UP e PCB

Os ‘comunistas’ que garantem que eleições derrotam o fascismo

Samara Martins e Edmilson Costa, que não sabem o que é o fascismo, pedem voto na frente ampla para “derrotar o fascismo”

A Unidade Popular (UP) marcou para sábado um ato eleitoral a favor da frente ampla que promete “derrotar o fascismo”. O cartaz combina “Povo na rua”, “Bolsonaro nunca mais” e, em destaque, “Vote 13”. Trata-se do último ato de Lula antes do segundo turno, organizado pelo PT.

Na legenda da publicação, a UP escreve: “Reaja ao fascismo, lute pelo socialismo! Filie-se à Unidade Popular!”. Não explica por que a luta pelo socialismo exigiria reeleger um governo de aliança com Geraldo Alckmin e que promete reduzir a maioridade penal. Em nome do combate ao fascismo, a organização dá a seus militantes a tarefa de trabalhar pela burguesia.

Samara Martins expôs a posição em vídeo da UP: “a Unidade Popular pelo Socialismo convoca você a votar 13, eleger Lula presidente, vote para derrotar o fascismo”. Samara não explica como um governo totalmente comprometido com a burguesia, e cada vez mais dominado pelos elementos de direita, derrotar o fascismo.

O Partido Comunista Brasileiro (PCB) chegou ao mesmo destino. Em outra gravação, Edmilson Costa anunciou “apoio crítico” a Lula no segundo turno. Sua justificativa: “agora a prioridade é a derrota da extrema direita e a defesa das liberdades democráticas”. No fim, condensou tudo na ordem: “agora é Lula para derrotar o fascismo”.

As liberdades democráticas jamais foram atacadas, no período da Nova República, como estão sendo nos últimos quatro anos de governo Lula. Alexandre de Moraes impôs uma ditadura sobre o País, prendendo manifestantes com penas de 14 anos de prisão, banindo redes sociais inteiras, censurando a liberdade de expressão como nunca se havia visto desde a ditadura militar. Tudo isso com o apoio do PT e da esquerda “radical”, do PCB à UP.

UP e PCB apresentam-se como alternativas “radicais” ao PT. Criticam a conciliação de classes, reivindicam o comunismo e prometem organizar o “poder popular”. No segundo turno, reduzem a ameaça que chamam de fascista à disputa por votos para Lula. São “comunistas” de fralda, porque têm uma interpretação absolutamente infantil do que é o fascismo.

Fascismo não é simplesmente um candidato muito reacionário. Leon Trótski, que acompanhou a ascensão de Hitler, descreveu o fascismo italiano como um movimento de amplas massas, surgido principalmente da pequena burguesia e dirigido e financiado pelos grandes capitalistas. Seu objetivo político era esmagar a capacidade de resistência da classe operária. Essa definição separa o fascismo de um governo conservador comum. Também impede tratá-lo como uma coleção de opiniões individuais que se apaga com a derrota de seu candidato.

Clara Zetkin foi igualmente direta em seu informe à Internacional Comunista, em junho de 1923: “O fascismo é a expressão concentrada da ofensiva geral da burguesia mundial contra o proletariado”. Suas fileiras recrutavam setores arruinados da pequena burguesia, antigos oficiais e trabalhadores desorientados pela crise e pelas traições das direções reformistas. A burguesia recorria a essa força porque a pregação da colaboração de classes já não bastava para conter os explorados. Os bandos fascistas ofereciam um instrumento de violência contra greves, sindicatos, partidos e organizações dos trabalhadores.

Em 2018, como consequência das mobilizações para derrubar Dilma Rousseff, financiadas pela alta burguesia nacional e internacional, um movimento de tipo fascista formado inicialmente por elementos do PSDB e pelo MBL promoveu a candidatura de Jair Bolsonaro. À época, havia ataques a sindicatos e organizações de esquerda. As instituições do Estado haviam prendido Lula e o proibido de disputar as eleições. A polícia, às vésperas das eleições, invadia reuniões de estudantes universitários que apoiavam a esquerda. O golpe de 2016 deveria ser consolidado e a direita deveria sair vencedora do pleito, mesmo que seu representante fosse Bolsonaro.

Naquele momento era possível e perfeitamente legítimo falar em instalação de um governo de tipo fascista. Hoje, a situação é muito diferente: Jair Bolsonaro governou com o Centrão e não conseguiu aplicar a sua política própria, depois foi perseguido e preso pela mesma burguesia que o aceitara de nariz tapado e o bolsonarismo é tratado quase como um pária pelos principais setores do imperialismo.

Mas consideremos que a candidatura de Flávio Bolsonaro represente o “fascismo”.

Uma derrota nas urnas pode impedir uma candidatura de ocupar o governo. Não dissolve a organização de seus partidários, os vínculos com setores do aparelho estatal nem as condições sociais que permitem recrutar novos adeptos. A burguesia conserva a possibilidade de recorrer à repressão aberta quando as instituições parlamentares deixam de assegurar seus interesses. Uma força organizada para destruir sindicatos e partidos operários não pode ser tratada como se existisse apenas durante a campanha eleitoral.

Trótski advertiu, numa carta a um operário comunista alemão escrita em dezembro de 1931, que Hitler podia até utilizar o caminho parlamentar. Isso não tornava sua política uma disputa parlamentar normal. Quanto mais a luta de classes se agravava, mais o movimento nazista preparava a violência contra as organizações operárias. Para Trótski, “a questão da tomada do poder pelos fascistas não será decidida pelo voto”. O problema decisivo era saber se a classe operária conseguiria unir suas forças para resistir à ofensiva antes de ser esmagada.

Havia uma tarefa prática: propor a frente única de ação aos trabalhadores social-democratas, apesar das profundas divergências com seus dirigentes. Defender os sindicatos e as sedes operárias, preservar o funcionamento dos conselhos de fábrica, preparar a resistência organizada aos bandos fascistas. Trótski formulou a regra para essa ação comum: “Marchar separadamente, mas golpear juntos!” Escreveu também que cada fábrica deveria se tornar um baluarte antifascista. Cada organização conservaria seu programa, sua imprensa e sua crítica política. A unidade serviria para enfrentar o inimigo nas lutas concretas, não para adotar a política da direção reformista.

Zetkin estudou a experiência italiana depois da ocupação das fábricas de 1920. A derrota daquele movimento e a passividade das direções reformistas facilitaram o crescimento dos bandos de Mussolini. Sua resposta não consistia em invocar abstratamente a democracia: era preciso disputar os setores populares atraídos pelos fascistas, elevar a consciência dos operários e preparar a defesa coletiva de suas organizações. Onde surgia a violência fascista, dizia ela, a classe trabalhadora precisava de uma frente única e de meios próprios para resistir.

PCB e UP, repetindo como papagaios a propaganda liberal rebaixada do PT, dizem que o voto na frente ampla combate o fascismo e a eleição da frente ampla derrota o fascismo. Na Alemanha, a social democracia abandonou uma candidatura própria para apoiar o marechal Hindenburg em 1932 contra Hitler. Era o candidato da frente ampla da época e o “mal menor”. Ele “derrotou o fascismo” nas eleições e, no ano seguinte, entregou o poder a Hitler.

Dilma Rousseff venceu a eleição presidencial de 2014. Dois anos depois, foi derrubada por uma ofensiva golpista conduzida dentro das instituições do regime. A vitória na urna não impediu o golpe. O PCO combateu sua derrubada embora não tivesse apoiado sua candidatura: para enfrentar os golpistas, era preciso mobilizar os trabalhadores, não firmar compromisso eleitoral com o governo. A direita e os capitalistas dispõem de partidos, tribunais, imprensa e forças de repressão. Nenhuma dessas armas desaparece porque perderam uma votação e são utilizadas pelos fascistas quando a burguesia decide apoiá-los para esmagar os trabalhadores. O PCO sempre combateu a extrema-direita com os métodos da classe operária e com a plena consciência de que a aliança com o “mal menor”, com a burguesia “civilizada” e “democrática” é o caminho para a derrota da esquerda e a vitória do fascismo.

Em 1931, Trótski combateu dois erros diante do nazismo: a recusa sectária dos stalinistas em agir com os operários social-democratas e a confiança reformista em governos burgueses apresentados como “mal menor”. Propunha ações comuns para defender as organizações operárias, mantendo o direito de criticar seus dirigentes. Era uma frente dos trabalhadores para a luta, sem adesão à política dos partidos que defendiam a ordem capitalista. É a política do PCO: unidade das massas oprimidas, sejam elas revolucionárias, petistas ou influenciadas pela esquerda pequeno-burguesa, na luta cotidiana, nas greves, ocupações, agitações reivindicativas; nenhum voto nos candidatos que representam a política da burguesia, como são Lula e, obviamente, Flávio Bolsonaro.

A legenda da publicação da UP denuncia “os representantes da burguesia que ameaçam nossas conquistas e nossa democracia”. O cartaz da mesma publicação ordena “Vote 13”, ignorando os representantes da burguesia que já integram o governo e sua aliança eleitoral, incluindo os maiores demolidores das conquistas democráticas, que são os ministros do STF.

Uma política operária começaria por reunir os trabalhadores em seus locais de trabalho. Comitês de fábrica, assembleias para decidir greves, ocupação das fábricas diante de ataques patronais, organização dos terceirizados e defesa dos sindicatos: eis meios para enfrentar a direita e elevar a consciência de classe. Os trabalhadores que hoje votam em Flávio Bolsonaro, desiludidos com o PT, também podem e devem ser chamados a lutar por salário, emprego e condições de trabalho. Transformar cada colega de fábrica em inimigo fascista por causa do voto é presentear a direita com uma parte da classe operária.

Nos bairros, a luta exige comitês de moradores contra despejos, carestia, falta de serviços e violência policial. No campo, a ocupação dos latifúndios e a defesa dos camponeses diante dos jagunços e das forças de repressão. Nas universidades e escolas, assembleias e ocupações para impedir cortes, privatizações e perseguições. A autodefesa das organizações populares, onde elas são atacadas, precisa nascer de sua mobilização coletiva. A conquista dos direitos democráticos pelos explorados depende dessa força organizada, capaz de agir todos os dias e de impor suas reivindicações a qualquer governo e ao conjunto da burguesia.

Um partido operário pode disputar eleições para apresentar seu programa e ampliar sua influência. UP e PCB fazem outra coisa: dizem que a derrota do fascismo depende de votar numa frente com a burguesia. Assim, o resultado da urna substitui o trabalho de organizar a classe. Até um ato de rua se converte em comício para os que governam com Alckmin e Tebet.

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