Partido que, se fosse fiel à sua propaganda, deveria guiar a vanguarda dos trabalhadores, está seguindo as ordens d’O Grande Boiadeiro
André Janones deu uma ordem ao seu “Exército do Lula”: no sábado (17/10), às 9h, os seguidores deveriam publicar fotos de verde e amarelo, fazendo o “L”. No mesmo dia, Mauro Iasi, membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB), publicou uma fotografia com a camisa da seleção brasileira e a mão no gesto pedido pelo deputado. Quem se apresenta como dirigente da revolução apareceu entre os comandados do deputado oportunista e direitista da Rede.
O PCB se reivindica um partido comunista e marxista-leninista. Logo, um partido de vanguarda. Porque o partido comunista é a ala mais avançada politicamente da classe operária e do povo, ele é a direção dos trabalhadores. Ele toma as iniciativas, ele lidera. Mas o PCB não é nada disso. Neste segundo turno, está a reboque do PT, chamando voto em Lula e na frente ampla com a burguesia em nome do “combate ao fascismo”. Agora, até o figurino de um dirigente do partido acompanha o calendário de Janones.
A direção do PCB anunciou em 06/10 o apoio à reeleição do presidente. Em seu artigo Agora é Lula!, reconheceu o fracasso da conciliação de classes e, no parágrafo seguinte, convocou seus militantes a trabalhar pela vitória da candidatura que governa com Geraldo Alckmin, Simone Tebet, Marina Silva, o PSD e boa parte do que sobrou do PSDB. Em 09/10, a Comissão Política Nacional publicou outra nota, cobrando de toda a militância “entrega total” na disputa eleitoral (sem ter consultado sua militância). O trabalho do partido “comunista” passou a ter um objetivo imediato: conquistar votos para a campanha da redução da maioridade penal.
André Janones articula a campanha digital de Lula. Deputado federal da Rede por Minas Gerais, criou o canal “Exército do Lula”, no qual distribui tarefas e mensagens a milhões de seguidores. Ele é o general desse exército. Chama suas iniciativas de “missões” e fala como quem manda: os outros recebem a ordem, reproduzem as mensagens e publicam o material em suas próprias páginas. Trata-se de um político oportunista de direita que engana a classe média de esquerda com a promessa de salvar Lula nas redes sociais.
Ao convocar as fotografias, Janones explicou que queria alcançar o eleitor que não se identifica com a esquerda. Pediu aos artistas e influenciadores que usassem sua audiência, dispensando-os até de mencionar seu nome ou o canal. Lula, Alckmin, ministros e figuras da Rede Globo aderiram. A finalidade estava declarada pelo organizador: chegar a quem poderia rejeitar uma campanha associada à esquerda e ao vermelho.
O Diário Causa Operária deu a Janones o apelido de O Grande Boiadeiro. É uma referência a Mao Tsé-Tung, chamado de Grande Timoneiro. Mao guiava as massas pela revolução. Janones guia uma classe média liberal para as eleições. Do alto de sua arrogância, essa classe média liberal chama os pobres coitados enganados pelo bolsonarismo de gado (muitas vezes, gente humilde que se desiludiu com o PT). Pois bem, agora está claro que essa mesma classe média liberal comporta-se, ela sim, como um gado que segue cegamente o que Janones manda.
E, no meio desse gado, encontramos o Comitê Central do PCB! Dado que o partido costuma acompanhar vagarosamente os desenvolvimentos da política nacional, como foi demonstrado por sua demora monumental em perceber que o golpe de 2016 era um golpe (só percebeu quando Temer, já no poder, passou a destruir o País), poderíamos dizer que até no gado eleitoral de Janones o PCB ocupa as últimas posições. Está na retaguarda da boiada que segue o som do berrante.
O PT nasceu das grandes greves operárias. Na campanha atual, procura esconder até sua cor tradicional para agradar a setores da classe média que têm horror ao vermelho. A camisa da seleção, usada nas manifestações pelo golpe contra Dilma Rousseff, foi escolhida como meio de atrair esse eleitorado. Iasi aceitou vestir o uniforme da operação, mas diferenciando-se: era a vaquinha vermelha no meio do rebanho. O PCB pretende ser a direção política dos trabalhadores, mas seus dirigentes aparecem seguindo as ordens de um deputado de direita.
Sofia Manzano, outra figura conhecida do PCB, publicou em 07/10 uma mensagem na mesma linha da propaganda eleitoral rebaixada do PT. Abre com “Se o Flávio ganhar, tudo vai piorar”. Exatamente como as peças de televisão do PT. Em seguida, anuncia que o trabalhador perderá direitos, os jovens trabalharão até morrer, o Sistema Único de Saúde desaparecerá e até o suicídio de idosos virará uma epidemia. Fecha com as marcas de campanha de Lula. É a campanha do medo, sem a preocupação de politizar os trabalhadores. Segue a cartilha de Janones e da campanha que chegou ao cúmulo de defender a redução da maioridade penal.
Depois de quatro anos de frente ampla, a direita chegou ao segundo turno e Flávio Bolsonaro terminou a primeira votação à frente de Lula. O PCB reconheceu em sua resolução a falência da conciliação de classes, mas sua resposta foi se subordinar novamente a ela. A cada eleição, o “combate ao fascismo” vira a senha para suspender o programa próprio, guardar as críticas ao governo e colocar os “comunistas” no rebanho de Janones.




