Monopólio da imprensa

Metrópoles paga caro por tentar fazer parte do PIG

Após receber uma resposta da Folha, o portal de Luiz Estevão atacou o Estadão e viu o jornal publicar novas conversas sobre sua relação com Vorcaro

O Metrópoles tentou atingir o Estado de S. Paulo com mensagens de Daniel Vorcaro e recebeu uma resposta antes mesmo de sua reportagem sair. Nesta quinta-feira (22/10), o Estadão publicou as perguntas enviadas pelo portal de Luiz Estevão e acusou o concorrente, no título, de preparar um “ataque mentiroso”. Em seguida, apresentou conversas nas quais o dono do Banco Master procurava uma maneira de se aproximar do jornal. O material escolhido pelo Metrópoles para lançar suspeitas sobre o adversário acabou abrindo outra rodada de denúncias contra o próprio portal.

A investida se apoiava em mensagens de maio de 2024 entre Vorcaro e o empresário Flávio Carneiro. Carneiro afirmava que eles estavam “em casa” no Estadão e tinham “crédito” com o jornal. O concorrente respondeu com uma conversa de fevereiro de 2025. Nela, Vorcaro cobrava uma estratégia para trazer o Estadão e a Folha de S.Paulo para seu lado. Carneiro propôs recorrer ao empresário Rubens Ometto para obter influência junto ao jornal. Vorcaro mandou executar o plano: “Temos que aproximar e blindar lá”. A frase de Carneiro vendia ao banqueiro uma influência que as mensagens posteriores não mostram que ele possuísse.

O Metrópoles também perguntou sobre a participação de Ometto numa emissão de debêntures de R$ 142,5 milhões do Estadão. O jornal confirmou a operação e afirmou que ela não dava ao empresário poder sobre sua direção ou suas reportagens. Negou ainda qualquer relação empresarial ou institucional com Vorcaro e Carneiro. Admitiu ter recebido R$ 1,12 milhão do Master em anúncios e patrocínios ao longo de cinco anos — valor que usou para atacar o montante dos negócios do banqueiro com o portal de Estevão.

O contra-ataque foi além das contas. O Estadão apresentou mensagens nas quais Vorcaro reclamava de reportagens, ameaçava processar um jornalista e cogitava tirar uma repórter do veículo. Diante da ameaça de processo, Lilian Tahan, diretora executiva do Metrópoles, teria dito ao banqueiro: “Não tem nada mais chato para o repórter que responder criminal”. O jornal recuperou também as conversas em que ela enviava textos do portal a Vorcaro antes da publicação e aceitava alterações solicitadas por ele. A pergunta sobre a influência do banqueiro na redação do Metrópoles voltou ao centro da briga.

Na semana anterior, o portal havia empregado a mesma reação contra a Folha. Depois da divulgação de mensagens que mostravam ao menos 14 reportagens enviadas antecipadamente a Vorcaro, 11 delas alteradas, passou a investigar o tratamento recebido pelo banqueiro no jornal paulista. A Folha respondeu acusando o concorrente de publicar uma reportagem mentirosa por retaliação. Enquanto cada empresa procurava comprometer a outra, ambas expunham encontros, contratos publicitários e favores até então desconhecidos dos leitores.

O Estadão agora acrescentou números à disputa. Segundo mensagens divulgadas pelo jornal, Vorcaro negociou contratos que somavam R$ 51,9 milhões com o Metrópoles em 2024 e 2025. O valor negociado não equivale necessariamente ao que foi pago. Em outra apuração, o jornal informou que o Coaf identificou R$ 27,7 milhões em transferências do Master ao portal e apontou movimentações suspeitas para empresas da família de Estevão. Quando uma funcionária do banco propôs reduzir um contrato de R$ 20 milhões, Vorcaro rejeitou a ideia: “Coisa mais importante nossa vida é esse metropoles”.

Fundado em Brasília em 2015, o Metrópoles cresceu até disputar audiência nacional com os jornais estabelecidos. Investiu na circulação de notícias pelas redes sociais e ampliou seus negócios: Estevão comprou da CBF os direitos de exploração comercial da Série D do Campeonato Brasileiro, transmitida pelo portal, e uma marca do grupo Master passou a dar nome à competição. Segundo levantamento da Comscore divulgado pelo próprio Metrópoles, o veículo alcançou 73,5 milhões de visitantes únicos em maio de 2025 na medição que reúne computadores, celulares e redes sociais. Ficou à frente de grandes concorrentes digitais naquele recorte.

Com audiência, anunciantes e fontes próprias, o portal passou a concorrer diretamente com a velha imprensa golpista. Sua entrada nessa disputa não lhe rendeu proteção. O crescimento que tornou o Metrópoles atraente para Vorcaro também fez de seus contratos e de suas conversas com o banqueiro uma arma nas mãos dos rivais.

Monopólios e concorrência

Daniel Vorcaro criou o Banco Master para entrar no mercado financeiro, competir com os bancos tradicionais brasileiros e estrangeiros e conseguir uma fatia do mercado.

Entretanto, o sistema capitalista já não permite mais relações de livre-mercado dominantes em relação às relações de concentração econômica e monopólio. Na era do imperialismo, o capital financeiro tradicional, ou seja, os bancos tradicionais, que têm décadas de história e de relações promíscuas com o Estado, são os que dominam o mercado financeiro. Itaú, Bradesco, Santander, Credit Suisse, Bank of America, Citi Group etc.

O Master tentou penetrar nesse meio. Mas não é possível: o monopólio (que significa controle do mercado por um grupo reduzidíssimo de conglomerados tradicionais) está fechado há muito tempo, em todos os ramos da economia. Isso não significa que não existam relações de concorrência, mas sim que as relações monopolísticas são mais poderosas que aquelas.

Na prática, o que ocorreu foi o seguinte: Vorcaro tentou entrar no clube e isso incomodou os donos do clube, pois ele começou a roubar uma fatia do mercado. Como os donos do clube são mais poderosos, porque são monopólio, eles resolveram afastar a concorrência representada pelo Master. Daí que se revelou toda a podridão do Master, sua corrupção e conluio com os altos escalões do Estado. Todos esses bancos têm relações muito mais promíscuas e extensas com o Estado. As de Vorcaro são fichinha perto das deles. Mas eles queimaram Vorcaro para que ele não pudesse mais fazer parte do clubinho fechado.

E onde entra o Metrópoles nessa história? Trata-se de um veículo que, como o Master, tentou entrar no clubinho do Partido da Imprensa Golpista (PIG), que são os monopólios da imprensa, controlados pelos banqueiros. Mas a mesma relação do clube dos bancos se refletiu no clube dos jornais: já é um clube fechado, dominado pelos monopólios como Globo, Folha e Estadão, que são representantes dos bancos tradicionais. O Metrópoles de Vorcaro tentou fazer parte desse clube, se tornou um veículo importante, com grande estrutura, muitos funcionários, excelentes relações com fontes do Estado e do mundo empresarial, podendo produzir conteúdo exclusivo e relevante. Isso incomodou os donos do clube da imprensa. Por isso está sendo rifado, perdendo sua credibilidade através da ação direta dos grandes jornais, como Folha e Estadão. Isso reflete também a ação dos bancos contra o Master, para demolir totalmente a força do Master, inclusive na imprensa.

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