Em artigo publicado no Brasil 247 no último sábado (17), intitulado A utopia tomou as ruas do Brasil, o jurista Jorge Folena procura apresentar as manifestações estudantis realizadas após o primeiro turno das eleições como o ressurgimento da esperança política no País. Para o articulista, a juventude teria encontrado na candidatura de Lula a possibilidade de construir um futuro melhor e enfrentar o fascismo.
O entusiasmo com a presença dos estudantes nas ruas seria perfeitamente justificável, não fosse a conclusão política extraída pelo autor. Folena identifica a disposição de luta da juventude com a campanha eleitoral de Lula e a transforma em uma demonstração de confiança no atual governo. A utopia anunciada no título de seu artigo termina, assim, reduzida à reeleição de um presidente submisso a banqueiros, empresários e representantes da direita tradicional.
O próprio texto contém essa contradição. Folena descreve as manifestações de Niterói e do Rio de Janeiro, destaca a participação de estudantes secundaristas e universitários e recorda suas reivindicações em defesa da educação pública e dos direitos democráticos. Em seguida, afirma que esses jovens “seguraram nas mãos do presidente Lula” para conduzi-lo a mais um mandato.
Por que a disposição de milhares de estudantes para enfrentar a direita deveria ser considerada uma manifestação de apoio à política executada pelo governo? Desde quando a juventude precisa entregar seu futuro aos dirigentes da frente ampla para combater o fascismo?
O que Folena apresenta como uma grande descoberta é, na realidade, uma velha operação política da esquerda pequeno-burguesa: aproveitar a mobilização popular para fortalecer uma candidatura e, passada a eleição, devolver os trabalhadores e estudantes à passividade.
A juventude que sai às ruas representa uma força social capaz de enfrentar a direita. Seu potencial reside precisamente na possibilidade de organizar um movimento independente, que não esteja submetido aos cálculos eleitorais dos dirigentes do PT. Folena, porém, pretende colocar essa força a serviço da continuidade do governo.
O problema se torna ainda mais evidente quando se examina o que Lula está defendendo nesta campanha.
Na quinta-feira (15), dois dias antes da publicação do artigo de Folena, o presidente declarou à TV Globo ser favorável à redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos. No mesmo dia, Camilo Santana, dirigente petista e coordenador da campanha presidencial, apresentou uma emenda com esse objetivo.
Trata-se de uma das bandeiras tradicionais da direita, destinada a ampliar o encarceramento da juventude pobre. Sob o pretexto de combater a criminalidade, o PT propõe entregar adolescentes de 16 e 17 anos ao sistema prisional dos adultos. A proposta foi apresentada no momento em que a direção petista procura conquistar eleitores conservadores para derrotar Flávio Bolsonaro.
Folena não dedica uma linha a essa questão. Seu artigo celebra a juventude que supostamente encontrou em Lula a esperança de um futuro melhor, mas ignora que o presidente acaba de aderir a uma política de endurecimento penal contra adolescentes.
Que espécie de utopia é essa? Os estudantes devem sair às ruas para defender a “democracia” enquanto o candidato apoiado pelo movimento propõe ampliar os poderes repressivos do Estado sobre os jovens pobres?
O caso revela o verdadeiro conteúdo da política eleitoral do PT. Diante do crescimento da direita, a direção petista não procura organizar os trabalhadores em torno de suas reivindicações. Prefere adotar parte do programa de seus adversários, na esperança de conquistar uma parcela do eleitorado conservador.
A mesma adaptação aparece na campanha organizada pelo deputado André Janones, que levou Lula e seus apoiadores a substituir o vermelho pelo verde e amarelo. O próprio Janones explicou que a iniciativa pretende atrair eleitores que não se identificam com a esquerda. O partido nascido das greves operárias procura, agora, esconder sua identificação com os trabalhadores para se tornar aceitável à classe média conservadora.
É esse o governo no qual Folena deposita as esperanças da juventude.
O articulista também denuncia os interesses do mercado financeiro e os ataques pretendidos pela direita contra os direitos sociais. Suas preocupações com a Previdência, o SUS e a Constituição de 1988 são utilizadas para justificar a necessidade de reeleger Lula.
Mas o que fez o atual governo diante desses mesmos interesses econômicos?
Lula manteve a reforma trabalhista aprovada sob Michel Temer e a reforma da Previdência de Jair Bolsonaro. Seu governo estabeleceu um arcabouço fiscal que subordina os gastos públicos a regras de contenção, preservando os interesses do capital financeiro. Em vez de enfrentar os banqueiros, procurou conquistar sua confiança.
Folena identifica corretamente o grande capital como inimigo dos trabalhadores. O que não explica é por que a aliança do PT com representantes desse mesmo capital deveria constituir uma alternativa para a população.
A contradição aparece também na defesa da “democracia”. O autor denuncia a ameaça de uma vitória bolsonarista, mas deixa de lado o fato de que o governo Lula foi construído em aliança com forças políticas que participaram do golpe de 2016.
Geraldo Alckmin, adversário histórico do PT e representante da direita tradicional, ocupa a Vice-Presidência da República. Simone Tebet, que votou pelo afastamento de Dilma Rousseff, integrou o governo. O PT procurou transformar parte dos responsáveis pela ofensiva golpista em garantidores da democracia.
Ao mesmo tempo, entregou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a tarefa de enfrentar o bolsonarismo. Em lugar de fortalecer a organização dos trabalhadores, a direção petista depositou suas esperanças nas instituições que participaram da perseguição judicial contra Lula e de sua exclusão da eleição de 2018.
O resultado dessa política ficou demonstrado no primeiro turno. Apesar de quatro anos de governo e de uma ampla coalizão com setores da burguesia, Lula terminou atrás de Flávio Bolsonaro. A direita não foi derrotada pela frente ampla. Pelo contrário, conseguiu ampliar sua presença parlamentar e disputar novamente a Presidência.
É diante desse fracasso que Folena apresenta as manifestações estudantis como uma espécie de salvação política.
A juventude não precisa de uma utopia que se encerre na urna eletrônica. Precisa de uma política que lhe permita enfrentar os responsáveis por sua exploração, pela violência policial e pela falta de perspectivas.
Transformar essa luta em propaganda pela reeleição de Lula não é uma demonstração de esperança. É uma tentativa de subordinar o movimento popular à preservação de um governo da burguesia.





