O governo Lula está permitindo a retomada da compra de obuseiros da Elbit Systems, empresa israelense que abastece as forças responsáveis pelo genocídio em Gaza. A contratação, suspensa em 2024 por representar financiamento à indústria militar sionista, avançou depois que a Avibras, ligada aos irmãos Joesley e Wesley Batista, entrou no negócio. O primeiro contrato deverá ser assinado em 27/10, dois dias depois do segundo turno da eleição presidencial.
Segundo reportagem de Marcelo Godoy e Luiz Vassallo, publicada pelo Estadão em 19/10, o programa prevê a aquisição de 36 obuseiros Atmos 2000, de calibre 155 milímetros, montados sobre viaturas. O valor estimado é de R$ 800 milhões. A cerimônia ocorreu ontem no Comando Logístico do Exército, em Brasília.
A contratação inicial abrangerá duas unidades. As outras 34 dependerão de um segundo contrato, previsto para 2027, após a avaliação das contrapartidas industriais, da manutenção, da integração com os sistemas de artilharia e de nova comprovação de preço. A aquisição foi dividida em etapas, mas desde o início contempla o conjunto dos 36 equipamentos.
A participação da Avibras foi acertada em um memorando com a AEL Sistemas, subsidiária brasileira da Elbit. A fábrica de Jacareí, no interior paulista, deverá montar as primeiras unidades e produzir as restantes. A munição ficará a cargo da Imbel. O acordo mantém a empresa israelense como fornecedora e acrescenta uma sócia brasileira à operação.
A proposta chegou ao Comando Logístico no fim de agosto. Conforme o Estadão, os militares entenderam que poderiam incorporar a Avibras sem alterar as condições aprovadas em 2024, pois a seleção já previa uma parceria nacional, sem determinar qual seria a empresa. A dificuldade política foi contornada por uma associação comercial.
Os interesses na Avibras
O ministro da Defesa, José Múcio, o deputado Carlos Zarattini (PT-SP), os comandantes das Forças Armadas e os Batista participaram das articulações para recuperar a Avibras. A empresa enfrentava recuperação judicial e salários atrasados. A retomada de suas atividades interessava aos trabalhadores e à preservação da capacidade industrial brasileira. O governo, porém, além de não tomar para si a empresa, que nasceu estatal, entregando-a aos capitalistas, associou essa necessidade de recuperação aos negócios com o sionismo.
A reportagem aponta o crescimento da procura internacional por armas como um atrativo para os investidores. Guerras, recomposição de arsenais e encomendas de foguetes, mísseis e outros equipamentos ampliaram as perspectivas de venda da Avibras. Os Batista passaram a disputar os lucros de um setor alimentado pela expansão dos conflitos militares, mais precisamente das agressões militares do imperialismo.
A empresa já tinha recebido uma encomenda do Exército de R$ 300 milhões para mísseis e foguetes, segundo o jornal. A fabricação dos obuseiros israelenses acrescentaria outro contrato à recuperação de seus negócios. O argumento da defesa da indústria nacional encobre, assim, uma concessão à Elbit: para preservar uma fábrica brasileira, o governo aceita contratar uma fornecedora do Exército que massacra os palestinos. Isso não é defesa da soberania nacional, mas sim subordinação.
Nada na entrada da Avibras resolve o motivo do veto de 2024. A montagem em Jacareí não rompe os vínculos da AEL com sua controladora israelense. Apenas permite que capitalistas brasileiros também participem dos ganhos.
O governo sabia o que estava impedindo
A compra era estudada pelo Exército desde 2022. Em 2024, a escolha da Elbit provocou resistência dentro do governo e entre organizações de solidariedade à Palestina. A assinatura foi adiada em maio. Celso Amorim, assessor especial da Presidência, contestou a cooperação militar com o governo responsável pela destruição de Gaza.
Em agosto daquele ano, Amorim declarou: “Esse aspecto político-diplomático é muito importante. Um componente a ser avaliado. Não é somente preço ou tecnologia”. A afirmação respondia à tentativa de reduzir a compra a uma comparação entre equipamentos, como se a origem do armamento e o destino dos recursos fossem irrelevantes.
Lula também denunciava as ações israelenses. Na Assembleia Geral da ONU, em 24/09/2024, afirmou: “O direito de defesa transformou-se no direito de vingança, que impede um acordo para a liberação de reféns e adia o cessar-fogo”. Enquanto o presidente criticava “Israel”, seu ministro da Defesa pressionava pela contratação da Elbit.
No PT, ocorreram manifestações contra os acordos militares. Em nota de 22/02/2024, publicada no portal do partido, o Setorial Nacional de Segurança Pública defendeu o fim das parcerias de segurança e defesa e declarou que “repudia veementemente a ação genocida de Israel contra o povo palestino”. O documento relacionava a solidariedade à Palestina à defesa da soberania brasileira.
O veto demonstrou que o governo podia impedir a contratação. Não faltavam advertências sobre suas consequências, nem desconhecimento a respeito da atuação israelense. Lula poderia manter a decisão. Preferiu permitir que as negociações prosseguissem até que os militares e empresários encontrassem uma fórmula para viabilizar a compra.
Múcio, capacho do sionismo
José Múcio se empenhou em remover o bloqueio. Em setembro de 2024, classificou as objeções como políticas e ideológicas e procurou diminuir a importância financeira do negócio. “Precisava provar que foi o dinheiro dos obuseiros que financiou aquela guerra. Dois obuseiros não movimentam absolutamente nada”, declarou.
O ministro sabia que as duas unidades eram a primeira etapa de uma encomenda maior. Sua exigência de identificar o dinheiro brasileiro em cada ataque contra Gaza servia para negar uma relação evidente: contratos sustentam as receitas, as instalações e a produção dos fabricantes de armas. Ao comprar da Elbit, o Brasil contribui para a manutenção dessa indústria.
Em outubro de 2024, Múcio voltou a reclamar da suspensão diante da Confederação Nacional da Indústria. Lula o protegeu. Em entrevista à rádio O Povo/CBN, no dia 11, contou ter tranquilizado o ministro após a repercussão de suas declarações e garantiu: “Isso não abalou nada a permanência dele no Ministério da Defesa”.
A submissão de Múcio ao imperialismo apareceria novamente em agosto de 2026. Ao comentar uma eventual invasão norte-americana, declarou: “Temos que abrir o portão. O Brasil não tem equipamento para enfrentá-lo, nem tem dinheiro para consertar o portão”. O homem encarregado da Defesa anunciou que aceitaria a entrada das tropas agressoras.
Seu apoio ao sionismo se traduz em negociações para garantir uma encomenda brasileira à indústria militar israelense. É a atuação de um capacho do imperialismo, mantido no governo por Lula mesmo depois de atacar publicamente a suspensão do contrato.
Gaza continua sob ataque
A própria Elbit informa como abastece as Forças Armadas israelenses. Em comunicado de 27/01/2026, anunciou uma encomenda de aproximadamente US$ 183 milhões em munições aéreas pelo Ministério da Defesa de “Israel”. A companhia apresentou o negócio como parte da ampliação da capacidade industrial militar e do fortalecimento das forças israelenses.
O cerco de “Israel” a Gaza não terminou. O relatório humanitário da ONU de 15/10 registra ataques aéreos, tiros de artilharia, disparos, incursões e demolições. Segundo os dados do Ministério da Saúde de Gaza reproduzidos no documento, 57 palestinos foram mortos e 319 ficaram feridos entre 29/09 e 12/10. O controle militar permanece, acompanhado de novas ameaças de expulsão.
Cerca de 8.600 conjuntos de abrigo de emergência continuavam impedidos de entrar por decisão das autoridades israelenses. Na Cisjordânia, cinco palestinos foram mortos e mais de 240 ficaram feridos pelas forças israelenses ou por colonos em duas semanas. Os anúncios de cessar-fogo não acabaram com os assassinatos nem com a destruição das condições de sobrevivência da população.
“Israel” também bombardeou o Irã, invadiu o Líbano, mantém forças em território libanês e bombardeia a Síria. As Nações Unidas documentam ataques e incursões no Líbano e a expansão da ocupação no sul sírio. A empresa escolhida pelo governo brasileiro integra a indústria que abastece essa ofensiva regional.
A compra é uma traição ao povo palestino. O governo brasileiro se dispõe a financiar uma fabricante de armas cuja relação com as forças de ocupação é pública, conhecida e defendida pela própria companhia. A condenação diplomática dos crimes perde força quando vem acompanhada de uma encomenda à indústria que os torna possíveis.
Depois da votação
Segundo o Estadão, o Estado-Maior escolheu assinar depois do segundo turno para evitar a exploração política do acordo. AEL e Avibras não quiseram se manifestar oficialmente. A reportagem relaciona essa cautela ao risco de o negócio ser visto como outra mudança de posição de Lula ou como favorecimento aos Batista.
O governo atende aos militares e aos empresários, favorece a indústria de um aliado do imperialismo norte-americano e procura evitar que a concessão prejudique sua campanha pela reeleição. A preocupação eleitoral ajuda a explicar a data da cerimônia, mas não absolve Lula: a contratação foi preparada sob seu governo, após o abandono da resistência que a impediu em 2024.
Os interessados já negociaram a participação da Avibras, obtiveram o aval do Comando Logístico e marcaram a assinatura. A decisão foi encaminhada antes da votação; sua formalização ficou para quando o eleitor já não pudesse cobrar essa mudança nas eleições.





