mas isso não significa reduzir a influência de São Paulo. É natural que o novo governo deva refletir a campanha, com alguns ganhando protagonismo e outros perdendo, e apontar para o futuro.”

O argumento procura transformar o resultado eleitoral em uma demonstração da superioridade política desses dirigentes. Não há, entretanto, nenhum motivo para confundir o desempenho das máquinas eleitorais do PT com uma suposta radicalização do povo nordestino.

A Bahia é governada pelo PT desde 2007. O grupo de Rui Costa e Jaques Wagner estabeleceu uma extensa rede de alianças com políticos tradicionais e empresários. No Ceará, Camilo Santana construiu sua carreira ligado aos grupos que dominam a política estadual. No Piauí, Fonteles representa a continuidade do grupo petista que governa o estado há décadas.

O controle dessas máquinas permite aos dirigentes negociar com prefeitos, parlamentares e partidos burgueses. É essa influência que procuram converter em cargos no governo federal. Nada disso representa uma política de esquerda. Trata-se da atuação de uma oligarquia regional que utiliza o PT para conservar seu poder.

Alckmin entra na disputa

O fortalecimento de Geraldo Alckmin é outro resultado importante da eleição. Lula elogiou repetidamente o vice-presidente e indicou que ele terá maior participação no quarto mandato.

Alckmin é mencionado como possível ministro da Fazenda, o que o colocaria em concorrência direta com Rafael Fonteles. A disputa é particularmente esclarecedora porque os dois representam, por caminhos diferentes, uma política econômica favorável aos capitalistas.

O vice-presidente passou décadas no PSDB, governou São Paulo e foi um dos principais representantes da política neoliberal no País. Sua entrada na chapa de Lula, em 2022, foi uma concessão à burguesia, apresentada pela direção petista como necessária para derrotar Bolsonaro.

Agora, o antigo adversário do PT aparece entre os principais candidatos a comandar a economia do governo. Sua ascensão demonstra até onde foi a política de conciliação adotada por Lula.

Fonteles, por sua vez, defende medidas de ajuste fiscal e concessões à iniciativa privada. A escolha entre ele e Alckmin não significaria, portanto, uma escolha entre a esquerda e a direita. Seria uma disputa entre representantes de grupos políticos diferentes para executar uma política econômica semelhante.

A briga pela herança de Lula

A distribuição dos ministérios também deverá influenciar a sucessão presidencial de 2030. Lula iniciará seu quarto mandato aos 81 anos, sem um sucessor consolidado no PT.

Haddad ocupava essa posição, mas sua derrota em São Paulo e o fortalecimento dos dirigentes nordestinos mudaram a situação. Camilo Santana e Rafael Fonteles passaram a aparecer como alternativas, enquanto o grupo baiano procura ampliar sua participação nas decisões nacionais.

A sucessão tornou-se um problema para o PT porque nenhum de seus dirigentes possui a influência eleitoral de Lula. Os grupos regionais procuram aproveitar o próximo mandato para fortalecer seus candidatos, controlar ministérios e ampliar suas alianças.

A oligarquia nordestina leva vantagem sobre os paulistas porque dispõe de máquinas eleitorais mais fortes. Alckmin, por sua vez, conta com suas relações com a direita tradicional e com setores importantes da burguesia.

O resultado dessa disputa poderá determinar quem assumirá a direção do PT e quem será apresentado como candidato presidencial em 2030. Mas não alterará o problema fundamental: nenhum dos grupos em concorrência apresenta uma alternativa à política de conciliação de classes.

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