O governo do presidente francês Emmanuel Macron está promovendo uma repressão brutal contra os estudantes e trabalhadores que se mobilizam nas ruas da França. Adolescentes perderam a visão, tiveram ossos quebrados e sofreram mutilações provocadas por armamentos policiais. Milhares de pessoas foram presas desde setembro, a maioria menores de idade. A violência praticada pelas forças de segurança francesas expõe o caráter repressivo de um governo apresentado internacionalmente como representante da democracia e dos chamados valores civilizados do Ocidente.
Uma reportagem publicada nesta quarta-feira (21) pela rede Al Jazeera reuniu denúncias de violência policial contra estudantes que participam das manifestações iniciadas em setembro. Os casos incluem disparos de projéteis de borracha contra o rosto de adolescentes, agressões com cassetetes e o emprego de granadas contra jovens que protestavam contra a deterioração do ensino público.
Uma das vítimas é Mael, de apenas 16 anos, que perdeu a visão do olho direito depois de ser atingida por um projétil disparado pela polícia. Outro adolescente, Enzo, de 17 anos, relatou ter sido agarrado por um policial enquanto outro o golpeava com um cassetete. Ele sofreu ferimentos na cabeça, precisou ser hospitalizado e recebeu pontos.
“Ainda estou traumatizado. Em vez de nos protegerem, estão nos atacando”, declarou Enzo à Al Jazeera.
O caso de Eden, de 14 anos, é ainda mais grave. Em 28 de setembro, nas proximidades de uma escola em Saint-Ouen-l’Aumône, região de Paris, o adolescente foi atingido diretamente no rosto por uma granada de gás lacrimogêneo disparada a curta distância.
O impacto provocou duas fraturas na mandíbula, arrancou dentes inferiores e destruiu praticamente todos os dentes superiores. Sua mandíbula precisou ser imobilizada, deixando apenas uma pequena abertura para alimentação por líquidos. A recuperação deverá exigir uma longa sequência de intervenções médicas.
Segundo sua advogada, Elsa Marcel, o disparo foi realizado a aproximadamente um metro e meio de distância. A família apresentou uma denúncia por tentativa de homicídio, enquanto a atuação dos policiais passou a ser investigada.
Em Lens, no norte da França, outro estudante, de 15 anos, perdeu uma das mãos após a explosão de uma granada durante uma intervenção policial, em 5 de outubro. O episódio também deu origem a uma investigação por violência com mutilação e incapacidade permanente.
Não são denúncias isoladas. São acontecimentos registrados em diferentes cidades, envolvendo unidades policiais distintas e adolescentes que participavam de um movimento nacional de protesto.
A dimensão da repressão aparece nos próprios números divulgados na França. Segundo o historiador Quentin Deluermoz, em artigo publicado pelo jornal Le Monde na terça-feira (20), aproximadamente 8 mil pessoas foram colocadas sob custódia policial em um mês de manifestações. Cerca de 85% eram menores de idade.
A Inspetoria-Geral da Polícia Nacional, responsável por investigar irregularidades cometidas pelos agentes, havia aberto 36 investigações relacionadas à atuação policial nos protestos.
Os estudantes franceses começaram a se mobilizar contra a falta de professores, a superlotação das salas de aula, as condições precárias dos edifícios escolares e o abandono da educação pública. O movimento ganhou a participação de universitários, trabalhadores e setores populares atingidos pelo aumento do custo de vida e pelas medidas econômicas do governo.
No sábado (17), aproximadamente 550 mil pessoas saíram às ruas, segundo os números do próprio Ministério do Interior francês. A mobilização atingiu Paris, Lyon, Marselha, Bordeaux e diversas outras cidades. O movimento ultrapassou as reivindicações inicialmente apresentadas pelos estudantes e transformou-se em uma contestação mais ampla ao governo Macron e ao próprio regime político..
A resposta das autoridades foi ampliar as medidas de segurança. O governo acusa os manifestantes de serem responsáveis por episódios de depredação e ataques a policiais, que também registraram centenas de feridos. Entretanto, a violência dos manifestantes é apenas uma resposta (e muito limitada) à violência das forças de repressão contra eles, bem como à humilhação causada pelo Estado francês a milhões de cidadãos graças à política dos capitalistas.
O jornal Le Monde informou que, apenas em Paris, Marselha, Lyon e Bordeaux, as forças de segurança utilizaram mais de 19 mil granadas durante os acontecimentos de 17 de outubro, conforme levantamento preliminar.
A repressão tornou-se tão extensa que até órgãos internacionais controlados pelo imperialismo passaram a questionar abertamente a atuação do governo francês.
A Human Rights Watch publicou, em 14 de outubro, um comunicado denunciando a violência policial contra estudantes. A organização destacou que a polícia empregou gás lacrimogêneo, cassetetes, granadas e projéteis de borracha contra adolescentes que exigiam melhores condições de ensino.
A entidade também apontou que o governo discutia uma legislação capaz de ampliar a proteção jurídica de policiais que utilizassem armas de fogo durante suas atividades.
A situação revela uma contradição fundamental na imagem que o imperialismo sempre tentou passar do governo Macron. O presidente francês costuma ser apresentado como um representante de um centro moderado, liberal e democrático, em contraposição à extrema direita de Marine Le Pen. Entretanto, o emprego de armamento capaz de provocar mutilações permanentes contra manifestantes não é exclusividade de governos que se apresentam abertamente como autoritários.
O histórico do governo Macron mostra que a violência policial contra movimentos populares antecede a atual rebelião estudantil.
Durante as manifestações dos coletes amarelos, iniciadas em novembro de 2018, milhares de pessoas ficaram feridas. Um levantamento publicado pela Anistia Internacional em novembro de 2019 registrou 24 manifestantes que haviam perdido a visão de um olho e outros cinco que tiveram uma das mãos arrancadas durante aquele ciclo de mobilizações.
Em 2023, durante as mobilizações contra a reforma da Previdência, a violência policial voltou a ser objeto de denúncias. Foram registrados novos episódios de uso excessivo da força e cerceamento do direito de manifestação.
A repetição desses acontecimentos demonstra que não se trata de um desvio excepcional provocado pelas manifestações deste mês. A política de segurança francesa desenvolveu métodos de controle de multidões que vêm sendo denunciados há anos por organizações de direitos humanos.
Essa realidade também precisa ser compreendida a partir da posição ocupada pela França no sistema imperialista mundial.
A França não é simplesmente uma “democracia” europeia que ocasionalmente emprega métodos repressivos. É uma potência imperialista, com uma longa história de dominação colonial, intervenções militares e manutenção de interesses econômicos e estratégicos fora de suas fronteiras. E Macron é seu representante por excelência.
A repressão na Nova Caledônia, território francês no Pacífico, oferece outro exemplo. Em 2024, diante de mobilizações ligadas à questão da independência do povo canaque, o governo francês declarou estado de emergência, mobilizou forças militares e restringiu o acesso a uma rede social.
Os métodos utilizados contra movimentos populares no interior da França devem ser examinados também à luz desse histórico de dominação colonial e intervenção externa.
É nesse ponto que se revela o problema político da chamada direita civilizada. Macron não precisa adotar o discurso de Marine Le Pen para recorrer a métodos violentos contra a população. Seu governo pode defender da boca para fora os direitos humanos e a democracia, enquanto estudantes que contestam suas políticas acabam hospitalizados ou mutilados, sua política neoliberal destrói direitos trabalhistas e previdenciários, privatiza e encarece serviços, retira a qualidade de vida conquistada pela luta dos trabalhadores, asfixia os mais pobres e bombardeia e invade suas ex-colônias.
A violência policial francesa também coloca uma questão diretamente relacionada à política brasileira.
Emmanuel Macron é um dos principais parceiros internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os dois governos aprofundaram sua cooperação diplomática, econômica e militar, apresentando essa aproximação como uma aliança em torno de valores democráticos.
Em junho de 2025, durante uma visita de Estado de Lula à França, os presidentes anunciaram uma série de acordos de cooperação. Na ocasião, destacaram expressamente o compromisso comum com a defesa da “democracia”.
Macron chegou a declarar que os dois governos compartilhavam uma mesma visão de mundo. Em junho deste ano, Lula voltou a encontrar o presidente francês durante a reunião do G7, quando ambos discutiram projetos de cooperação na área militar, especialmente o desenvolvimento de submarinos.
A democracia de Macron são os cassetetes e balas disparadas pela polícia contra o povo francês. A democracia de Macron são as intervenções militares na África e no Oriente Médio. Essa é a democracia que Lula diz admirar.
No Brasil, a política de frente ampla defendida pelo governo Lula apresenta a aliança com setores tradicionais da burguesia como um instrumento para defender o regime dito democrático diante da extrema direita. Essa orientação atribui aos setores liberais e conservadores uma função central na política, deixando a esquerda a seu reboque.
O exemplo francês coloca essa concepção diante de uma contradição concreta: um dos representantes internacionais mais conhecidos dessa “democracia” de fachada preside um Estado cujas forças policiais provocam lesões irreversíveis em estudantes que participam de manifestações.
Na França, estudantes, trabalhadores e setores populares estão colocando essa contradição à prova nas ruas. As mobilizações cresceram apesar das milhares de prisões e dos ferimentos graves provocados durante as operações policiais.
O contraste entre a imagem democrática projetada internacionalmente pelo governo Macron e a violência documentada contra manifestantes franceses mostra que o discurso de defesa da “democracia” é uma farsa e que essa defesa na verdade é a de uma ditadura contra o povo.





