A direção do PT e a esquerda pequeno-burguesa tratam a reeleição de Lula como se ela pudesse derrotar o fascismo, ainda que provisoriamente. Para isso, vale tudo no segundo turno. Na França, estudantes e trabalhadores enfrentam Macron sem esperar a próxima eleição: bloqueiam escolas, fazem greves e saem às ruas contra os cortes e a repressão. Estão lutando contra o governo dos capitalistas, não procurando uma maneira de governar com seus representantes.
Em 17/10, cerca de 800 mil pessoas participaram das manifestações francesas, segundo a Confederação Geral do Trabalho (CGT). O Ministério do Interior contou 550 mil. Os secundaristas, mobilizados desde setembro contra a falta de professores, a deterioração das escolas e o Parcoursup — sistema de seleção para as universidades — marcharam ao lado de trabalhadores que exigem salários e combatem a carestia. A CGT convocou uma nova jornada nacional de greve para 5/11.
O governo respondeu com a polícia. Até 13/10, a Justiça francesa registrara 7.950 casos de custódia policial desde o início dos protestos, 6.773 deles envolvendo menores de idade. São registros acumulados de detenções temporárias, não pessoas ainda encarceradas. Houve adolescentes mutilados por armas policiais. Aos jovens que exigem professores e escolas em condições de funcionar, Macron enviou agentes armados.
No Brasil, depois do primeiro turno, dirigentes de partidos de esquerda passaram a convocar militantes para percorrer bairros e locais de trabalho. A tarefa é virar votos para Lula contra Flávio Bolsonaro. Não chamam os trabalhadores a combater o arrocho, a se organizar para a luta cotidiana ou a enfrentar a violência policial. Querem que a militância salve uma candidatura a reboque de Geraldo Alckmin, da direita tradicional e dos banqueiros. No melhor dos casos, toda crítica a esses acordos deve esperar, dizem, porque a eleição seria uma questão de vida ou morte.
Para uma camada da burocracia petista, o resultado decide algo mais imediato: quem conservará ministérios, mandatos, assessorias, consultorias e cargos no Estado. São empregos e salários excelentes, muito diferentes dos que o governo oferece à maioria da população. Há ativistas sinceramente preocupados com o avanço da extrema direita. As direções usam essa preocupação para colocá-los a serviço da própria permanência no governo.
A campanha mostra o preço dessa escolha. Para conquistar votos à direita, o PT incorpora propostas que a esquerda deveria combater. Camilo Santana propôs reduzir a maioridade penal para 16 anos nos crimes hediondos. Lula também se declarou favorável à redução nesses casos. Ao mesmo tempo, a campanha oferece mais poder às polícias e mais prisões como resposta à violência. Diante da ofensiva contra o direito ao aborto, evita o confronto político com os conservadores.
Submeter adolescentes ao sistema penal dos adultos significa ampliar o poder da polícia, dos tribunais e dos presídios sobre os filhos dos trabalhadores. Quando Lula aceita a proposta, ajuda a tornar respeitável uma bandeira da direita. Flávio Bolsonaro pode então pedir punições ainda maiores. O PT anuncia que combaterá o fascismo enquanto ensina seus eleitores que as ideias fascistas são muito boas.
Mesmo que Lula vença, as concessões feitas para vencer continuarão de pé. Os representantes da direita terão seus postos no governo; os banqueiros cobrarão a política que lhes foi prometida. Aos trabalhadores, será pedido mais um sacrifício para impedir o retorno da extrema direita. É uma chantagem que se renova a cada eleição, enquanto as posições da esquerda cedem terreno.
Na França, o apoio eleitoral a Macron e seus aliados também foi apresentado como barreira contra Marine Le Pen. Não impediu o crescimento da extrema direita. O homem vendido como defensor da democracia agora corta verbas e manda a polícia contra estudantes. As manifestações atingem diretamente esse governo e mostram que há força para enfrentar os capitalistas sem fazer propaganda de suas ideias.
A França Insubmissa apoia a mobilização e denuncia a repressão. Isso não elimina suas limitações reformistas, mas a aproxima de uma juventude que já está em luta. Se sair fortalecida para as próximas eleições, será porque estudantes e trabalhadores mudaram a situação política antes de votar. A urna não organizou os bloqueios, não chamou as greves e não levou centenas de milhares às ruas.
É essa atividade que falta à esquerda brasileira. Enquanto seus dirigentes contam votos para preservar cargos e alianças, os franceses organizam a luta contra cortes, baixos salários e violência policial. A próxima greve, convocada para 5/11, dará continuidade ao confronto com Macron. Nenhum acordo eleitoral com os banqueiros poderia cumprir essa tarefa.





