O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o segundo turno das eleições presidenciais realizado neste domingo (25), derrotando o senador Flávio Bolsonaro (PL) e conquistando seu quarto mandato à frente da Presidência da República. Com 100% das urnas apuradas, Lula recebeu 64.256.232 votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, enquanto Flávio obteve 59.826.041 votos, ou 48,21%. A diferença foi de 4.430.191 votos, correspondente a 3,58 pontos percentuais.
A vitória foi confirmada matematicamente pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08, quando aproximadamente 97,7% das urnas estavam apuradas. Lula tornou-se o primeiro político brasileiro a vencer quatro eleições presidenciais pelo voto direto, depois dos triunfos de 2002, 2006 e 2022. O novo mandato começará em 5 de janeiro de 2027, conforme alteração constitucional que modificou a data de posse.
O resultado representou a primeira virada entre o primeiro e o segundo turno de uma eleição presidencial desde a chamada redemocratização. Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro havia terminado na frente, com 56.104.503 votos (47,03%), contra 53.879.538 votos (45,16%) de Lula. A diferença inicial era de 2.224.965 votos em favor do candidato do PL.
Nas três semanas seguintes, Lula ampliou sua votação em 10.376.694 votos, enquanto Flávio acrescentou 3.721.538 votos ao resultado anterior. Os dois candidatos somaram, no segundo turno, aproximadamente 14,1 milhões de votos a mais do que haviam recebido juntos na primeira votação.
O presidente também superou seu resultado de 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro com 60.345.999 votos. Desta vez, ultrapassou os 64 milhões, estabelecendo um novo recorde absoluto de votos recebidos por um candidato à Presidência.
O comparecimento às urnas cresceu entre os dois turnos. A abstenção caiu de 21,08%, aproximadamente 33 milhões de eleitores, para 19,21%, cerca de 30 milhões. Os votos brancos passaram de aproximadamente 2,3 milhões para 1,4 milhão, enquanto os nulos recuaram de 3,6 milhões para 2,7 milhões. No total, cerca de 128,2 milhões de brasileiros compareceram à votação de domingo.
Lula venceu em 13 estados, enquanto Flávio foi o mais votado em outros 13 e no Distrito Federal. O petista venceu nos nove estados do Nordeste, além de Amazonas, Amapá, Pará e Minas Gerais. Flávio ficou à frente em São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, nos três estados do Sul, em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre, Rondônia, Roraima e Tocantins, além do Distrito Federal.
O maior percentual de Lula foi registrado no Piauí, onde alcançou 75,88% dos votos válidos, seguido pela Bahia, com 71,31%. Flávio obteve seu melhor desempenho em Roraima, com 72,46%.
Minas Gerais registrou a menor diferença entre os candidatos: 50,43% para Lula e 49,57% para Flávio. O petista havia perdido no estado no primeiro turno, mas conseguiu ultrapassar o adversário no segundo.
A votação dos brasileiros no exterior também favoreceu Lula. Dados divulgados pelo g1 na noite de domingo apontavam vitória do petista em países como Portugal, Alemanha, França, Reino Unido e Canadá. Flávio venceu nos Estados Unidos, Japão, Paraguai e em outros países.
A eleição presidencial ocorreu três semanas depois da renovação de dois terços do Senado Federal, realizada em 4 de outubro. Na ocasião, foram escolhidos 54 senadores, dois por estado e pelo Distrito Federal, para mandatos de oito anos.
O PL foi o partido que mais elegeu senadores, conquistando 19 vagas. O MDB ficou com sete, seguido pelo PT, com seis. PP, PSB, União Brasil e Novo elegeram três representantes cada.
Com a soma dos parlamentares eleitos e dos que permanecerão no cargo, o PL terá a maior bancada do Senado a partir de fevereiro de 2027, com 28 integrantes. O PT contará com nove senadores e o MDB, com oito.
Entre os nomes eleitos estão Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, que conquistaram as duas vagas em disputa no Distrito Federal. Na Bahia, Rui Costa e Jaques Wagner, do PT, foram eleitos. Dos 32 senadores que tentaram a reeleição, apenas 14 conseguiram renovar seus mandatos.
Além da Presidência, o segundo turno de domingo definiu os governos de cinco estados e do Distrito Federal. Foram eleitos Mailza Assis (PP), no Acre; Omar Aziz (PSD), no Amazonas; Celina Leão (PP), no Distrito Federal; Lorenzo Pazolini (Republicanos), no Espírito Santo; Cadu de Lula (PT), no Rio Grande do Norte; e Vicentinho Júnior (PSDB), no Tocantins.
O segundo turno foi marcado por uma crise envolvendo o horário de encerramento da votação. Durante o domingo, foram registradas denúncias de redução da frota de ônibus em municípios de São Paulo, Bahia, Sergipe e Rio de Janeiro, além de dificuldades provocadas pelas chuvas em outras localidades.
A campanha de Lula apresentou pedidos para garantir o transporte dos eleitores. A de Flávio Bolsonaro também solicitou ao TSE a ampliação do horário de votação em municípios do Sul e do Sudeste afetados por problemas de deslocamento.
O ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a prorrogação da votação até as 19h em todo o país. A decisão, proferida próximo das 17h, foi divulgada quando diversas seções eleitorais já haviam encerrado suas atividades.
Posteriormente, Zanin esclareceu que a prorrogação valeria apenas para as seções cujas urnas ainda permaneciam abertas. A orientação foi transmitida aos tribunais regionais pelo presidente do TSE, Kassio Nunes Marques.
A situação provocou a suspensão temporária da apuração nacional, iniciada às 17h. A totalização dos votos foi retomada depois das 19h, quando terminou o horário adicional.
Após a confirmação da vitória de Lula, Flávio Bolsonaro anunciou que não reconheceria o resultado e recorreria à Justiça para solicitar a anulação da eleição.
“É impossível reconhecer o resultado das eleições no contexto como essas coisas aconteceram”, declarou o senador, que afirmou também que a disputa teria sido prejudicada pela decisão do STF.
Flávio acusou Zanin, que foi advogado de Lula, de modificar as regras durante a votação. Também alegou que fiscais do PL teriam sido retirados da sala-cofre do TSE.
O Tribunal desmentiu essa última afirmação. Em nota, informou que a sala-cofre não é aberta à visitação e que representantes do PL acompanharam normalmente a totalização e a divulgação dos resultados nas dependências destinadas à fiscalização.
Nunes Marques reconheceu que a prorrogação inédita havia provocado dificuldades operacionais, mas afirmou que a apuração não foi comprometida. “Temos absoluta segurança de todo o processo eleitoral”, declarou o presidente do TSE, que informou ter telefonado aos dois candidatos após a definição do resultado.
A derrota de Flávio provocou manifestações de diferentes integrantes da direita. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) questionou o crescimento da votação de Lula entre os dois turnos e criticou a decisão de Zanin.
Em publicação nas redes sociais, Nikolas afirmou que a redução da abstenção não explicaria o aumento de votos do petista. Também declarou, em vídeo, que o resultado seria impossível de reconhecer diante da prorrogação do horário eleitoral. Durante a apuração, havia publicado a frase: “Ou a gente ganha. Ou a gente ganha. Tá avisado”.
O empresário Pablo Marçal, que acompanhou a apuração ao lado de Flávio em Brasília, também questionou os números divulgados pelo TSE. Segundo ele, levantamentos internos da campanha indicavam vantagem superior a quatro milhões de votos para o candidato do PL.
“Como é que sai de quatro milhões e toma cinco milhões? O que é isso? Como é que ele conquistou isso?”, perguntou Marçal, que classificou a virada como um “desastre matemático”.
Marçal afirmou não estar apresentando uma acusação formal de fraude, mas defendeu a investigação dos resultados. Para ele, o melhor cenário seria anular a eleição e realizar uma nova votação duas semanas depois.
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) também contestou o resultado, acusando Lula de ter aplicado um “golpe à la Venezuela”. Em vídeo publicado nas redes sociais, criticou a ampliação do horário de votação e afirmou que a disputa havia sido marcada por irregularidades.
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cobrou explicações sobre a decisão de Zanin e a interrupção da divulgação dos resultados. “O Brasil merece respeito, transparência e segurança jurídica!”, escreveu.
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal, publicou uma mensagem religiosa após a derrota do enteado: “Deus, o Senhor é o dono do Brasil. Olharemos para Ti”. A publicação não mencionou diretamente Lula nem questionou os números das urnas.
Outros integrantes da direita reconheceram a vitória petista. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), que apoiou Flávio no segundo turno, declarou que aceitava a decisão das urnas.
“Nós, como democratas que somos, nos curvamos à decisão da maioria e à decisão da apuração”, afirmou Caiado.
Renan Santos, candidato do partido Missão no primeiro turno, responsabilizou a própria família Bolsonaro pela derrota. Em vídeo, afirmou que o resultado havia sido produzido pela arrogância do bolsonarismo e criticou a condução da campanha de Flávio.
Em seu primeiro pronunciamento após a vitória, Lula agradeceu aos eleitores e afirmou que o resultado representava uma “derrota do negacionismo” e da mentira. Também agradeceu ao vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), à juventude, às mulheres e aos idosos.
O presidente anunciou que pretende modificar a comunicação digital do governo, “regulamentar” a atuação das grandes plataformas de tecnologia e ampliar a “participação popular” nas decisões de sua administração.
Lula completará 81 anos nesta terça-feira (27). Ele iniciará o novo mandato em 5 de janeiro de 2027, ao lado do vice-presidente Geraldo Alckmin, e permanecerá no cargo até janeiro de 2031. Por ter sido reeleito para um mandato consecutivo, não poderá disputar novamente a Presidência em 2030.





