Mais de 800 mil pessoas participaram das manifestações na França neste sábado (24), conforme a Confederação Geral do Trabalho (CGT), desafiando proibições de marchas e um amplo aparato repressivo. A participação de trabalhadores ao lado de secundaristas, universitários e coletes amarelos aumentou a pressão por greves contra o governo de Emmanuel Macron. As centrais sindicais convocam uma jornada de paralisações e manifestações para 5 de novembro.
O Ministério do Interior contabilizou cerca de 410 mil participantes no país. Somente em Paris, os sindicatos anunciaram 250 mil manifestantes. As reivindicações por salários, contra a carestia e em defesa dos serviços públicos se combinaram com denúncias da repressão e com a exigência de saída do presidente.
Rainald, ferroviário da Sociedade Nacional de Ferrovias Francesas (SNCF) e sindicalista da Solidaires, expressou essa posição durante a marcha parisiense. Ele participou como trabalhador e pai, denunciando a deterioração da educação e a seleção imposta aos jovens pelo sistema de ingresso no ensino superior. Sobre as acusações de que os grevistas pretendem paralisar a França, respondeu que o país já está bloqueado pela política de Macron e defendeu a saída do presidente.
A cobrança pela entrada dos trabalhadores em greve também apareceu entre os coletes amarelos. Ao lado de Jérôme Rodriguez, participante das mobilizações iniciadas em 2018, manifestantes interpelaram os sindicatos sobre a ausência de paralisações. A próxima jornada sindical ocorre em 5 de novembro, com chamados dirigidos a diferentes categorias dos setores público e privado. A convocação é para greves e manifestações nacionais, sem que os textos apresentados estabeleçam a derrubada de Macron como objetivo comum das centrais.
Governo tenta impedir as marchas
Em Paris, a prefeitura de polícia proibiu na véspera o percurso entre as praças da Bastilha e da Nation, anteriormente acertado com os organizadores. A decisão obrigou os sindicatos a transferir a concentração para a Porte d’Italie, de onde a marcha seguiu até a Porte de Vincennes.
A comunicação da proibição chegou às entidades às 18 horas de sexta-feira (23), depois do encerramento do expediente da secretaria judicial. Na manhã seguinte, o Tribunal Administrativo rejeitou o recurso sindical por ter sido apresentado fora do prazo. Vincent Gautheron, secretário-geral da organização regional da CGT na Île-de-France, denunciou a manobra do governo para impor a restrição por meio dos procedimentos administrativos.
A mudança deixou milhares de pessoas sem informações sobre o local da concentração poucas horas antes do protesto. Sabrine Kharbach, porta-voz da União Estudantil, responsabilizou o Estado pela desorganização e pelos riscos de deslocar os participantes entre diferentes pontos da capital.
Na Bastilha, policiais armados, integrantes da brigada motorizada Brav-M e um helicóptero participaram da operação para impedir concentrações. Um agente advertia pelo megafone que quem permanecesse na praça poderia receber multa de 135 euros. Mesmo diante das ameaças, manifestantes procuravam o local previsto inicialmente para o ato.
O cortejo começou a caminhar por volta das 14 horas e recebeu milhares de pessoas que chegavam pela Avenida d’Italie. Apesar das restrições e da chuva, a manifestação percorreu o trajeto sem confrontos até a chegada à Porte de Vincennes.
No encerramento, a polícia bloqueou repentinamente o Cours de Vincennes e orientou os participantes a sair pelo metrô. Depois das 18 horas, ocorreram confrontos e lançamentos de projéteis. Policiais empregaram gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral, enquanto a Brav-M reforçava a operação.
A repressão já tinha atingido crianças na manifestação da semana anterior. Neila, de 13 anos, relatou ao jornal francês L’Humanité que precisou se abrigar no metrô com a mãe e a irmã depois de a polícia lançar gás na Praça da República. Mesmo no local de refúgio, a família voltou a ser atingida. As três retornaram às ruas neste sábado.
Trabalhadores cobram paralisações
A presença de empregados de empresas privadas reforçou a manifestação parisiense durante as férias escolares. Fred, operário do setor químico que perdeu o emprego após 21 anos na mesma empresa, contou que a cobertura da imprensa sobre os protestos o levou a participar. Para ele, a tentativa de intimidar a população exige uma resposta com maior mobilização.
O desemprego, os ataques aos salários e os cortes nos serviços públicos estavam entre os motivos apresentados pelos trabalhadores. Uma servidora que participou com as duas filhas denunciou a dificuldade para fechar as contas do mês. Na educação, manifestantes criticaram a intenção de suprimir 1.500 postos de professores em meio à mobilização da juventude.
Thomas Vacheron, secretário confederal da CGT, defendeu a ampliação da adesão às greves em 5 de novembro para pressionar o governo a atender às reivindicações salariais e aumentar os recursos da educação. A convocação intersindical reúne CGT, CFDT, FO, Unsa e FSU. Há chamados à paralisação entre ferroviários e trabalhadores do ensino, além de outras categorias.
A aproximação entre o movimento estudantil e os trabalhadores também apareceu na participação sindical nos atos da juventude. Arnaud, empregado da proteção social e integrante da CGT, contou que tirou um dia de férias para acompanhar a manifestação de 13 de outubro e ajudar a proteger os estudantes das provocações policiais.
Lyon desafia proibição
Em Lyon, mais de 10 mil pessoas se reuniram apesar da proibição da manifestação, mantida pelo Tribunal Administrativo. Secundaristas, pais, universitários, sindicalistas e trabalhadores chegaram à Praça Jean-Macé no início da tarde, onde a polícia atacou o ato com gás lacrimogêneo assim que o cortejo começou a se formar.
As cargas dispersaram os participantes por diferentes ruas. Um grupo de aproximadamente duas mil pessoas prosseguiu pela região da Route de Vienne, acompanhado por palavras de ordem e pelo apoio de ferroviários, que acionavam as buzinas das locomotivas.
A polícia voltou a lançar granadas quando os grupos se aproximaram das faculdades. Na Rua de Marseille, agentes avançaram sobre manifestantes pacíficos e distribuíram golpes de cassetete. Mais tarde, ocorreram confrontos e incêndios de barricadas no bairro de La Guillotière.
Blindados da gendarmaria foram posicionados na Avenida de Saxe, enquanto cordões policiais controlavam as pontes da cidade. A prefeitura anunciou 29 detenções até o fim da tarde.
Novas mobilizações foram anunciadas antes da jornada sindical de novembro. Uma faixa levada por jovens em Paris convocava um boicote ao consumo para 28 de outubro. Os coletes amarelos marcaram protestos para o dia 31, com concentrações e atos diante da Assembleia Nacional, na capital, e das prefeituras pelo país.
Os organizadores denunciaram os ataques ao direito de manifestação e convocaram assembleias que reúnam estudantes, trabalhadores, camponeses e aposentados. Em Paris, perto da Porte de Vincennes, uma moradora abriu a janela e ergueu uma bandeira com a imagem de Che Guevara. A multidão respondeu com aplausos e a palavra de ordem: “Viva a revolução!”.





