Em nota publicada em 6 de outubro, intitulada Votar em Lula para derrotar Bolsonaro e organizar os trabalhadores para a luta de classes, o Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) decidiu apoiar Lula no segundo turno contra Flávio Bolsonaro. O documento tem 23 pontos. Em boa parte deles, acusa o governo petista de desmobilizar os trabalhadores, conservar os ataques capitalistas e fortalecer a extrema direita. Depois dessa exposição, anuncia que fará campanha eleitoral junto à frente ampla.
A declaração começa prometendo “absoluta independência política em relação à Frente Ampla”. Essa independência, porém, desaparece quando chega a hora de determinar a tarefa prática. No ponto 22, o Comitê Central anuncia que direcionará “todos os seus esforços” para construir “a campanha do segundo turno para a presidência em frente única junto à Frente Ampla”. A expressão não deixa dúvidas: trata-se de participar da campanha eleitoral do bloco dirigido pelo PT.
A contradição é ainda mais notável porque o diagnóstico apresentado pelo próprio PCBR é uma condenação da política que pretende apoiar nas urnas. O ponto 15 afirma:
“A Frente Ampla amarra seus rumos às necessidades de alguns setores do grande capital monopolista brasileiro. Esses setores, no entanto, são também a base de apoio e sustentação para a extrema-direita.”
Se os setores capitalistas aos quais Lula se subordina sustentam também o bolsonarismo, que razão há para apresentar a campanha petista como caminho para derrotar politicamente a direita? O PCBR descreve uma aliança que mantém as bases econômicas e sociais do adversário e, em seguida, resolve reforçá-la nas eleições.
A justificativa aparece no ponto 2. Segundo a direção, embora nenhum dos dois candidatos represente os interesses históricos da classe trabalhadora, seus governos não produziriam condições iguais para a organização e a resistência. Há, naturalmente, diferenças possíveis entre governos capitalistas. Nenhuma análise séria exige que se considerem idênticas todas as candidaturas. Mas reconhecer diferenças não determina, por si só, que um partido que reivindica a revolução socialista deva participar da campanha eleitoral de um desses candidatos. É precisamente essa passagem que o PCBR deveria demonstrar.
No ponto 8, a direção sustenta que um novo mandato de Lula permitiria “maior espaço de organização dos trabalhadores contra a ingerência capitalista”. Qual é a prova apresentada? Não há demonstração de que as organizações operárias ficarão em posição mais forte em decorrência do voto petista. O que a nota efetivamente examina são quatro anos de conciliação, desmobilização e fortalecimento eleitoral do bolsonarismo. A possibilidade abstrata de condições menos desfavoráveis substitui, assim, as consequências concretas do governo que o próprio PCBR acabou de analisar.
O PCBR procura encobrir essa escolha com a tradicional fórmula: “devemos golpear juntos neste momento, mas marchar separados sempre”. A questão é que organizações com programas distintos podem realizar uma greve conjunta, defender uma categoria perseguida ou impedir um ataque a direitos democráticos. Nessas circunstâncias, o acordo tem um objetivo determinado, e cada participante conserva seu programa. Outra coisa é colocar a própria militância numa campanha nacional para eleger o dirigente de uma coligação burguesa. O objetivo comum já não é conquistar uma reivindicação operária específica, mas garantir a vitória de um candidato e do bloco que o sustenta.





