As revelações sobre Daniel Vorcaro expõem o comércio que os jornais escondem de seus leitores. Reportagens sobre mensagens extraídas do celular do banqueiro mostram que a direção do Metrópoles submetia textos à sua avaliação e atendia a pedidos de alteração. O dono do Banco Master interferia no que o público receberia como jornalismo independente.
Tratar o caso como uma irregularidade excepcional serve para proteger o restante da imprensa. O problema ficaria restrito a determinados empresários e jornalistas, enquanto os demais continuariam merecendo a confiança da população. Essa explicação encobre o essencial: os jornais são empresas capitalistas, seus proprietários pertencem à burguesia e sua atividade política está a serviço dessa classe.
Além de defenderem os interesses gerais dos capitalistas, os órgãos de imprensa vendem serviços a integrantes dessa mesma classe. Um banqueiro quer promover seus negócios, combater um concorrente ou impedir a divulgação de uma denúncia. Encontra empresas dispostas a negociar a publicação de matérias e o silêncio. Os jornais vendem campanhas políticas e silêncio aos mesmos capitalistas que dizem fiscalizar.
O leitor abre o jornal e encontra uma denúncia, um comentário favorável a determinada empresa ou uma sequência de ataques a um político. Acredita estar diante de decisões da redação, tomadas pela importância dos acontecimentos. Não sabe que a escolha do assunto e o tratamento dado a ele podem ter sido acertados com quem pagou pelo serviço.
Uma campanha encomendada pode utilizar informações verdadeiras. A verdade de uma denúncia não transforma automaticamente o jornal que a publica em defensor do interesse público. É preciso explicar por que aquele caso recebe atenção diária, enquanto outros são ignorados. Quem se beneficia da ofensiva? Que interesse tem a empresa jornalística em sustentá-la?
Quando a campanha deixa de ser conveniente, o assunto desaparece. A denúncia continua sem solução, mas já não merece manchetes. As necessidades eleitorais ou os acordos entre setores da burguesia passam a recomendar silêncio. O público que acompanhou semanas de acusações fica sem explicação para o súbito desinteresse dos supostos fiscais dos poderosos.
É uma fraude apresentar essa imprensa como “garantia da democracia”. Os trabalhadores não controlam os jornais, não escolhem suas direções e não dispõem dos mesmos recursos para responder aos ataques. Um punhado de empresários decide quais acusações terão repercussão nacional e quais serão enterradas. O dinheiro permite a uma minoria impor seus interesses ao debate público.
O rótulo de esquerda tampouco assegura independência diante dos banqueiros. Apoiar o PT ou criticar Bolsonaro não impede um órgão de vender seus serviços a um capitalista. A confiança do público de esquerda pode, inclusive, valorizar o negócio: permite apresentar a defesa de um banqueiro como posição progressista e alcançar leitores que rejeitariam uma propaganda declarada da direita.
O caso Vorcaro expõe a submissão da imprensa ao dinheiro dos capitalistas. A classe operária precisa de jornais sustentados por suas próprias organizações, que defendam abertamente seus interesses e combatam a burguesia. Confiar aos jornais dos patrões sua orientação política é entregar ao inimigo um instrumento de direção dos trabalhadores.





