O Parlamento egípcio deu ao ditador Abdel Fatah al-Sisi, nesta segunda-feira (26), autorização para empregar as Forças Armadas em auxílio à Arábia Saudita. Dois terços dos deputados aprovaram a proposta após três sessões a portas fechadas. A decisão não envia soldados imediatamente, mas permite que o Cairo responda a um pedido de Riade, que trava uma nova ofensiva criminosa contra o Iêmen.
Os deputados não divulgaram quantos votaram a favor, quais forças poderiam ser mobilizadas, quanto custaria a operação ou por quanto tempo ela duraria. Tampouco há notícia de uma solicitação formal saudita. Antes da votação, setores da oposição egípcia cobraram essas informações e rejeitaram o envolvimento do país na guerra. O governo obteve autorização sem tornar públicos os limites práticos da missão.
Al-Sisi diz que seus militares atuariam apenas na defesa do território saudita, sem entrar no Iêmen para atacar. Foi essa a garantia transmitida ao príncipe herdeiro Mohammed bin Salman pelo chanceler Badr Abdelati e pelo chefe da inteligência egípcia, Hassan Raxad. A distinção não encerra a questão: defender instalações e forças de Riade significa reforçar a agressão contra o Iêmen.
O Diário Causa Operária noticiou em 18/10 que al-Sisi havia pedido o aval parlamentar. Naquele momento, Iahia Ali al-Rai, presidente do Parlamento sediado em Saná, enviou uma carta a Hixam Badaui, presidente da Câmara egípcia. O dirigente iemenita pediu que o Cairo não se submetesse à política saudita e advertiu para as consequências da intervenção no próprio Egito. Também exigiu o fim dos bombardeios e do bloqueio impostos ao seu país.
Como um capacho do imperialismo, a ditadura fantoche egípcia ignorou os apelos do povo iemenita e está prestes a sujar ainda mais suas mãos de sangue árabe, dando apoio à carnificina que os sauditas impõem ao país mais pobre do Oriente Médio há mais de 10 anos.
A justificativa apresentada pelos sauditas e seus aliados começa pelos mísseis e aeronaves não tripuladas lançados do Iêmen contra o reino. Omite a origem da guerra. Foi Riade que, em março de 2015, reuniu uma coalizão para esmagar o Ansar Alá após o movimento assumir o controle de Saná. Mais de dez anos de ataques aéreos, operações terrestres e bloqueio não conseguiram impor essa derrota.
A ofensiva atual voltou a alcançar áreas civis. Segundo informações das forças de Saná publicadas divulgadas na semana passada, bombardeios sauditas atingiram a capital e outras oito províncias em 24 horas. O comando iemenita atribuiu aos ataques mais de 30 mortos e feridos, principalmente mulheres e crianças. Isso coloca a promessa egípcia de atuar apenas na “defesa” saudita diante de um fato concreto: Riade segue atacando o território iemenita.
O Egito já participou ativamente dessa agressão anteriormente. Em 2015, enviou navios para operações no mar Vermelho e cerca de 800 militares, com atuação limitada em combate, segundo a Reuters. Al-Sisi agora procura condições para ampliar a ajuda quando a monarquia saudita enfrenta dificuldades para conter as forças iemenitas. O estreito de Babelmândebe, na entrada do mar Vermelho, torna a disputa especialmente sensível para o Cairo: por ali passa a rota marítima que chega ao canal de Suez.
Riade também recorreu a outros governos. Há menos de dez dias, o Conselho de Cooperação do Golfo havia invocado seu pacto de defesa. Além da própria Arábia Saudita, integram o grupo Barém, Catar, Cuvaite, Emirados Árabes Unidos e Omã. Os chanceleres trataram os ataques ao território saudita como assunto de todos os integrantes e pediram medidas mais duras contra o Ansar Alá. Nenhum deles anunciou naquela reunião o envio de tropas, mas a declaração fortaleceu a posição de Riade.
Turquia e Paquistão igualmente sinalizaram apoio aos sauditas. Os três países firmaram em agosto um acordo de defesa mútua. No início do mês, autoridades turcas mencionaram equipamentos, informações e sistemas defensivos, sem confirmar o deslocamento de soldados. O Paquistão, por sua vez, negou notícias de que seus caças estivessem sendo usados contra o Ansar Alá, embora haja auxílio e compromissos militares anunciados.
O governo egípcio possui ainda fortes vínculos financeiros com Riade. Durante a presidência de al-Sisi, os sauditas forneceram bilhões de dólares em ajuda, depósitos ao banco central e suprimentos de energia. Mohammed bin Salman visitou o Cairo em setembro para discutir a segurança e a navegação no mar Vermelho. A votação desta segunda-feira acrescenta a possibilidade de emprego de forças egípcias a essa relação política e econômica.
A mudança de posição histórica chama a atenção. Nos anos 1960, o Egito de Gamal Abdel Nasser combateu no Iêmen ao lado dos republicanos, contra forças monarquistas apoiadas pela Arábia Saudita. Hoje, o reacionário al-Sisi solicita poderes para defender a monarquia saudita. Enquanto o Parlamento votava a favor da medida, a instituição islâmica egípcia Al-Azhar defendia negociações e propunha uma comissão de mediação para evitar o alastramento da guerra.
Al-Sisi tem agora a autorização que pediu. O contingente, as armas e a data de uma eventual operação dependem dos próximos entendimentos com Riade. Para o povo iemenita, o resultado imediato é que mais um inimigo da nação árabe e islâmica que se dispõe a colocar sua força militar à disposição do imperialismo.





