Em artigo publicado na Revista Movimento, na quinta-feira (15), sob o título A última palavra, Israel Dutra, dirigente do Movimento Esquerda Socialista (MES), corrente interna do PSOL, saiu em defesa de uma verdadeira cruzada eleitoral pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em um texto repleto de exaltações à mobilização da juventude e de apelos à unidade contra a extrema direita, Dutra deixa claro que o objetivo fundamental de sua política é transformar as manifestações populares em instrumentos da campanha petista.
A submissão eleitoral defendida pelo dirigente ganha contornos particularmente grotescos diante de um acontecimento ocorrido poucas horas depois da publicação do artigo. Durante entrevista à TV Globo, Lula declarou ser favorável à redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, assumindo uma das principais bandeiras da direita brasileira.
O MES, articulador “Bancada da Esquerda Radical”, mobiliza seus militantes para reeleger um presidente que acaba de defender uma medida historicamente combatida pela esquerda e que representa um ataque aos direitos democráticos da juventude.
Chega a ser irônico. Israel Dutra escreve páginas e mais páginas exaltando os jovens que saíram às ruas, mas o candidato para o qual pretende canalizar essa mobilização defende entregar adolescentes de 16 e 17 anos ao sistema penal dos adultos.
É esse o resultado da política da esquerda que se apresenta como revolucionária, mas que, na prática, não consegue enxergar um palmo além das necessidades eleitorais do PT.
O dirigente chega a estabelecer uma relação entre essas manifestações e os protestos da juventude em outros países, procurando dar à campanha eleitoral brasileira uma dimensão internacional.
Toda essa retórica, entretanto, desemboca em uma conclusão bastante limitada: a tarefa dos militantes é conquistar votos para Lula.
Dutra escreve que a energia social produzida pelas manifestações deve ser direcionada à possibilidade de vitória eleitoral. Recomenda que os ativistas procurem eleitores indecisos, convençam pessoas que não votaram no primeiro turno e ampliem a votação petista.
O partido que se reivindica socialista transforma a luta política numa operação de marketing eleitoral.
E o que recebe em troca? Uma candidatura que, diante do crescimento da direita, resolve incorporar parte de seu programa.
É preciso perguntar aos dirigentes do MES como essa posição se encaixa no suposto projeto de enfrentamento à extrema direita que Israel Dutra apresenta como justificativa para a campanha eleitoral.
Afinal, se o candidato do PT assume parte da política penal defendida por seus adversários, em nome de que programa essa esquerda está mobilizando seus militantes?





