Eleição derrota o fascismo?

Voto nulo, marxismo e fascismo: o que Trótski realmente escreveu

Carta de 1931 distingue a frente única de luta contra o fascismo dos acordos eleitorais e do apoio ao chamado “mal menor”

A decisão do Partido da Causa Operária (PCO) de votar nulo no segundo turno presidencial provocou uma campanha de ataques por parte de petistas e setores da esquerda. Os críticos acusam o Partido de abandonar o marxismo e favorecer o crescimento da extrema direita ao se recusar a apoiar Lula contra Flávio Bolsonaro. Para eles, combater o bolsonarismo significa necessariamente votar no candidato do PT. Quem não aceita essa imposição passa a ser tratado como cúmplice da direita, independentemente de sua política e de sua atuação na luta de classes.

O PCO decidiu pelo voto nulo em sua 39ª Conferência Nacional, realizada em 11 de outubro. A resolução partiu de uma avaliação da candidatura de Lula, de suas alianças com setores da burguesia e de sua política de conciliação com a direita. A defesa da redução da maioridade penal, feita pelo próprio presidente poucos dias depois, confirmou as críticas do Partido à orientação assumida pelo PT. O problema não é escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas impedir que a classe trabalhadora seja obrigada a abandonar suas reivindicações e sua independência política para apoiar uma frente eleitoral que não representa seus interesses.

Os que acusam o PCO de abandonar o marxismo deveriam conhecer melhor a posição dos próprios dirigentes revolucionários diante da ameaça fascista. Em dezembro de 1931, quando o Partido Nazista crescia rapidamente na Alemanha, Leon Trótski escreveu uma carta a um operário comunista alemão para combater os erros da política stalinista. Trótski defendia a frente única entre comunistas e social-democratas para enfrentar fisicamente as organizações fascistas, proteger os sindicatos e defender as organizações operárias. Ao mesmo tempo, condenava o apoio político ao governo de Heinrich Brüning sob o pretexto de que ele representaria um “mal menor” diante de Hitler. Para Trótski, acordos eleitorais e compromissos parlamentares com a social-democracia não se confundiam com a unidade dos trabalhadores na luta contra o fascismo.

A Alemanha de 1931 não é o Brasil de 2026, mas a distinção estabelecida por Trótski tem importância para a discussão atual. O revolucionário russo não defendia que os comunistas renunciassem ao combate contra o fascismo em nome da independência partidária, tampouco que entregassem sua política às direções reformistas para formar uma frente eleitoral. A luta comum contra um inimigo não exigia abandonar o programa revolucionário, suspender as críticas aos dirigentes social-democratas ou apoiar governos burgueses. Para que os leitores possam conhecer diretamente essa posição, publicamos abaixo, na íntegra, a carta O perigo iminente do fascismo na Alemanha, escrita por Leon Trótski em 8 de dezembro de 1931.

O perigo iminente do fascismo na Alemanha
Oct 20, 2026 · @João
Sobre o texto
Carta de Leon Trótski escrita em Kadıköy, Istambul, em 8 de dezembro de 1931, durante o exílio na Turquia, 13 meses antes de Hitler ser nomeado chanceler.
• Publicação original em inglês: The Militant, vol. V, nº 2 (nº 98), 9 de janeiro de 1932, pp. 1 e 4. O jornal pertencia à Liga Comunista da América, a organização trotskista dos Estados Unidos.
• Base desta tradução: transcrição de Einde O’Callaghan para o Trotsky Internet Archive (marxists.org), sob licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 2.0, que permite traduzir e redistribuir com crédito e sob a mesma licença.
• Ressalva: a versão inglesa já é uma tradução. Existe outra versão inglesa, ligeiramente diferente, com o título Por uma frente única operária contra o fascismo.
• Datas russas: Trótski usa o calendário juliano; a correspondência com o calendário atual está nas notas.
• As chamadas entre colchetes [1] remetem às notas de contexto no fim do documento.
Tradução
O perigo iminente do fascismo na Alemanha
Carta a um operário comunista alemão sobre a frente única contra Hitler (dezembro de 1931)
Neste momento, a Alemanha atravessa uma daquelas grandes horas históricas das quais dependerão, por décadas, o destino do povo alemão, o destino da Europa e, em medida considerável, o destino de toda a humanidade. Se colocarmos uma bola no topo de uma pirâmide, o menor impacto pode fazê-la rolar para a esquerda ou para a direita. É essa a situação que se aproxima a cada hora na Alemanha de hoje. Há forças que gostariam que a bola rolasse para a direita e quebrasse a espinha da classe operária. Há forças que gostariam que a bola permanecesse no topo. Isso é uma utopia. A bola não pode permanecer no topo da pirâmide. Os comunistas querem que a bola role para a esquerda e quebre a espinha do capitalismo. Mas não basta querer; é preciso saber como. Reflitamos com calma mais uma vez: a política conduzida atualmente pelo Comitê Central do Partido Comunista da Alemanha [1] é correta ou incorreta?
O que Hitler quer?
Os fascistas [2] crescem muito rapidamente. Os comunistas também crescem, mas muito mais devagar [3]. O crescimento nos polos extremos mostra que a bola não pode se manter no topo da pirâmide. O rápido crescimento dos fascistas significa o perigo de que a bola role para a direita. Nisso reside um perigo enorme.
Hitler enfatiza que é contra um golpe de Estado [4]. Para estrangular a democracia de uma vez por todas, ele está disposto a chegar ao poder, por assim dizer, apenas pela via democrática. Podemos acreditar seriamente nisso?
É claro que, se os fascistas pudessem contar com a obtenção pacífica da maioria absoluta dos votos nas próximas eleições, talvez até preferissem esse caminho. Na realidade, porém, esse caminho é impensável para eles. É estúpido acreditar que os nazistas cresceriam ininterruptamente, como crescem agora, por um período ilimitado. Mais cedo ou mais tarde, esgotarão seu reservatório social. O fascismo introduziu em suas próprias fileiras contradições tão terríveis que há de chegar o momento em que a maré cheia deixará de compensar a vazante. Esse momento pode chegar muito antes de os fascistas terem reunido em torno de si sequer metade dos votos. Não poderão parar, pois aqui nada mais terão a esperar. Serão forçados a recorrer a um golpe.
Mas, mesmo deixando tudo isso de lado, a via democrática está fechada para os fascistas. O imenso crescimento dos antagonismos políticos no país e a agitação de bandoleiros dos fascistas levarão inevitavelmente a uma situação em que, quanto mais os fascistas se aproximarem da maioria, mais carregada ficará a atmosfera e mais amplos serão os conflitos e as lutas. Dessa perspectiva, a guerra civil é absolutamente inevitável. Consequentemente, a questão da tomada do poder pelos fascistas não será decidida pelo voto, mas pela guerra civil, que os fascistas estão preparando e provocando.
Podemos supor, por um minuto sequer, que Hitler e seus conselheiros não percebam nem prevejam isso? Seria considerá-los uns imbecis. Não há crime maior em política do que esperar estupidezes de um inimigo forte. Se Hitler não pode deixar de saber que o caminho para o poder passa por uma guerra civil terrível, então seus discursos sobre a via pacífica e democrática são apenas um disfarce, isto é, um estratagema. Nesse caso, é ainda mais necessário manter os olhos abertos.
O que se esconde por trás do estratagema de Hitler?
Seus cálculos são inteiramente simples e evidentes: ele quer adormecer os adversários com a perspectiva de longo prazo do crescimento parlamentar dos nazistas, para apanhá-los cochilando e desferir-lhes um golpe mortal no momento certo. É perfeitamente possível, além disso, que as cortesias de Hitler ao parlamentarismo democrático ajudem a formar, num futuro próximo, algum tipo de coalizão na qual os fascistas obtenham os postos mais importantes e os utilizem, por sua vez, para o seu golpe de Estado. Pois está inteiramente claro que a coalizão — suponhamos — entre o Centro [5] e os fascistas não será uma etapa da solução “democrática” da questão, mas um passo a mais rumo ao golpe de Estado, nas condições mais favoráveis aos fascistas [6].
Devemos planejar segundo a perspectiva mais curta
Tudo isso significa que, mesmo independentemente dos desejos do estado-maior fascista, o desfecho pode chegar no decorrer dos próximos meses, se não semanas. Essa circunstância tem importância enorme na elaboração de uma política correta. Se permitirmos que os fascistas tomem o poder em dois ou três meses, a luta contra eles no ano que vem será muito mais difícil do que neste. Todos os planos revolucionários traçados antecipadamente para dois, três ou cinco anos se revelarão apenas um palavrório miserável e vergonhoso se a classe operária permitir que os fascistas cheguem ao poder no decorrer dos próximos dois, três ou cinco meses. O cálculo do tempo na política das crises revolucionárias é, tal como nas operações de guerra, de importância decisiva.
Tomemos outro exemplo, mais distante, para esclarecer nossa ideia. Hugo Urbahns [7], que se considera um “comunista de esquerda”, declara o partido alemão falido, politicamente liquidado, e propõe criar um novo partido. Se Urbahns tivesse razão, isso significaria que a vitória dos fascistas é certa. Pois, para criar um novo partido, são necessários anos (e, além disso, não está nada provado que o partido de Urbahns seria em algum sentido melhor do que o partido de Thälmann [8]: quando Urbahns estava à frente do partido, os erros não eram em nada menos numerosos).
Sim, se os fascistas realmente conquistassem o poder, isso significaria não só a destruição física do Partido Comunista, mas sua verdadeira falência política. Uma derrota ignominiosa na luta contra bandos de lixo humano — os muitos milhões do proletariado alemão jamais perdoariam isso à Internacional Comunista [9] e à sua seção alemã. A tomada do poder pelos fascistas significaria, portanto, muito provavelmente, a necessidade de criar um novo partido revolucionário e, com toda a probabilidade, também uma nova Internacional [10]. Seria uma catástrofe histórica terrível. Mas supor hoje que tudo isso é inevitável é coisa de que só são capazes os verdadeiros liquidacionistas [11], isto é, aqueles que, sob o manto de sua fraseologia oca, na realidade só são capazes de capitular covardemente diante da luta e sem luta. Com essa concepção, nós, bolcheviques-leninistas, a quem os stalinistas chamam de trotskistas [12], nada temos em comum.
Estamos inabalavelmente convencidos de que a vitória sobre os fascistas é possível não depois de sua chegada ao poder, não depois de cinco, dez ou vinte anos de seu domínio, mas agora, nas condições dadas, nos próximos meses e semanas.
Thälmann considera inevitável a vitória do fascismo
Para alcançar a vitória, é necessária uma política correta. Ou seja, precisamos de uma política adequada à situação atual, à atual relação de forças, e não a uma situação que talvez se desenvolva dentro de um, dois ou três anos, quando a questão do poder já estiver decidida há muito tempo.
Toda a desgraça está no fato de que a política do Comitê Central do Partido Comunista da Alemanha parte, em parte consciente e em parte inconscientemente, do reconhecimento da inevitabilidade de uma vitória fascista. De fato, no apelo pela “Frente Única Vermelha” publicado em 29 de novembro de 1931 [13], o Comitê Central do Partido Comunista da Alemanha parte da ideia de que é impossível vencer o fascismo sem antes derrotar a social-democracia [14]. Essa mesma ideia Thälmann repete em todos os matizes possíveis em seu artigo. Essa ideia é correta? Em escala histórica, é incondicionalmente correta. Mas isso não significa de modo algum que, com sua ajuda, isto é, por simples repetição, se possam resolver as questões do dia. Uma ideia correta do ponto de vista da estratégia revolucionária em seu conjunto converte-se numa mentira, e numa mentira reacionária, se não for traduzida para a linguagem da tática. É correto que, para acabar com o desemprego e a miséria, é preciso primeiro destruir o capitalismo? É correto. Mas só um tolo sem remédio tiraria daí a conclusão de que não temos de lutar desde já, com todas as nossas forças, contra as medidas com as quais o capitalismo aumenta a miséria dos operários.
Podemos esperar que o Partido Comunista, no decorrer dos próximos meses, derrote ao mesmo tempo a social-democracia e o fascismo? Nenhuma pessoa de raciocínio normal, que saiba ler e fazer contas, se arriscaria a tal afirmação. Politicamente, a questão se coloca da seguinte maneira: podemos repelir com êxito o fascismo no decorrer dos próximos meses, isto é, com a existência de uma social-democracia muito reduzida, mas ainda (infelizmente) muito forte? O Comitê Central responde negativamente. Em outras palavras, Thälmann considera inevitável a vitória do fascismo.
Mais uma vez: a experiência russa
Para expressar meu pensamento da forma mais clara e concreta possível, voltarei mais uma vez à experiência do levante de Kornilov [15]. Em 26 de agosto de 1917 (calendário antigo) [16], o general Kornilov conduziu suas tropas cossacas e uma divisão irregular contra Petrogrado [17]. No leme do poder estava então Kerenski [18], lacaio da burguesia e aliado de Kornilov em três quartos. Lênin ainda estava escondido por causa da acusação de estar a serviço dos Hohenzollern [19]. Sob a mesma acusação, eu estava naquele momento encarcerado em solitária na prisão de Kresty [20]. Como procederam os bolcheviques nessa questão? Eles também tinham o direito de dizer: “Para derrotar a kornilovada, temos primeiro de derrotar a kerenskiada”. Disseram isso mais de uma vez, pois era correto e necessário para toda a propaganda posterior. Mas isso não era motivo suficiente para deixar de resistir a Kornilov em 26 de agosto e nos dias seguintes e de impedir que ele massacrasse o proletariado de Petrogrado. Por isso, os bolcheviques não se contentaram com um apelo geral aos operários e soldados para que rompessem com os conciliadores e apoiassem a frente única vermelha dos bolcheviques. Não: os bolcheviques propuseram a luta em frente única aos mencheviques e aos socialistas-revolucionários [21] e criaram junto com eles organizações comuns de luta. Isso foi correto ou incorreto? Que Thälmann me responda a essa pergunta. Para mostrar de forma ainda mais nítida como estavam as coisas com a frente única, citarei o seguinte episódio: imediatamente após ser libertado da solitária, depois que os sindicatos pagaram minha fiança, fui direto ao Comitê de Defesa Nacional [22], onde discuti e votei decisões sobre a luta contra Kornilov com o menchevique Dan e o socialista-revolucionário Gots [23], aliados de Kerenski, que me havia aprisionado. Isso foi correto ou errado? Que Remmele [24] me responda a essa pergunta.
Brüning é o “mal menor”?
A social-democracia apoia Brüning [25], vota nele, assume a responsabilidade por ele diante das massas — com base em que o governo Brüning é o “mal menor”. A Rote Fahne [26] tenta atribuir a mim a mesma posição — com base em que me manifestei contra a participação estúpida e vergonhosa dos comunistas no referendo de Hitler [27]. Mas por acaso a Oposição de Esquerda alemã [28], e eu em particular, exigimos que os comunistas votassem em Brüning e o apoiassem? Nós, marxistas, consideramos Brüning e Hitler, juntamente com Braun [29], partes integrantes de um único e mesmo sistema. A pergunta sobre qual deles é o “mal menor” não tem sentido, pois o sistema contra o qual lutamos precisa de todos esses elementos. Mas esses elementos estão momentaneamente envolvidos em conflitos uns com os outros, e o partido do proletariado deve aproveitar esses conflitos no interesse da revolução.
Há sete notas na escala musical. A pergunta sobre qual dessas notas é “melhor” — dó, ré ou sol — não tem sentido. Mas o músico precisa saber quando tocar e quais teclas tocar. A pergunta abstrata sobre quem é o mal menor — Brüning ou Hitler — é igualmente sem sentido. É preciso saber qual dessas teclas tocar. Está claro? Para os de raciocínio fraco, citemos outro exemplo. Quando um dos meus inimigos me serve diariamente pequenas porções de veneno e o outro está prestes a me dar um tiro, primeiro arranco o revólver da mão do segundo inimigo, pois isso me dá a oportunidade de me livrar do primeiro. Mas isso não significa de modo algum que o veneno seja um “mal menor” em comparação com o revólver.
A desgraça consiste precisamente em que os dirigentes do Partido Comunista alemão se colocaram no mesmo terreno da social-democracia, apenas com os sinais invertidos: a social-democracia vota em Brüning, reconhecendo nele o mal menor. Os comunistas, por outro lado, que se recusam a ter qualquer confiança em Braun ou em Brüning (e essa é a maneira absolutamente correta de agir), vão no entanto às ruas apoiar o referendo de Hitler, isto é, a tentativa dos fascistas de derrubar Brüning. Mas, com isso, eles próprios reconheceram em Hitler o mal menor, pois a vitória do referendo não teria levado ao poder o proletariado, mas Hitler. É doloroso, sem dúvida, ter de discutir questões tão elementares. É triste, muito triste, quando músicos como Remmele, em vez de distinguir as teclas, pisoteiam o teclado com as botas.
Não se trata dos operários que já deixaram a social-democracia, mas dos que ainda permanecem nela
Os milhares e milhares de Noskes, Weiss e Hilferdings [30] preferem, em última instância, o fascismo ao comunismo. Mas, para isso, precisam romper de uma vez por todas com os operários. Hoje, ainda não é o caso. Hoje, a social-democracia como um todo, com todos os seus antagonismos internos, é forçada a entrar em conflitos agudos com os fascistas. Nossa tarefa consiste em aproveitar esses conflitos, e não em unir os antagonistas contra nós.
No momento atual, a frente deve ser dirigida contra o fascismo. E essa frente comum de luta direta contra o fascismo, envolvendo todo o proletariado, deve ser utilizada nos ataques de flanco contra a social-democracia, que nem por isso são menos eficazes.
É necessário, de fato, mostrar total disposição para fazer um bloco com os social-democratas contra os fascistas em todos os casos em que eles aceitarem um bloco. Dizer aos operários social-democratas “abandonem seus dirigentes e venham para a nossa frente única ‘apartidária’” significa acrescentar só mais uma frase oca a outras mil. É preciso saber arrancar, na realidade, os operários de seus dirigentes. E a realidade hoje é a luta contra o fascismo. Há e sem dúvida haverá operários social-democratas dispostos a lutar lado a lado com os operários comunistas contra os fascistas, independentemente da vontade ou até contra a vontade das organizações social-democratas. Com esses elementos avançados é obviamente necessário estabelecer o contato mais estreito possível. No momento, porém, eles não são numerosos. O operário alemão foi educado no espírito da organização e da disciplina. Isso tem seus lados fortes e também seus lados fracos. A esmagadora maioria dos operários social-democratas lutará contra os fascistas, mas — pelo menos por enquanto — apenas junto com suas organizações. Essa etapa não pode ser pulada. Devemos ajudar os operários social-democratas, por meio de atos, nesta situação nova e extraordinária, a pôr à prova o valor de suas organizações e de seus dirigentes neste momento, em que está em jogo a vida ou a morte da classe operária.
Devemos forçar a social-democracia a um bloco contra os fascistas
A desgraça é que, no Comitê Central do Partido Comunista, há muitos oportunistas assustados. Ouviram dizer que o oportunismo consiste no amor pelos blocos, e é por isso que são contra os blocos. Não entendem a diferença entre, digamos, um acordo parlamentar e um acordo, por mais modesto que seja, para a luta numa greve ou para a defesa das gráficas operárias contra os bandos fascistas.
Acordos eleitorais e compromissos parlamentares concluídos entre o partido revolucionário e a social-democracia servem, em regra, à social-democracia. Acordos práticos para a ação de massas, para fins de luta, são sempre úteis ao partido revolucionário. O Comitê Anglo-Russo [31] foi um tipo inadmissível de bloco entre duas direções sobre uma plataforma política comum, vaga, enganosa, que não obrigava ninguém a nenhuma ação. A manutenção desse bloco na época da greve geral, quando o Conselho Geral assumiu o papel de fura-greve, significou, da parte dos stalinistas, uma política de traição.
Nenhuma plataforma comum com a social-democracia ou com os dirigentes dos sindicatos alemães, nenhuma publicação, bandeira ou cartaz comum! Marchar separados, golpear juntos! Combinar apenas como golpear, quem golpear e quando golpear! Um acordo assim pode ser feito até com o próprio diabo, com a avó dele e até com Noske e Grzesinski [32]. Com uma condição: não amarrar as próprias mãos.
É preciso, sem demora, elaborar finalmente um sistema prático de medidas — não com o objetivo de simplesmente “desmascarar” a social-democracia (diante dos comunistas), mas com o objetivo da luta efetiva contra o fascismo. Esse programa deve tratar das organizações de defesa das fábricas, da atividade desimpedida dos conselhos de fábrica [33], da inviolabilidade das organizações e instituições operárias, dos arsenais que podem ser tomados pelos fascistas, das medidas em caso de emergência, isto é, da coordenação das ações das divisões comunistas e social-democratas na luta etc. etc.
Na luta contra o fascismo, os conselhos de fábrica ocupam uma posição de enorme importância. Aqui é necessário um programa de ação particularmente preciso. Cada fábrica deve se tornar um baluarte antifascista, com seus próprios comandantes e seus próprios batalhões. É preciso ter um mapa dos depósitos de armas fascistas e de todos os demais redutos fascistas em cada cidade e em cada distrito. Os fascistas tentam cercar as fortalezas revolucionárias. Os cercadores devem ser cercados! Sobre essa base, um pacto com as organizações social-democratas e sindicais não é apenas permitido, mas um dever. Rejeitá-lo por razões “de princípio” (na realidade, por estupidez burocrática ou, o que é ainda pior, por covardia) é prestar ajuda direta e imediata ao fascismo.
Um programa prático de acordos com os operários social-democratas foi proposto por nós já em setembro de 1930 (A virada na Internacional Comunista e a situação na Alemanha [34], publicado pelo Militant), isto é, há um ano e três meses. O que a direção empreendeu nesse sentido? Quase nada. O Comitê Central do Partido Comunista se ocupou de tudo, exceto daquilo que constitui suas tarefas diretas. Quanto tempo valioso e irrecuperável foi perdido! Na verdade, não resta muito tempo. O programa de ação deve ser estritamente prático, estritamente objetivo, direto ao ponto, sem nenhuma dessas “exigências” artificiais, sem segundas intenções, de modo que cada operário social-democrata médio possa dizer a si mesmo: o que os comunistas propõem é absolutamente indispensável na luta contra o fascismo. Sobre essa condição básica, é possível arrastar conosco os operários social-democratas pelo nosso exemplo e criticar seus dirigentes, que inevitavelmente servirão de freio e obstáculo. Só assim a vitória é possível.
Uma boa citação de Lênin
Os epígonos de hoje, isto é, os péssimos discípulos de Lênin, gostam de preencher suas lacunas, em toda ocasião que se apresenta, com citações — muitas vezes inteiramente fora de propósito. Para os marxistas, a questão não se decide por uma citação, mas por meio de um método correto. Quando se é guiado por métodos corretos, não é difícil encontrar também as citações adequadas. Depois de traçar a analogia acima com a insurreição de Kornilov, disse a mim mesmo: provavelmente encontraremos em Lênin uma explicação teórica para nosso bloco com os conciliadores na luta contra Kornilov. E, de fato, eis o que encontrei na segunda parte do volume XIV da edição russa, numa carta de Lênin ao Comitê Central escrita no início de setembro de 1917 [35]:
“Mesmo agora, não é nosso dever apoiar o governo Kerenski. Isso seria uma falta de princípios. Alguém perguntou: então não devemos lutar contra Kornilov? Naturalmente, devemos. Mas não é a mesma coisa. Há um limite. Ele está sendo ultrapassado por muitos bolcheviques que caem no ‘conciliacionismo’ e se deixam arrastar pela corrente dos acontecimentos.
Lutaremos, lutamos contra Kornilov, mas não apoiamos Kerenski; expomos suas fraquezas. A distinção é muito sutil, mas importantíssima, e não deve ser esquecida.
Em que consiste a mudança de nossa tática depois da insurreição de Kornilov?
Em que mudam as formas da luta contra Kerenski. Sem diminuir em uma nota sequer nossa hostilidade contra ele, sem retirar uma só palavra do que dissemos contra ele, sem renunciar à tarefa de derrubar Kerenski, dizemos: é preciso calcular o momento; não derrubaremos Kerenski agora. Abordamos de outra maneira a questão da luta contra ele, a saber: explicando diante do povo (que luta contra Kornilov) as fraquezas e vacilações de Kerenski.”
Não propomos nada diferente disso: completa independência das organizações e da imprensa comunistas, completa liberdade de crítica comunista, e o mesmo para a social-democracia e os sindicatos. Permitir que a liberdade do Partido Comunista seja limitada (por exemplo, à maneira da entrada no Kuomintang [36]) é coisa de que só são capazes oportunistas desprezíveis. Nosso lugar não é entre eles.
Nada há a retirar de nossa crítica à social-democracia. Nada a esquecer de tudo o que aconteceu. Toda a conta histórica, inclusive a conta por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo [37], será apresentada no devido tempo, assim como nós, bolcheviques russos, também a apresentamos finalmente aos mencheviques e socialistas-revolucionários, como acerto geral de contas pela perseguição, pela calúnia, pelo encarceramento e pelos assassinatos praticados contra operários, soldados e camponeses.
Mas apresentamos a eles o acerto geral de contas meses depois de termos aproveitado o acerto parcial de contas entre Kerenski e Kornilov, entre os “democratas” e os fascistas — e isso para repelir os fascistas com tanto mais segurança. Só graças a essa circunstância pudemos vencer.

Quando o Comitê Central do Partido Comunista da Alemanha adotar a posição expressa nas linhas de Lênin citadas acima, toda a abordagem das massas social-democratas e das organizações sindicais mudará de um só golpe: em vez dos artigos e discursos que só convencem os que já estão convencidos sem eles, os agitadores encontrarão uma linguagem comum com novas centenas de milhares e milhões de operários. A diferenciação dentro da social-democracia avançará em ritmo acelerado. Os fascistas logo começarão a sentir que sua tarefa não consiste apenas em derrotar Brüning, Braun e Wels [38], mas em travar a luta aberta contra toda a classe operária. Nesse plano, começará inevitavelmente uma profunda diferenciação dentro do próprio fascismo. Só por esse caminho a vitória é possível.
Mas é preciso desejar essa vitória. Enquanto isso, há entre os funcionários comunistas muitos carreiristas e burocratas covardes que se agarram com todo o apego a seus postinhos, a seus rendimentos e, mais ainda, à própria pele. Essas criaturas tendem a soltar frases ultrarradicais, sob as quais se esconde um fatalismo miserável e desprezível. “Sem uma vitória sobre a social-democracia, é impossível golpear o fascismo!”, dizem esses terríveis revolucionários, e por isso… vão preparando os seus passaportes.
Operários comunistas, vocês são centenas de milhares, milhões; não têm para onde ir; não há passaportes suficientes para vocês. Se o fascismo chegar ao poder, passará por cima de seus crânios e de suas espinhas como um tanque terrível. A salvação de vocês está numa luta implacável. E só a unidade na luta com os operários social-democratas pode trazer a vitória. Apressem-se, operários comunistas, resta-lhes muito pouco tempo.
Kadıköy, 8 de dezembro de 1931 [39]
L. Trótski
Notas
1. Partido Comunista da Alemanha (KPD, Kommunistische Partei Deutschlands): fundado em Berlim na virada de 1918 para 1919, a partir da Liga Espártaco de Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, em meio à Revolução Alemã. Em 1931 era o maior partido comunista fora da URSS e a seção alemã da Internacional Comunista, já submetida à direção de Stálin. Seu presidente era Ernst Thälmann. Foi esmagado pelos nazistas logo após o incêndio do Reichstag, em 27 de fevereiro de 1933.
2. Fascistas: Trótski chama assim o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), o partido nazista de Adolf Hitler. Para ele, o nazismo era a forma alemã do fascismo: um movimento de massas da pequena burguesia arruinada pela crise, que o grande capital mobilizava para destruir as organizações operárias.
3. Crescimento eleitoral: nas eleições para o Reichstag de 14 de setembro de 1930, os nazistas saltaram de 2,6% para 18,3% dos votos e de 12 para 107 deputados. O KPD subiu de 10,6% para 13,1% e de 54 para 77 deputados. O SPD caiu para 24,5%, mas continuou o maior partido.
4. “Juramento de legalidade”: em setembro de 1930, depondo como testemunha em Leipzig no processo contra três oficiais do Exército acusados de propaganda nazista nos quartéis, Hitler jurou que o partido chegaria ao poder apenas por meios legais — e acrescentou que, depois, cabeças rolariam.
5. Centro (Zentrum): o Partido do Centro Alemão, partido católico e um dos pilares da República de Weimar. Era o partido do chanceler Heinrich Brüning.
6. A coalizão que levou Hitler ao poder: a previsão se confirmou por outro arranjo. Em 30 de janeiro de 1933, o presidente Paul von Hindenburg nomeou Hitler chanceler à frente de uma coalizão com o Partido Popular Nacional Alemão (DNVP), da direita conservadora, e ministros sem partido; os nazistas tinham apenas três postos, entre eles o controle da polícia da Prússia, entregue a Hermann Göring. Em menos de dois meses, com o decreto de emergência após o incêndio do Reichstag (28 de fevereiro) e a Lei de Plenos Poderes (23 de março), aprovada com os votos do Centro, a ditadura estava instalada.
7. Hugo Urbahns (1890–1946): dirigente comunista de Hamburgo, integrou a direção “de esquerda” do KPD em 1924–1925, ao lado de Ruth Fischer e Arkadi Maslow. Expulso do partido em 1926, fundou em 1928 a Liga Lênin (Leninbund). A Oposição de Esquerda colaborou com o grupo até romper com ele em 1929–1930, por divergências sobre a natureza da URSS. Morreu exilado na Suécia.
8. Ernst Thälmann (1886–1944): estivador de Hamburgo, presidente do KPD a partir de 1925 e candidato do partido à Presidência da República em 1925 e 1932. Aplicou fielmente a linha de Stálin. Foi preso pelos nazistas em março de 1933, passou 11 anos no cárcere e foi fuzilado no campo de concentração de Buchenwald em agosto de 1944.
9. Internacional Comunista (Comintern ou III Internacional): fundada em Moscou em março de 1919, sob a direção de Lênin e Trótski, para reunir os partidos revolucionários do mundo. Depois da morte de Lênin, passou ao controle da burocracia stalinista. Em 1928 adotou a linha do “terceiro período”, segundo a qual o capitalismo vivia sua crise final e a social-democracia se transformara em “social-fascismo”. Stálin a dissolveu em 1943.
10. Nova Internacional: a derrota sem combate de 1933 levou Trótski à conclusão anunciada aqui. Em julho de 1933, diante da recusa da Internacional Comunista em fazer qualquer balanço da catástrofe alemã, ele passou a defender novos partidos e uma nova Internacional. A IV Internacional foi fundada em setembro de 1938, nos arredores de Paris.
11. Liquidacionistas: termo da história do bolchevismo. Designava os mencheviques que, depois da derrota da Revolução de 1905, propunham dissolver (“liquidar”) o partido clandestino e restringir a atividade aos limites tolerados pelo czarismo. Trótski aplica a palavra a quem dá a luta por perdida antes de travá-la.
12. Bolcheviques-leninistas e “trotskistas”: nome adotado pela Oposição de Esquerda, a corrente dirigida por Trótski contra a burocratização do Estado soviético e da Internacional Comunista. Surgiu na URSS em 1923. Trótski foi expulso do Partido Comunista da URSS em 1927, deportado para o Cazaquistão em 1928 e banido do país em 1929. Os stalinistas usavam “trotskismo” como acusação.
13. “Frente Única Vermelha”: o KPD só admitia a chamada frente única “pela base”, isto é, com operários social-democratas que rompessem com seus dirigentes e aceitassem a direção comunista. Recusava qualquer acordo com a direção do SPD e dos sindicatos. É essa fórmula que Trótski combate ao longo da carta.
14. Social-democracia: o Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD), cujas origens remontam a 1863 e 1875, o principal partido operário alemão e o maior da II Internacional. Controlava a maior central sindical do país. Votou os créditos de guerra em 1914, assumiu o governo na Revolução de 1918 e comandou, com o Exército e os Freikorps, a repressão aos levantes revolucionários de 1919. A Internacional Comunista o classificava como “social-fascismo”, tese que Trótski combate nesta carta.
15. Levante de Kornilov: tentativa de golpe militar contra os sovietes, em fins de agosto de 1917, dirigida pelo general Lavr Kornilov, comandante-em-chefe do Exército russo, com o apoio de setores da burguesia. Fracassou em poucos dias quase sem combate: ferroviários, telegrafistas e agitadores, sobretudo bolcheviques, paralisaram e desagregaram as tropas antes que chegassem à capital. A derrota do golpe impulsionou os bolcheviques, que conquistaram a maioria nos sovietes de Petrogrado e Moscou nas semanas seguintes e tomaram o poder em outubro.
16. Calendário antigo: até fevereiro de 1918, a Rússia usava o calendário juliano, 13 dias atrás do gregoriano. O dia 26 de agosto corresponde a 8 de setembro de 1917 no calendário atual.
17. Tropas de Kornilov: o 3º Corpo de Cavalaria, de cossacos, sob o general Aleksandr Krimov, e a chamada Divisão Nativa, ou “Divisão Selvagem”, formada por voluntários dos povos do Cáucaso.
18. Aleksandr Kerenski (1881–1970): advogado, ligado aos socialistas-revolucionários, ministro da Justiça e da Guerra e, a partir de julho de 1917, chefe do Governo Provisório formado após a Revolução de Fevereiro. Derrubado em outubro, morreu exilado nos Estados Unidos.
19. Hohenzollern: a dinastia que reinava na Alemanha. Depois das Jornadas de Julho de 1917, o Governo Provisório acusou Lênin e os bolcheviques de serem agentes pagos do Estado-Maior alemão e ordenou sua prisão. Lênin passou à clandestinidade, primeiro nos arredores de Petrogrado e depois na Finlândia.
20. Kresty: prisão de Petrogrado. Trótski foi preso em julho de 1917 e libertado sob fiança em 4 de setembro (17 de setembro no calendário atual), quando Kornilov já havia sido detido.
21. Mencheviques e socialistas-revolucionários: os mencheviques eram a ala moderada do Partido Operário Social-Democrata Russo, dividido com os bolcheviques desde 1903. Os socialistas-revolucionários (SR) eram o grande partido de base camponesa, herdeiro do populismo russo. Em 1917, ambos dirigiam os sovietes e participavam do governo de coalizão com a burguesia — por isso os bolcheviques os chamavam de “conciliadores”.
22. Comitê de Defesa Nacional: assim aparece na versão inglesa. Trata-se do Comitê de Luta contra a Contrarrevolução, criado pelo Comitê Executivo Central dos sovietes em 27 de agosto de 1917 (calendário antigo) para enfrentar o golpe, com representantes de mencheviques, socialistas-revolucionários e bolcheviques.
23. Dan e Gots: Fiódor Dan, dirigente menchevique, e Abram Gots, dirigente socialista-revolucionário, ambos da direção do Comitê Executivo Central dos sovietes em 1917.
24. Hermann Remmele (1880–1939): dirigente do KPD, membro do Birô Político e do Comitê Executivo da Internacional Comunista, um dos porta-vozes da tese do “social-fascismo”. Em outubro de 1931, no Reichstag, declarou que os comunistas não temiam a chegada dos fascistas ao poder, porque depois deles viria a vez dos comunistas. Exilado na URSS a partir de 1933, foi preso nos expurgos stalinistas e fuzilado em 1939.
25. Heinrich Brüning (1885–1970): dirigente do Centro e chanceler de março de 1930 a maio de 1932. Sem maioria no Reichstag, governou por decretos de emergência assinados pelo presidente Hindenburg com base no artigo 48 da Constituição de Weimar, cortando salários, seguro-desemprego e gastos sociais em plena crise. O SPD “tolerou” o governo — rejeitava as moções de censura — em nome do “mal menor”, para evitar novas eleições e o avanço nazista.
26. Die Rote Fahne (“A Bandeira Vermelha”): jornal central do KPD, fundado por Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo em novembro de 1918.
27. Referendo de Hitler: o plebiscito de 9 de agosto de 1931 para dissolver o Landtag (parlamento) da Prússia e derrubar o governo do social-democrata Otto Braun, sustentado pelo SPD e pelo Centro. Foi convocado pela organização paramilitar de veteranos Capacete de Aço (Stahlhelm), com o apoio dos nazistas e do DNVP. Por ordem da Internacional Comunista, o KPD aderiu e o rebatizou de “referendo vermelho”. Teve cerca de 37% dos votos e fracassou, pois precisava da maioria do eleitorado. O alvo direto era o governo prussiano, que Trótski trata como parte do mesmo sistema de Brüning. Ele criticou a adesão comunista no folheto Contra o nacional-comunismo, de agosto de 1931.
28. Oposição de Esquerda alemã: a seção alemã da Oposição de Esquerda internacional (os bolcheviques-leninistas), um grupo pequeno formado por comunistas expulsos do KPD ou em ruptura com sua direção.
29. Otto Braun (1872–1955): dirigente do SPD e primeiro-ministro da Prússia, o maior estado alemão, quase sem interrupção de 1920 a 1932. Foi deposto em 20 de julho de 1932 por um decreto do chanceler Franz von Papen, que entregou a Prússia a um comissário federal. O SPD não ofereceu resistência.
30. Noske, Weiss e Hilferding: Gustav Noske (1868–1946), dirigente do SPD e ministro da Defesa em 1919–1920, comandou a repressão à insurreição de janeiro de 1919 em Berlim com o Exército e os Freikorps, milícias de extrema direita; ele mesmo se definiu como o “cão sanguinário” do governo. Bernhard Weiss (1880–1951), vice-presidente da polícia de Berlim, do Partido Democrático Alemão, aliado do SPD no governo prussiano. Rudolf Hilferding (1877–1941), principal teórico econômico do SPD, autor de O capital financeiro (1910) e ministro das Finanças em 1923 e em 1928–1929; morreu em Paris sob custódia da Gestapo.
31. Comitê Anglo-Russo: comitê criado em 1925 entre os sindicatos soviéticos e o Conselho Geral do Congresso dos Sindicatos britânico (TUC). Em maio de 1926, o Conselho Geral suspendeu depois de nove dias a greve geral em apoio aos mineiros e os deixou isolados. A direção stalinista manteve o comitê até setembro de 1927, quando os próprios britânicos o romperam. A Oposição de Esquerda exigia a ruptura imediata.
32. Albert Grzesinski (1879–1947): dirigente do SPD, ministro do Interior da Prússia (1926–1930) e chefe de polícia de Berlim (1930–1932). Como ministro, sustentou a proibição das manifestações de rua que resultou no “Maio Sangrento” de 1929, quando a polícia de Berlim matou mais de 30 pessoas.
33. Conselhos de fábrica (Betriebsräte): comissões eleitas pelos trabalhadores nas empresas, instituídas por lei em 1920 como versão domesticada dos conselhos operários da Revolução de 1918.
34. A virada na Internacional Comunista e a situação na Alemanha: texto de Trótski de 26 de setembro de 1930, escrito logo depois do salto eleitoral nazista, em que propõe pela primeira vez a frente única operária contra o fascismo.
35. Carta de Lênin: dirigida ao Comitê Central do Partido Operário Social-Democrata Russo (bolchevique) e datada de 30 de agosto de 1917 (12 de setembro no calendário atual). Lênin a escreveu na clandestinidade, na Finlândia.
36. Kuomintang (Partido Nacionalista Chinês): por orientação da Internacional Comunista, os membros do Partido Comunista Chinês ingressaram no Kuomintang a partir de 1923–1924, submetendo-se à sua disciplina. Em abril de 1927, Chiang Kai-shek, chefe do Kuomintang, voltou-se contra os comunistas e massacrou milhares de operários em Xangai, esmagando a Revolução Chinesa de 1925–1927.
37. Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo: fundadores da Liga Espártaco e do KPD, assassinados em Berlim em 15 de janeiro de 1919 por oficiais dos Freikorps, durante a repressão à insurreição de janeiro conduzida pelo governo social-democrata de Friedrich Ebert e Gustav Noske.
38. Otto Wels (1873–1939): presidente do SPD de 1919 até a morte, no exílio. Em 23 de março de 1933, discursou no Reichstag contra a Lei de Plenos Poderes de Hitler.
39. Kadıköy: bairro da margem asiática de Istambul. Expulso da URSS em fevereiro de 1929, Trótski viveu exilado na Turquia até julho de 1933, a maior parte do tempo na ilha de Prinkipo (Büyükada), no Mar de Mármara. Depois de um incêndio em sua casa na ilha, em março de 1931, mudou-se provisoriamente para Kadıköy.

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