A independência da Índia costuma ser apresentada como a grande demonstração de que é possível derrotar um império sem recorrer à violência. Em 2 de outubro, no aniversário de Gandhi, artigo no Brasil 247 voltou a defender essa interpretação. A história, porém, revela outra coisa: Gandhi dirigiu campanhas populares importantes, mas também interrompeu movimentos que ameaçavam ultrapassar a dominação dos colonizadores.
Em junho de 1918, durante a I Guerra Mundial, Gandhi organizou em Kheda uma campanha de recrutamento para o Exército Britânico. Num apelo de 22 de junho, pediu que cada aldeia fornecesse homens para a guerra, esperando que a colaboração trouxesse direitos políticos. Em vez de prepar uma força para expulsar os ingleses, procurava fornecer soldados ao Estado colonialista.
O próprio Gandhi reconheceu essa atividade no depoimento prestado em seu julgamento de março de 1922: “Quando, em 1918, lorde Chelmsford fez um apelo especial por recrutas na Conferência de Guerra em Déli, empenhei-me, com prejuízo da minha saúde, em organizar uma unidade em Kheda”. Explicou ainda que esperava, com esses serviços, obter para os indianos uma posição de igualdade dentro do império. Numa carta ao funcionário britânico J. L. Maffey, Gandhi foi ainda mais explícito, pois prometeu empregar todos os esforços para obter recrutas “aos milhares”, afirmando que não se satisfaria com menos. O dirigente que exigiria dos indianos disciplina absoluta diante da repressão dedicava sua energia a reforçar militarmente o Estado responsável por ela.
O governo britânico podia mobilizar indianos para morrer numa guerra imperialista, mas os colonizados não deveriam empregar a força contra seus dominadores? Gandhi esperava recompensas pela fidelidade à Inglaterra. A violência para defender o império era admitida; a resistência violenta contra ele seria condenada.
A recompensa britânica veio em 1919, quando a Lei Rowlatt ampliou a repressão e, em abril, tropas do general Reginald Dyer dispararam contra uma multidão em Amritsar, no massacre de Jallianwala Bagh. A Inglaterra não demonstrou disposição para conceder independência em troca da lealdade indiana.
Em fevereiro de 1922, a contradição reapareceu. A campanha de não cooperação mobilizava enormes parcelas da população. Em Chauri Chaura, uma manifestação enfrentou a polícia, que havia reprimido os participantes. A multidão reagiu e incendiou uma delegacia, matando 23 policiais. Gandhi respondeu exigindo a suspensão da campanha nacional de desobediência civil. A direção do Congresso aprovou a interrupção, e os camponeses foram orientados a continuar pagando os impostos coloniais.
O movimento já atingia a arrecadação e a administração inglesa. Gandhi considerou que a reação dos manifestantes revelava falta de preparo para seu método. A luta nacional foi paralisada porque os oprimidos haviam reagido à força policial. Os ingleses, no entanto, continuavam livres para utilizar tropas e prisões.
A Marcha do Sal, de 1930, mobilizou amplos setores da população contra o monopólio colonial desse produto indispensável. Mas não derrubou o regime, dado que a independência ainda demoraria 17 anos.
A II Guerra Mundial enfraqueceu profundamente a Inglaterra. Em 1942, após Gandhi exigir a saída dos ingleses, a prisão das lideranças nacionalistas foi seguida de greves, ataques a instalações administrativas e interrupções de comunicações. A mobilização continuou mesmo sem a direção imediata do Congresso.
A ameaça mais séria à autoridade britânica surgiu no interior de seu próprio aparelho militar. Em 18 de fevereiro de 1946, marinheiros da base HMIS Talwar, em Bombaim, iniciaram uma greve contra as condições de alimentação, os maus-tratos e a discriminação. O levante alcançou 78 embarcações e 22 instalações, envolvendo cerca de 20 mil marinheiros. Bandeiras do Congresso, da Liga Muçulmana e bandeiras vermelhas foram hasteadas. Trabalhadores de Bombaim se mobilizaram em apoio aos revoltosos, e a repressão resultou em numerosos mortos e feridos.
O domínio colonial dependia de soldados indianos. Quando marinheiros se voltaram contra os oficiais ingleses e receberam apoio operário, a crise atingiu a sustentação militar do império. A unidade entre hindus e muçulmanos também contrariava as divisões religiosas exploradas na partilha. O governo britânico tratou o levante como motim militar e ameaçou punir seus responsáveis. A disposição de resistir já penetrava as forças que deveriam reprimir o movimento nacional.
Gandhi, por sua vez, condenou a rebelião e rejeitou a união de hindus e muçulmanos para o enfrentamento violento. Vallabhbhai Patel, dirigente do Congresso, negociou a rendição; Muhammad Ali Jinnah, da Liga Muçulmana, também defendeu o fim do levante. O que assustava os britânicos também ameaçava dirigentes interessados numa transferência negociada do poder.
Leon Trótski havia explicado a natureza desse conflito em sua Carta Aberta aos Trabalhadores da Índia, de 25 de julho de 1939. Para o revolucionário, a burguesia indiana estava ligada economicamente aos ingleses e temia que o combate à dominação estrangeira se convertesse numa revolução dos operários e camponeses. Escreveu: “A burguesia indiana é incapaz de levar uma luta revolucionária. Ela é ligada em demasia ao imperialismo britânico, ela depende dele. Ela teme pelos seus próprios bens. Ela tem medo das massas.”
Trótski defendia que operários e camponeses lutassem independentemente da burguesia nacional, combinando independência, revolução agrária e nacionalização dos bancos. Não rejeitava manifestações ou greves, e sim rejeitava que uma classe interessada na conciliação com os ingleses estabelecesse os limites da luta.
O desfecho de 1947 foi uma independência acompanhada de um golpe profundo contra a unidade do país. O imperialismo britânico transferiu o poder após negociar com o Congresso e a Liga Muçulmana, mas dividiu o território entre Índia e Paquistão. O plano foi anunciado em 3 de junho; em 14 e 15 de agosto proclamaram-se as independências, e somente no dia 17 foram divulgadas as fronteiras. Cerca de 14 milhões de pessoas tiveram de abandonar suas casas, e massacres mataram centenas de milhares, possivelmente mais de um milhão.
Gandhi se opôs à partilha e procurou conter os massacres religiosos. A divisão também foi aceita por dirigentes do Congresso e da Liga Muçulmana. Mas sua oposição pessoal não impediu que o império saísse deixando dois Estados separados e o conflito da Caxemira.
Não é possível, obviamente, determinar em que ano a Índia teria conquistado a independência sob outra direção. No entanto, é patente que Gandhi ajudou a interromper a mobilização de 1922, combateu a revolta naval de 1946 e, antes disso, fez campanha para que indianos servissem militarmente à Inglaterra. Sua política não foi apenas um método de mobilização contra o império. Antes, funcionou como instrumento de contenção das tendências revolucionárias. A Inglaterra deixou a Índia quando sua dominação já estava profundamente abalada, não porque tivesse sido convencida a renunciar à força. A tese de que o pacifismo derrotou o imperialismo ignora as lutas que realmente ameaçaram derrubá-lo.





