Kassio Nunes Marques passou as últimas semanas vendo seu nome aparecer nas mensagens de Daniel Vorcaro. No domingo (25), quando uma decisão de Cristiano Zanin alterou o horário de votação com parte das urnas já fechada, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tinha um motivo para enfrentar o Supremo Tribunal Federal (STF). Acatou a decisão. Depois proclamou a vitória de Lula, telefonou para parabenizá-lo e elogiou sua trajetória política. O ministro indicado por Jair Bolsonaro preferiu não comprar uma briga com os colegas que também decidem o destino das denúncias contra integrantes da Corte.
Zanin determinou que as seções ainda abertas recebessem votos até as 19h. A ordem chegou quando outras já haviam encerrado os trabalhos e não podiam reabrir suas urnas. Kassio relatou que a medida obrigou o TSE a interromper temporariamente o recebimento dos boletins de urna e a reorganizar a apuração. Tinha diante de si uma intervenção do STF no trabalho do tribunal que presidia. Limitou suas objeções às dificuldades de execução e transmitiu a determinação aos tribunais regionais.
Flávio Bolsonaro anunciou que não reconheceria o resultado e pediria a anulação da eleição. Kassio seguiu em outra direção. Afirmou ter segurança na apuração e apresentou oficialmente os números: Lula recebeu 64.256.232 votos; Flávio, 59.826.041. No pronunciamento, o presidente do TSE destacou as quatro vitórias eleitorais de Lula e lhe prestou homenagens. Para a campanha que pretendia questionar a intervenção de Zanin, a posição de Kassio foi um golpe vindo do próprio ministro que Bolsonaro havia levado ao Supremo.
O comportamento do presidente do TSE ganha sentido quando se acompanha o que ocorreu antes do segundo turno. O escândalo do Banco Master expôs relações de Vorcaro com ministros, advogados e pessoas próximas ao STF. Mensagens divulgadas seletivamente pela Quadrilha de Moraes nas últimas semanas levantaram suspeitas sobre uma festa preparada para Kassio e sobre negócios envolvendo conhecidos do magistrado. Ele negou ter solicitado favores ao banqueiro, mantido conversas com ele ou votado em seu benefício. Ainda assim, as revelações seletivas o deixaram vulnerável no momento em que comandava a eleição presidencial
Houve também uma escolha política sobre quais suspeitas deveriam ocupar o centro da discussão. O caso mais grave atingia Alexandre de Moraes. O escritório de sua mulher mantinha um contrato milionário com o Master, e mensagens mostraram a participação do ministro na preparação de eventos financiados por Vorcaro, Moraes conversava com o banqueiro constantemente e apagou suas mensagens para não se incriminar. Quando o STF se reuniu para discutir se Moraes seria investigado, Flávio Dino pediu vista e paralisou a análise. A esquerda pequeno burguesa comemorou. Seu argumento era que levar adiante a investigação antes da eleição favoreceria Flávio Bolsonaro.
Para esse setor, Kassio era um alvo mais cômodo. As denúncias contra o ministro indicado por Bolsonaro rendiam discursos indignados sobre o Master; as que atingiam Xandão deveriam esperar. Nunes Marques precisava responder pelas suspeitas que recaíam sobre ele. A campanha seletiva em torno de seu nome, porém, ajudou a tirar Moraes do foco e agravou o desgaste do presidente do TSE às vésperas da votação. Um ministro acuado pelas revelações sobre Vorcaro tinha menos disposição para entrar em guerra com o grupo que domina o Supremo.
Na sexta-feira (23), Kassio já havia mostrado até onde estava disposto a acompanhar os métodos de Xandão. Em entrevista, defendeu que juízes retirassem canais de comunicação por “desinformação” e admitiu a possibilidade de novas restrições perto da eleição. Procurou distinguir a retirada de conteúdo depois de sua publicação da censura prévia. Na prática, fechar um canal impede também as mensagens que seus participantes ainda publicariam. O presidente do TSE reivindicava para os magistrados o poder de controlar a comunicação política durante a campanha.
Ali, Marques já estava plenamente cooptado.
Dois dias depois, veio a decisão de Zanin. Kassio reclamou que prorrogar uma eleição exigia planejamento; executou a prorrogação mesmo assim. Informou que urnas encerradas permaneceriam fechadas, assegurou a apuração e reconheceu o vencedor. Seu discurso da noite reservou elogios a Lula, enquanto Flávio anunciava a contestação do pleito. A sequência mostra o tamanho da distância entre a imagem de Kassio como ministro “de Bolsonaro” e sua conduta quando contrariar o STF passou a ameaçar seus próprios interesses.
A história de Vorcaro alcançou ministros de diferentes grupos da Corte. Cada um sabe que as investigações, seus limites e seus prazos passam pelas mãos de colegas igualmente comprometidos pela crise. Foi nesse tribunal que Kassio decidiu proteger sua posição. Bolsonaro lhe deu a cadeira; diante de Zanin e da vitória de Lula, Nunes Marques mostrou a quem precisava responder para continuar sentado nela.





