Terrorismo

STF pega Flávio para Cristo e avisa: não vai ter impeachment de ministros

O bolsonarismo foi o grande vencedor das eleições, arrebatando a Câmara e o Senado, e indicou que poderia trabalhar pela queda de Moraes, que contra-ataca: ao arrepio da lei

Alexandre de Moraes esperou a eleição terminar para proibir Flávio Bolsonaro de sair do Brasil. Na segunda-feira (26), menos de um dia depois da derrota do senador para Lula, a Polícia Federal o intimou a entregar os passaportes comum e diplomático. O prazo venceu na manhã de terça; os documentos foram cancelados. O candidato que recebeu cerca de 60 milhões de votos agora é perseguido pelo tribunal cujo poder estaria em xeque se Flávio vencesse a eleição.

A Presidência ficou com Lula, mas o resultado das eleições para o Senado criou um problema para o STF. O bolsonarismo e seus aliados elegeram candidatos que fizeram do impeachment de ministros uma bandeira. Levantamento divulgado após o primeiro turno calculou em cerca de 50 o número de senadores inclinados a apoiar essa medida. Não há garantia de que todos votariam juntos. Há, porém, parlamentares suficientes para obrigar Moraes e sua quadrilha a enfrentar uma ofensiva dentro do Congresso.

O tribunal se antecipou a essa possibilidade. Em dezembro de 2025, o pistoleiro-chefe Gilmar Mendes elevou para 54 senadores o quórum necessário à abertura de um processo contra um ministro. Pela Lei do Impeachment, bastava maioria simples nessa etapa. Um ministro do STF decidiu tornar mais difícil até mesmo iniciar o julgamento dele próprio e de sua gangue.

Além disso, os pedidos passam pela presidência do Senado, ocupada por Davi Alcolumbre, que tem resistido à pressão para dar andamento às denúncias contra Moraes. Se Flávio fosse eleito presidente, teria poder de barganha para colocar um aliado à cabeça do Senado.

A ordem contra Flávio acrescenta outro elemento à relação de forças. O principal rosto da campanha pelo impeachment foi atingido assim que perdeu a disputa presidencial. Os senadores eleitos em seu campo terão de decidir se sustentam a promessa feita aos eleitores quando o próprio candidato está sofrendo na pele a ditadura do ministro que desejam afastar. O resultado dependerá dos votos, dos acordos e da capacidade dessa bancada de suportar as pressões que agora começam.

Flávio é investigado num caso que envolve o advogado Willer Tomaz e suspeitas de lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas. Outro inquérito apura recursos solicitados ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. Os fatos devem ser investigados. Nenhuma acusação, entretanto, pode dispensar a apresentação dos motivos concretos para impedir alguém de viajar. Flávio afirma que Moraes usou como fundamento uma entrevista na qual Eduardo Bolsonaro sugeriu que o irmão deixasse o País em caso de derrota. A declaração de Eduardo não demonstra o que Flávio pretendia fazer.

O entusiasmo da esquerda pela investigação e mesma prisão de Flávio desaparece quando as denúncias atingem Moraes, seu ídolo. Sua esposa está envolvida em contratos de até R$ 200 milhões com o Banco Master, e o próprio Moraes editou um contrato com Vorcaro, além de ter se comunicado de modo corriqueiro com o banqueiro e apagado mensagens para não se incriminar. Senadores cobraram esclarecimentos sobre o caso e apresentaram pedidos de impeachment. Moraes era sócio de Vorcaro ao mesmo tempo que o STF exerce poderes para investigar seus adversários e restringir seus direitos.

O PT escolheu se apoiar na ditadura do STF para enfrentar o bolsonarismo. Assim, ajuda a preservar o poder dos mesmos ministros que passaram a intervir diretamente na luta política, estabelecimento um regime bonapartista no País. A justificativa muda conforme o alvo. Quando a Justiça do Equador prendeu Luisa González, adversária do ditador Daniel Noboa, sob acusação relacionada ao financiamento de campanha, sua prisão foi denunciada pela esquerda como perseguição. No Brasil, a esquerda comemora a perseguição judicial contra o candidato derrotado por Lula. A posição diante da repressão não pode depender do partido da pessoa atingida.

O Partido da Causa Operária decidiu pelo voto nulo entre Lula e Flávio Bolsonaro. O Partido não devia apoio ao senador, nem podia chamar os trabalhadores a sustentar uma frente ampla ligada ao STF. A intimação de Flávio mostra o alcance dessa aliança: a vitória eleitoral de Lula deixa intacto o poder dos ministros, enquanto o principal adversário institucional da Corte começa a ser perseguido antes mesmo de a nova bancada tomar posse.

Assim, Moraes e sua quadrilha no STF mandam um recado aos parlamentares bolsonaristas: nem pensem em votar o impeachment de algum ministro do STF. Seu destino será o mesmo do seu líder.

É assim que funcionam as ditaduras.

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