PIG

Reinaldo Azevedo: de porta-voz do golpe de 2016 a assalariado de Vorcaro

Inventor do termo “petralha”, o jornalista da Veja foi reciclado pela frente ampla, mas continua sendo um direitista a serviço dos banqueiros

O jornalista Reinaldo Azevedo confirmou que seu programa Reconversa recebeu R$ 700 mil de patrocínio ligado ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. Segundo o jornalista, o contrato firmado em março de 2024 com a empresa Super previa 12 parcelas de R$ 100 mil, mas somente sete foram pagas. O valor total contratado era de R$ 1,2 milhão.

Há um fato político por trás do contrato: o antigo colunista da Veja, que passou anos atacando Lula, Dilma e o PT, transformou-se em comentarista favorito de setores da esquerda. Seus ataques a Bolsonaro passaram a ser recebidos como credenciais democráticas. Todos fingiram se esquecer que ele próprio ajudou a organizar contra o governo petista.

O criador dos “petralhas”

Na Veja, Azevedo tornou-se um dos porta-vozes da direita golpista e entreguista. Popularizou “petralha”, expressão formada por PT e os Irmãos Metralha, personagens de histórias em quadrinhos conhecidos por tentar roubar o Tio Patinhas. A associação procurava converter qualquer militante petista em suspeito de corrupção, sem necessidade de denúncia individual.

Em agosto de 2016, reivindicou a autoria do insulto, que dizia usar havia 15 anos, e explicou que serviria para identificar quem justificasse roubo em nome de uma causa. Publicou O País dos Petralhas e O País dos Petralhas II. A palavra foi posteriormente adotada pelos bolsonaristas, herdeiros da agitação antipetista promovida por Azevedo e sua revista.

Também chamava Lula de “Apedeuta” e “Babalorixá de Banânia”. Em 2006, acusou o presidente de preferir pobres que não reclamassem. O desprezo por um dirigente operário que não possuía a formação escolar dos políticos tradicionais era componente permanente de sua atuação jornalística.

Os insultos vinham acompanhados de acusações. Em 4 de março de 2016, na Folha de S.Paulo, afirmou que o PT se transformara numa “organização criminosa” e atribuiu a Dilma “permanente desordem mental”.

Em abril de 2012, Rui Falcão, então presidente do PT, defendeu que a CPI do caso Cachoeira examinasse denúncias contra participantes da campanha do mensalão. Azevedo respondeu na Veja comparando Falcão a Joseph Goebbels, ministro da Propaganda nazista. Para o colunista, investigar os autores das acusações contra o PT era uma mentira organizada. A reação mostra como recebia as tentativas dos dirigentes petistas de enfrentar a campanha da imprensa.

Prisões do mensalão, Lava Jato e golpe de Estado

No julgamento do mensalão, Azevedo apoiou as condenações de José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares. Em novembro de 2013, diante das denúncias de perseguição política, publicou: “Ditaduras têm ‘presos políticos’; as democracias têm é ‘políticos presos’!”. A coluna justificava as prisões e atacava quem questionava o STF. Para ele, a sentença encerrava a discussão sobre o caráter político das punições.

Paulo Vannuchi, antigo ministro dos Direitos Humanos, afirmara que os dirigentes cumpririam as decisões judiciais, mas continuariam sustentando que haviam sido “condenados sem provas”. Também pediu que o rigor aplicado aos petistas fosse estendido aos empresários. Azevedo chamou sua crítica de “asquerosa”.

Reeleita em outubro de 2014 com mais de 54 milhões de votos, Dilma passou a enfrentar uma ofensiva parlamentar e do Partido da Imprensa Golpista (PIG). Em dezembro daquele ano, Azevedo reivindicou ter associado o nome da presidenta ao impeachment logo após o resultado eleitoral. O jornalista não se limitava a comentar denúncias da Petrobrás: trabalhava pelo golpe.

Em fevereiro de 2016, lançou a palavra de ordem “Ou você vai, ou ela fica”, para convocar atos pelo impeachment. Em 2018, reconheceu que a frase fora adotada pelos movimentos de rua. Na coluna Dilma: da política à polícia, de 4 de março de 2016, escreveu: “Não vai ter golpe. Vai ter impeachment”. Era uma ironia aos que combatiam o golpe e denunciavam o golpe pelo que ele era: um golpe de Estado.

Finalmente Dilma foi derrubada pelo PSDB, MDB, Rede Globo e Reinaldo Azevedo. A presidenta denunciou o golpe e afirmou que não praticara crime capaz de justificar a perda do mandato. Azevedo atacou seus argumentos e comemorou os coxinhatos do MBL, que incluiu em seu balanço de dezembro de 2016.

A ofensiva prosseguiu com a Lava Jato. Em 2016, ao comentar as acusações apresentadas pelo Ministério Público contra Lula, Azevedo chegou a escrever que o ex-presidente seria o centro do petrolão e que considerava demonstrada sua responsabilidade em corrupção passiva. Eram afirmações feitas antes do desfecho judicial.

Porém, em 2017 ele próprio foi vítima da Lava Jato, com o grampo de uma conversa com Andrea Neves, irmã de Aécio Neves. Então, de forma quase abrupta, passou a sustentar que faltavam provas para condenar Lula no caso do tríplex e, em 2018, rejeitou sua prisão antes do trânsito em julgado. Escreveu que a Constituição não deveria ser violada para prender ninguém, mas continuou justificando o impeachment de Dilma.

O golpista reciclado e o patrocinador milionário

A direita tradicional derrubou Dilma, mas sua vitória criou um problema: o governo Temer aplicou um programa de ataques aos trabalhadores e tornou-se profundamente impopular. O PSDB perdeu força, enquanto o antipetismo alimentado por Reinaldo Azevedo favoreceu a ascensão de Bolsonaro. Em 2018, o antigo deputado venceu a Presidência com Lula impedido de concorrer.

Os antigos defensores do impeachment procuraram então reconstruir sua imagem, apresentando-se como democratas e opositores do autoritarismo bolsonarista. Bolsonaro não era o governo ideal para aqueles que deram o golpe. Eles precisavam retomar o governo. Para isso, precisavam ganhar o apoio da esquerda, obviamente sem deixarem de ser golpistas.

Azevedo aproveitou esse movimento. Suas denúncias contra a Lava Jato e Bolsonaro abriram espaço em programas frequentados pelo público petista. Breno Altman recebeu o antigo colunista da Veja, em fevereiro de 2021, no 20 Minutos, apresentando-o como um “liberal com estilo bolchevique”. O mesmo comentarista que ajudara a consagrar “petralha” passou a ser ouvido como um aliado confiável. Seu programa também recebeu Guilherme Boulos, e ele entrevistou Lula.

O Diário Causa Operária tratou do assunto em março de 2021, no artigo Reinaldo Azevedo, o bolchevique?, denunciando a reabilitação de representantes da direita golpista por setores favoráveis à frente ampla. Em maio de 2023, voltou ao tema no artigo O “legalismo” chave de cadeia de Reinaldo Azevedo, após o comentarista comemorar a cassação de Deltan Dallagnol. A crítica do jornal era à conveniência política de invocar a lei para punir adversários, mesmo quando a própria lei era contestada pelo jornalista.

O mesmo expediente apareceu na política partidária. Geraldo Alckmin, ex-candidato presidencial do PSDB, tornou-se vice de Lula. Marina Silva retornou ao ministério e Simone Tebet, do MDB, integrou o governo. A frente ampla devolveu prestígio a representantes da direita golpista. No jornalismo, Azevedo passou por processo semelhante: manteve suas ideias de direita e conquistou o público que antes insultava.

É nessa trajetória que aparecem as revelações sobre o Banco Master. O acordo ligado a Vorcaro foi firmado em março de 2024, quando Azevedo já havia concluído sua aproximação com parte da esquerda. Segundo sua nota à rádio TMC, o Banco Master patrocinava o Reconversa por meio da empresa Super. Foram pagas sete parcelas de R$ 100 mil. Ele declarou que os recursos haviam sido informados às autoridades fiscais, que não conversou com Vorcaro ou Fabiano Zettel e que jamais escreveu em defesa do banco.

A popularidade atual de Azevedo em setores da esquerda não nasceu de uma ruptura com a direita, mas da mudança de posição diante da Lava Jato e de Bolsonaro, mudança essa que foi feita pela própria burguesia. O mesmo homem que se orgulhou de convocar as manifestações para derrubar Dilma foi elevado à condição de conselheiro pelas vítimas do golpe. Os pagamentos ligados ao Master vieram anos depois dessa reabilitação, comprovando que Azevedo sempre esteve a serviço dos banqueiros.

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