Três adversários declarados do Partido da Causa Operária (PCO) aparecem no escândalo do Banco Master: o Diário do Centro do Mundo (DCM), Reinaldo Azevedo e Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). O portal foi citado em negociações de pagamento para interferir em notícias; o comentarista reconheceu um patrocínio do qual R$ 700 mil foram efetivamente pagos; o escritório da mulher e dos filhos do magistrado recebeu R$200 milhões. Os que perseguiram o PCO por suas ideias revolucionárias agora aparecem na folha de pagamentos do banqueiro corrupto.
DCM: de pasquim policial a jornal do banqueiro
A hostilidade do DCM ao PCO ganhou força depois que o Diário Causa Operária publicou, em novembro de 2021, denúncias políticas sobre Guilherme Boulos, do PSOL.
Naquela época, Rui Costa Pimenta participava do programa Café da Manhã, do DCM, ao lado de Leandro Fortes. Sua participação foi encerrada pelo DCM logo após as primeiras reportagens do DCO. O portal dirigido por Kiko Nogueira passou então a promover uma campanha de calúnias e mentiras contra o PCO, com “reportagens” de Pedro Zambarda sobre fornecedores contratados nas campanhas eleitorais. Gráficas pertencentes a militantes foram apresentadas como se a identidade de seus proprietários bastasse para provar corrupção. A documentação utilizada nas acusações havia sido entregue pelo próprio Partido à Justiça Eleitoral, que jamais havia considerado irregular.
Em nota de 14 de janeiro de 2022, o PCO informou ter gasto R$ 250 mil na impressão de materiais para 143 candidatos em 2020 e R$ 55 mil com os Correios para enviar mais de sete toneladas de jornais, panfletos e outros impressos. A produção eleitoral passara de 10 milhões de unidades em 2018 e também em 2020. O DCM não demonstrou, com a simples indicação de vínculos partidários dos fornecedores, que os serviços não tivessem sido prestados ou que os preços fossem fraudulentos.
A ofensiva policial veio a atingir o Partido. Em 11 de agosto de 2026, a Polícia Federal cumpriu mandado de busca em endereço de Pimenta; uma decisão também o afastou da presidência do PCO por 180 dias. Matérias do DCM foram incorporadas às diligências e serviram para chamar fornecedores, advogados e outros profissionais ligados à atividade partidária. Nesta segunda-feira (19), perguntou: “Quem pagou pelas acusações contra o PCO?”
As conversas encontradas pela Polícia Federal no aparelho de Vorcaro acrescentam outro capítulo à história do portal. Luiz Phillipi Mourão, chamado de Sicário e identificado como operador do banqueiro, negociava a supressão de notícias desfavoráveis ao Master. Segundo reportagens publicadas a partir do material da investigação, o acordo discutido incluía pagamentos mensais e a possibilidade de produzir matérias contra pessoas indicadas pelo grupo de Vorcaro. Em 21 de outubro de 2024, Mourão comunicou ao banqueiro: “Dcm está pago e fechado”. Em outra conversa, em maio de 2025, declarou ter providenciado a retirada de uma notícia que contrariava o cliente.
As reportagens mencionam uma proposta de R$ 50 mil mensais. O DCM negou ter recebido dinheiro dos investigados, afirmou que nenhum profissional foi identificado como beneficiário e disse não ser alvo de investigação da PF. Sustentou ainda que publicou dezenas de textos críticos a Vorcaro depois das conversas e contestou a apuração do UOL. Quem receberia e retiraria os textos continua sem esclarecimento. Em 2022, porém, o portal não exigiu prova de desvio para lançar suspeitas sobre despesas declaradas pelo PCO. A acusação bastava, porque servia a uma campanha política.
Reinaldo Azevedo: acusava o Partido de viver de milhões que não recebeu
Em agosto de 2021, o PCO combatia a participação do PSDB nos atos pelo Fora Bolsonaro, denunciava as manobras para fortalecer João Doria e se opunha ao uso do STF como instrumento de repressão política. O Partido condenou a prisão de Roberto Jefferson por suas declarações, sem apoiar suas posições. Reinaldo reagiu com insultos.
Numa publicação em sua conta na Internet, classificou o PCO como “bolsonarismo de esquerda”, chamou seus militantes de “escória política” e terminou acusando-os de ser “burgueses do capital alheio”. Sustentou que a organização viveria de milhões distribuídos pelo Fundo Partidário. A acusação era falsa. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) informava publicamente que o PCO estava excluído da distribuição desse fundo por não cumprir a cláusula de desempenho. Em 18 de agosto de 2021, o DCO já publicava uma resposta acompanhada da informação oficial da Justiça Eleitoral.
Em 16 de outubro último, foi a vez de Reinaldo explicar uma relação financeira sua com o Banco Master. Uma nota enviada à rádio TMC confirmou que o programa Reconversa, apresentado por ele, firmou em março de 2024 um contrato de patrocínio com a empresa Super, ligada ao banco. O contrato previa 12 parcelas de R$ 100 mil, no total de R$ 1,2 milhão. Segundo o próprio jornalista, sete parcelas foram efetivamente pagas: R$ 700 mil.
Reinaldo afirmou que declarou os valores às autoridades fiscais e recolheu os impostos. Disse também: “nunca escrevi em defesa do Banco Master” e “jamais conversei com Daniel Vorcaro ou Fabiano Zettel”. Segundo sua versão, as tratativas passaram pela área comercial, o programa não fez propaganda dos interesses do banco e o patrocínio era conhecido por seus contratantes.
Mas Reinaldo exigia do Partido uma pureza financeira que não cobrava de seu próprio programa, patrocinado por uma empresa do banqueiro.
Alexandre de Moraes: censura para o PCO, negócios milionários no entorno do STF
Alexandre de Moraes foi além da calúnia jornalística, já que ele era, até pouco tempo atrás, o ser supremo da República. Em 2 de junho de 2022, determinou o bloqueio das contas do PCO no Twitter, Facebook, Instagram, YouTube, Telegram e TikTok. A medida, tomada no inquérito das chamadas fake news, atingiu um partido legalizado às vésperas da eleição. O ministro também mandou colher depoimento de Rui Costa Pimenta. A ordem foi mantida pelo Supremo em novembro daquele ano.
O motivo indicado pelo STF foram publicações em que o PCO defendia a dissolução do tribunal, acusava ministros de práticas ilícitas e criticava o Tribunal Superior Eleitoral. O Partido chamara Moraes de “skinhead de toga” e denunciara seus poderes de censura. São declarações políticas duras, mas absolutamente normais e permitidas em um regime minimamente democrático. Moraes, no entanto, retirou do ar canais inteiros do Partido.
O escritório Barci de Moraes Sociedade de Advogados, dirigido por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, mantinha contrato que poderia alcançar aproximadamente R$ 131 milhões em honorários. Documentos fiscais entregues à CPI do Crime Organizado registraram 22 pagamentos declarados pelo banco entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, cada um de aproximadamente R$ 3,65 milhões, totalizando R$ 80,2 milhões.
A participação de Moraes nas relações com o banqueiro, entretanto, não se resume à existência da sociedade de advocacia de sua família. A análise de uma minuta contratual encontrou referência ao usuário “Ministro Alexandre de Moraes” nos metadados de edição. O escritório reconheceu que ele examinara o documento para verificar possíveis impedimentos profissionais. Também vieram à luz conversas sobre a organização de encontros em Londres financiados pelo Master, nas quais o magistrado aparece participando das definições de convidados e programação.
Segundo mensagens de Ana Matos, integrante da equipe de Vorcaro, Moraes e Viviane trabalharam diretamente nos preparativos de um fórum previsto para agosto de 2025. Em julho, a funcionária informou ao banqueiro que o ministro telefonava “muitas vezes ao dia”. O encontro foi cancelado após a imposição de sanções norte-americanas contra Moraes. No ano anterior, o Master já havia financiado um evento londrino com a presença de ministros, procuradores, políticos e advogados. O banqueiro se aproximava de autoridades capazes de decidir questões de interesse do Master.
Reportagens também identificaram mensagens de Vorcaro a Moraes e viagens do casal em aeronaves ligadas ao círculo do banqueiro. O que já aparece nos documentos é uma proximidade incompatível com a imagem de magistrado distante das relações privadas que cultiva o grande capital.
O Partido tem denunciado que ministros não eleitos passaram a exercer poderes políticos superiores aos de representantes submetidos ao voto popular. O caso Master mostra o outro lado dessa concentração: os caminhos pelos quais um banqueiro alcançava pessoas capazes de interferir na vida de milhões, enquanto um pequeno partido operário tinha sua voz silenciada.





