Na França, estudantes bloqueiam escolas e se juntam aos trabalhadores contra o governo de Emmanuel Macron. Exigem mais professores, recursos para o ensino e medidas contra a carestia. No Brasil, as manifestações convocadas depois do primeiro turno procuram assegurar a manutenção da frente ampla no governo. Comparar os dois movimentos apenas porque há jovens nas ruas serve para esconder uma diferença fundamental: os franceses se mobilizam em uma luta real contra os inimigos do povo; os atos no Brasil são despolitizados e puramente eleitorais.
As razões da revolta francesa são conhecidas por qualquer estudante ou trabalhador brasileiro. Faltam professores, os prédios escolares estão deteriorados e o dinheiro das famílias acaba antes do fim do mês. Em comunicado de 7/10, organizações sindicais francesas cobraram verbas para enfrentar os problemas do ensino e convocaram os trabalhadores da educação a acompanhar os estudantes, inclusive por meio da greve. A responsabilidade foi colocada diretamente sobre o governo.
A aproximação entre a juventude e o movimento operário decorre dessas necessidades comuns. O sucateamento da escola atinge os filhos de quem sofre com salários insuficientes e serviços públicos precários. Quando esses setores se encontram nas ruas, podem combater juntos uma política que os prejudica diariamente. A luta deixa de ficar isolada em cada escola ou categoria e passa a atingir o governo que aplica os ataques.
Macron responde com repressão porque a mobilização ameaça sair de seu controle. Os bloqueios, as greves e a resistência dos manifestantes dificultam a imposição dos cortes. A radicalização tem uma causa: diante da recusa das autoridades em atender reivindicações elementares, os estudantes precisam ampliar a pressão. O governo neoliberal põe a polícia nas ruas para preservar a política que provocou a revolta.
Na Itália, os protestos também se dirigem contra os governantes. Em 16/10, estudantes marcharam em Roma, Milão, Bolonha e Turim, exigindo recursos para as escolas e denunciando os gastos militares de Giorgia Meloni. A semelhança com a França está nessa oposição às prioridades do governo: os jovens querem condições de estudar e se levantam contra o uso do dinheiro público para alimentar a máquina de guerra.
Não são apenas as reivindicações, mas também os métodos que mostram como as duas mobilizações europeias são movimentos de luta dos explorados contra os exploradores: massas inteiras mobilizadas, piquetes, greves, depredações, enfrentamentos com a polícia, intensa repressão estatal, campanha propagandística do governo e dos jornais da burguesia contra a esquerda e os manifestantes.
Os atos brasileiros não têm nada disso. As convocações procuram conquistar votos, combater a abstenção e impedir a vitória de Flávio Bolsonaro. A tarefa atribuída aos participantes é conversar com parentes, colegas e vizinhos para reeleger Lula com uma política direitista, de redução da maioridade penal e reforço de crenças religiosas. São atividades eleitorais, organizadas em torno de uma candidatura. A quantidade de pessoas nas ruas não modifica esse caráter.
O medo de Flávio Bolsonaro mantém unidos setores que poderiam entrar em conflito com o próprio governo. O estudante preocupado com a falta de recursos é chamado a guardar sua cobrança para depois. O trabalhador descontente deve convencer outros trabalhadores a apoiar a continuidade da administração que retirou direitos dos trabalhadores. As direções fazem das necessidades populares uma justificativa para o voto, sem organizar pressão alguma para atendê-las.
Mesmo quando aparecem bandeiras de educação e direitos sociais, elas ficam subordinadas à campanha. Uma mobilização para exigir verbas precisa cobrar decisões de quem controla o orçamento, estabelecer reivindicações e preparar novas ações diante de uma negativa. Um comício pela reeleição pede confiança no presidente. Misturar as duas coisas permite apresentar o apoio ao governo como se já fosse uma conquista para os estudantes.
A diferença também aparece nos setores que dão direção política às manifestações. Na França, a participação operária e popular amplia o confronto iniciado nas escolas. No Brasil, a militância universitária de classe média, os coletivos identitários e os cabos eleitorais governistas trabalham pela vitória da frente ampla. Os trabalhadores e estudantes de base que participam são chamados a acompanhar essa orientação, sem que suas reivindicações determinem os rumos da campanha.
É a máquina burocrática do PT e do governo que conduz as manifestações, pauta as palavras de ordem e orienta os métodos a serem usados nos atos.
As manifestações são legítimas, e o temor de muitos participantes diante da extrema direita é sincero. Isso não muda o objetivo do aparato partidário governista que promove os atos: aprofundar a política de frente ampla. A máquina eleitoral aproveita a disposição dos jovens para multiplicar suas atividades. Não tem nada de rebelião popular ou coisa que o valha.
A presença de Geraldo Alckmin na chapa e nos atos resume o problema. A juventude é convocada a combater a direita sustentando uma aliança com um de seus representantes mais tradicionais, inimigo dos estudantes e dos trabalhadores. Deve aceitar essa composição, evitar críticas e confiar que a vitória abrirá espaço para suas reivindicações. O compromisso com os aliados burgueses é imediato; o atendimento das necessidades dos trabalhadores fica para um futuro indefinido.
O desespero pequeno-burguês transforma essa política em obrigação. Qualquer recusa é tratada como colaboração com o bolsonarismo. A cada concessão de Lula aos conservadores, exige-se mais silêncio da esquerda para não atrapalhar a eleição. Por esse caminho, a militância acaba defendendo justamente os acordos que impedem uma luta consequente contra a direita.
Na França, os manifestantes mostram que é possível agir sem aceitar essa submissão. Ao organizar bloqueios, assembleias e greves, estudantes e trabalhadores criam condições para impor suas exigências. Uma paralisação pode atingir os interesses dos patrões; uma campanha eleitoral comprometida com esses mesmos patrões pede que o conflito seja suspenso. Essa diferença determina o alcance político das mobilizações.
Se Lula vencer, os problemas que levam franceses e italianos às ruas continuarão presentes no Brasil. A juventude precisará de escolas e universidades em condições de funcionar. Os trabalhadores precisarão enfrentar os baixos salários e os ataques aos direitos. A vitória eleitoral não dará a esses setores a organização que suas direções deixaram de construir para preservar os acordos do governo. Pelo contrário: toda a política do PT indica que o partido atacará ainda mais os direitos e interesses populares, haja vista a defesa da redução da maioridade penal.
Esperamos que, em 2027, os estudantes e a esquerda brasileira sigam o caminho da França. É por isso que lutamos: pela organização da juventude junto à classe operária, com reivindicações próprias e disposição para enfrentar quem estiver no governo. Assembleias nas escolas, mobilização nos locais de trabalho e preparação de greves podem dar aos explorados força para transformar a sociedade. Essa organização precisa substituir os comitês eleitorais criados para manter a frente ampla no governo.




