Em artigo publicado nesta sexta-feira (16), no Brasil 247, intitulado “Somente a reeleição de Lula garante o Brasil soberano e altivo”, José Reinaldo Carvalho, membro do Comitê Central Nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), procura denunciar a ingerência norte-americana na América Latina e associá-la as relações de Flávio Bolsonaro com Donald Trump. O companheiro tem razão ao chamar a atenção para as ameaças contra os países latino-americanos. Seu erro é concluir que a soberania brasileira está garantida pela reeleição de Lula, como se o atual presidente estivesse à frente de um movimento de oposição ao regime político dominado pela burguesia e pelo imperialismo.
Carvalho escreve: “é preciso dizer com todas as letras e sem qualquer meia-palavra: a reeleição do presidente Lula é uma questão de salvação nacional”. A pergunta que o artigo deveria enfrentar é outra: o governo Lula está organizando uma luta contra as forças que mantêm o Brasil subordinado aos Estados Unidos ou governa por meio de acordos com elas?
Não há razão para minimizar o caráter entreguista das propostas de Flávio Bolsonaro. A disposição anunciada de oferecer uma eventual equipe de transição ao governo dos Estados Unidos e de integrar o Brasil ao chamado Escudo das Américas é, obviamente, uma demonstração de capachismo. O problema está em imaginar que, porque a direita bolsonarista se oferece abertamente aos Estados Unidos, o governo Lula constitui seu contrário em matéria de soberania. O imperialismo não começou com Trump, não depende exclusivamente dos bolsonaristas e não deixará de controlar setores decisivos da economia e do Estado brasileiro porque Lula permaneceu no Palácio do Planalto.
É necessário recordar o que aconteceu com o País desde 2016. O golpe contra Dilma Rousseff não foi uma simples vitória eleitoral da direita. Participaram daquela ofensiva partidos burgueses, a grande imprensa, setores do Judiciário e o aparelho de Estado. A Operação Lava Jato, a prisão de Lula e seu impedimento de disputar a eleição de 2018 fizeram parte da mesma crise política. O regime não foi desmontado pela vitória de Lula em 2022. As instituições que permitiram o golpe, os bancos que se beneficiaram da ofensiva e os setores políticos que a sustentaram continuaram ocupando posições fundamentais.
Em 2022, a candidatura de Lula, expressava a reação popular contra o golpe e a perseguição judicial. Lula representava uma oposição ao regime político surgido daquela ofensiva. Depois de assumir o governo, Lula voltou a organizar sua sustentação política com representantes da direita tradicional e das instituições que o haviam combatido.
Hoje, Geraldo Alckmin é vice-presidente e candidato novamente na chapa. Simone Tebet, que votou pelo afastamento de Dilma, integrou o governo. O PT fez do entendimento com o Congresso e o Judiciário uma condição de seu governo. Em vez de utilizar o apoio dos trabalhadores para enfrentar os responsáveis pelo golpe, incorporou uma parte deles. Como esperar uma luta consequente pela independência nacional de um bloco organizado para não romper com os representantes do grande capital?
O imperialismo não domina o Brasil apenas pelas ameaças de Trump. A dominação se exerce pelo controle financeiro, pelas empresas estrangeiras, pelas relações militares e pela influência política sobre o Estado. Uma política de soberania exige enfrentar interesses concretos: quem controla as minas, o petróleo, os bancos e os meios de produção? Que medidas o governo está disposto a tomar contra os monopólios? Com quais forças sociais enfrentaria a resistência desses grupos?
O governo Lula não se apoia na mobilização dos trabalhadores para realizar esse programa. Apoia-se nos acordos parlamentares, na negociação com o capital financeiro e nas instituições do próprio regime. Manteve a reforma trabalhista aprovada sob Temer e a reforma da Previdência de Bolsonaro, e administra as finanças públicas sob limites que restringem as despesas sociais. A dependência econômica é inseparável da política. Não se enfrenta o imperialismo preservando os instrumentos pelos quais o grande capital condiciona as decisões nacionais.
O Ministério da Defesa oferece um exemplo contundente. Em agosto, José Múcio declarou que, diante de uma hipotética invasão dos Estados Unidos, o Brasil teria de “abrir o portão”. Lula considerou a fala imprópria, mas manteve o ministro no posto. Como organizar uma resistência nacional ao imperialismo com uma direção política e militar que admite antecipadamente essa perspectiva de submissão?
É preciso distinguir a condenação verbal do imperialismo de uma política para enfrentá-lo. Lula denunciou, por vezes, o genocídio na Palestina. No entanto, fez coro ao sionismo ao classificar as ações heróicas do Hamas como “terroristas”. No caso da Venezuela, se juntou a Joe Biden e se recusou a reconhecer as eleições no país. Quando questionado em entrevista, afirmou que não estava preocupado com Nicolás Maduro, presidente sequestrado pelo imperialismo norte-americano.
José Reinaldo escreve que Lula seria “a antítese” da submissão defendida por Flávio Bolsonaro. Há diferenças entre os dois candidatos, inclusive na maneira como se relacionam com os Estados unidos. Mas diferença não significa oposição ao regime. A burguesia brasileira possui alas distintas, que podem divergir sobre os meios de negociar com os Estados Unidos sem romper com a dominação imperialista. A frente ampla é uma aliança com setores dessa burguesia, não um instrumento de combate a seu poder.
O companheiro José Reinaldo conhece a importância da luta anti-imperialista. Justamente por isso, seu apelo não deveria parar na reeleição. Enfrentar os Estados Unidos exige enfrentar também seus aliados no Estado brasileiro e romper com a política que desmobiliza os trabalhadores para preservar os acordos da frente ampla.





