Sébastien Lecornu reuniu os partidos políticos em Matignon nesta quinta-feira (22/10) e saiu sem responder à falta de professores, aos salários e ao custo de vida. O primeiro-ministro de Emmanuel Macron dedicou o encontro ao policiamento dos protestos. Para examinar as exigências populares, o governo impôs a volta da “ordem pública”.
Manuel Bompard, coordenador da França Insubmissa (LFI), denunciou que Lecornu “em nenhum momento entrou no debate preciso sobre as reivindicações dos jovens, as reivindicações do país, a cólera e o sofrimento social”. Bompard chamou a reunião de perda de tempo. A LFI queria discutir por que tanta gente saiu às ruas; Matignon preferiu discutir como contê-la.
A porta-voz do governo, Maud Bregeon, disse que Lecornu distinguia os participantes pacíficos dos “vândalos, saqueadores e delinquentes” e da “ultraesquerda”. Mas exigiu o “retorno à calma” e à “ordem pública” antes de examinar as reivindicações. Não anunciou contratações de professores nem medidas contra a carestia. Macron quer suspender a mobilização antes de discutir suas causas.
Marine Tondelier, dos Ecologistas, também criticou Macron. Fabien Roussel, do Partido Comunista Francês, pediu que Lecornu tratasse as causas dos protestos e criticou as proibições previstas para sábado. Raphaël Glucksmann, do Place publique, ligado ao Partido Socialista, cobrou explicações para o fracasso da operação policial de 17/10.
Na direita, Christophe Béchu, do partido Horizons, quis a condenação da violência antes da discussão das exigências populares. Já Edwige Diaz, do Reagrupamento Nacional (RN), disse que o congresso de seu partido em Orléans poderia ocorrer com segurança.
A polícia de Paris prorrogou até segunda-feira (26/10) o toque de recolher das 23 às 6 horas nos setores da Praça da República e de Les Halles. Também proibiu reuniões não declaradas durante a noite em áreas próximas ao Eliseu, à Assembleia Nacional, ao Senado, aos Campos Elísios e às estações ferroviárias. As restrições atingem adultos e menores.
As restrições se estendem a outras cidades. Em Nice, as autoridades proibiram manifestações no centro no sábado (24/10) e mantiveram o toque de recolher noturno para menores. Em Saint-Étienne e Roanne, reuniões reivindicativas de mais de cinco pessoas foram vetadas em certas áreas; parte de Saint-Étienne terá restrição de circulação para jovens. Avignon e Cavaillon também terão toque de recolher para menores em setores comerciais. Marselha e o departamento de Bouches-du-Rhône proibiram todas as manifestações de sábado, inclusive as declaradas.
Macron foi além das decisões locais. Após reunir os serviços de inteligência, anunciou que, no sábado, apenas manifestações organizadas por sindicatos seriam autorizadas, em trajetos definidos para afastá-las de lojas e edifícios públicos. Disse ainda que sua recomendação geral é que não haja manifestação. A exigência exclui outros convocadores e submete o percurso à polícia. O presidente exigiu a “maior dureza” contra os que chamou de delinquentes e acusou grupos da “ultraesquerda” de procurar derrubar a República.
Lecornu prometeu um dispositivo policial “maciço” para a nova jornada. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, anunciou o emprego da BRI, do GIGN e do RAID, além de helicópteros, blindados Centaure e veículos lançadores de água. Militares da operação Sentinelle devem guardar pontos fixos para liberar policiais e gendarmes para as manifestações. Macron convocou um conselho de defesa para sexta-feira; Nuñez apresentará o plano para sábado. Em Orléans, onde ocorrerá o congresso do RN, a previsão é de quase 3.000 agentes para proteger a extrema-direita.
As detenções também avançam: o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, informou 2.700 custódias policiais desde 17/10. Na quinta-feira, a Justiça administrativa havia derrubado a proibição de uma passeata da coordenação Interfac da região parisiense. Mesmo assim, a autoridade policial publicou uma segunda proibição quando os estudantes estavam diante do hospital da Pitié-Salpêtrière. A marcha não saiu do ponto de concentração. Nem uma decisão judicial favorável garantiu sua realização.
Trata-se da imposição de uma verdadeira ditadura.
O governo anunciou que Macron receberá organizações secundaristas na sexta-feira (23/10). Nathanaël Combary, do Renouveau lycéen, disse que levará a questão dos prédios escolares e do Parcoursup, sistema de seleção para a universidade. Pierre Sourzat, da organização Les Lycéens, desconfia: teme que o presidente escute, finja compreender e não dê seguimento a nada. Entidades estudantis cobram desde 7/10 uma reunião com Lecornu para apresentar dez medidas avaliadas em 10 bilhões de euros, entre elas a reforma das bolsas e a criação de 250 mil vagas universitárias. O governo promete outra rodada de conversas para segunda-feira.
Os sindicatos mantiveram a mobilização. Após uma reunião com Lecornu na quarta-feira (21/10), a Confederação Geral do Trabalho (CGT) afirmou que ele não apresentou respostas para a crise social. Convocou assembleias nos locais de trabalho para ampliar a greve de 5/11 e se dispôs a ajudar jovens e trabalhadores a se manifestarem no sábado onde houver condições. A Força Operária (FO) cobrou aumento de salários, bloqueio dos preços de produtos essenciais e defesa dos serviços públicos. Denunciou ainda o silêncio do governo sobre os prédios escolares e o fim do Parcoursup.
A revolta não começou com a grande manifestação nacional de 17/10. Desde setembro, estudantes bloqueiam liceus contra a falta de professores e a deterioração das instalações; depois vieram universitários e trabalhadores atingidos pelos cortes e pela carestia. Os coletes amarelos convocaram novos atos para 24/10. Na jornada anterior, as organizações participantes calcularam 800 mil pessoas nas ruas, enquanto o Ministério do Interior reconheceu 550 mil. Exigir “ordem” antes de ouvir suas reivindicações significa pedir à população que abandone a força que obrigou Macron a convocar as reuniões.
A Liga dos Direitos do Homem pediu nesta quinta-feira uma missão de observação da ONU para os próximos protestos. Denunciou as armas policiais que provocaram mutilações e criticou a mobilização de militares da Sentinelle. Em Lens, uma granada lançada pela polícia arrancou a mão de um estudante. A organização cobrou a proteção do direito de manifestação quando o governo já prorrogava toques de recolher e preparava mais agentes para as ruas.




