O dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, editava reportagens do Metrópoles antes de sua publicação. Mensagens extraídas pela Polícia Filial de seu celular mostram que Lilian Tahan, principal executiva do grupo, encaminhava textos ao banqueiro, atendia a pedidos de cortes e consultava o empresário sobre matérias de interesse do banco. Das 14 reportagens enviadas antecipadamente a Vorcaro identificadas pelo UOL, 11 foram alteradas após suas intervenções.
O banqueiro também conseguiu a publicação de duas reportagens por solicitação própria. A relação se desenvolveu enquanto o Master financiava o portal de Luiz Estevão, com um contrato de publicidade de R$20 milhões fechado em 2024. Vorcaro podia examinar o noticiário, retirar informações prejudiciais e sugerir ataques contra quem dificultava seus negócios.
Em abril de 2025, Tahan encaminhou um perfil ao empresário com a seguinte mensagem: “Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”. A garantia de que o texto só sairia depois da conversa mostra o tratamento reservado ao anunciante milionário.
Naquele mês, o Master enfrentava dificuldades financeiras e procurava viabilizar sua venda ao BRB, banco estatal do Distrito Federal. A operação, anunciada em março, previa a aquisição de 58% do banco de Vorcaro e dependia da aprovação do Banco Central. Era justamente quando o empresário mais precisava de uma cobertura favorável.
Em 2 de abril, Vorcaro reclamou de uma informação sobre uma suposta proposta de compra de ativos do Master por R$1. “Proposta de 1 real nunca existiu!”, escreveu. “Tiramos”, respondeu Tahan. Dias depois, a executiva sugeriu comparar os balanços do Master e do BRB. Antes de publicar, perguntou ao banqueiro: “Ajuda ou atrapalha?”.
Vorcaro aprovou a ideia e pediu para examinar os dados antecipadamente. Tahan concordou. Em maio, ele solicitou a retirada da referência à Hapvida de uma reportagem sobre a venda de ativos ao BTG Pactual. Novamente, foi atendido.
Contra os adversários do Master
O serviço prestado ao banqueiro incluía a cobertura de Renato Gomes, diretor do Banco Central responsável por analisar a compra do Master pelo BRB. Gomes se posicionou contra a operação. Vorcaro, por sua vez, participou da edição de reportagens sobre o diretor.
Ao receber um perfil de Gomes, pediu a retirada de uma passagem sobre a falência do banco. Sugeriu dizer que existia uma divisão no Banco Central e acrescentar especulações de que o diretor iria trabalhar para um dos grandes bancos depois do mandato. Todas as solicitações foram atendidas.
O objetivo era desqualificar o responsável por examinar a operação de salvamento do Master, apresentando sua oposição como resultado de interesses particulares. O leitor não sabia que o próprio dono do banco havia sugerido aquelas alterações.
Vorcaro também pediu que o portal reduzisse, por uma semana, a exposição de Ricardo Cappelli, crítico da aquisição pelo BRB. “Esse Cappelli, você não consegue dar uma freada essa semana? Depois ele volta!”, escreveu. “Deixa comigo”, respondeu Tahan.
A imprensa dos banqueiros
A importância do acordo aparece numa conversa com Ana Matos, diretora de marketing. Quando ela reclamou do preço cobrado pelo portal, Vorcaro respondeu: “Coisa mais importante [da] nossa vida é esse Metrópoles”. Os R$20 milhões foram pagos em parcelas de R$5 milhões em 2025.
O Master mantinha negócios com outras empresas de comunicação. O Estadão confirmou ter recebido R$1,12 milhão entre 2021 e 2025 por anúncios, informe publicitário e patrocínio da cobertura da Fórmula 1. O próprio Metrópoles publicou os valores e explorou as relações do concorrente com os banqueiros.
Uma empresa de Leo Dias recebeu R$9,9 milhões do Master, conforme reportagem baseada em documentos do Coaf. O comunicador afirmou que os pagamentos correspondiam a publicidade do Will Bank. No Metrópoles, as mensagens mostram que, além de comprar anúncios, Vorcaro conseguia interferir nas reportagens.
O caso desmente a propaganda dos grandes jornais sobre sua independência. A direção do portal negociava com o banqueiro o conteúdo que apresentava ao público como resultado de apuração jornalística. Enquanto cobrava explicações de terceiros, permitia que um financiador escolhesse o que os leitores poderiam saber sobre seus negócios.
O noticiário policial
O Metrópoles é uma espécie de órgão da CIA e do Mossad no Brasil. Sempre recebe em primeira mão informações da Polícia Filial, a polícia política do regime golpista, controlada pelos organismos de espionagem do imperialismo, como está amplamente documentado.
O portal atua na difusão das acusações dos órgãos repressivos contra a resistência e seus supostos colaboradores. Na cobertura da Operação Trapiche, que atingiu Lucas Passos e outros acusados de ligação com o Hesbolá, o portal publicou informações da PF e o anúncio do governo de “Israel” sobre a participação do Mossad.
Uma reportagem chamou os presos de “terroristas ligados ao Hezbollah”, adotando como fato a acusação que deveria examinar. O mesmo texto registrava que policiais consideravam exagerada a apresentação da operação pelo governo israelense. Mesmo assim, o portal empregou a classificação que servia à campanha contra a resistência libanesa.
Existe uma forte perseguição a Lucas Passos e a intervenção dos órgãos de espionagem estrangeiros no Brasil. A reprodução das acusações policiais pela imprensa ajuda a justificar essa perseguição perante a população. Os acusados são apresentados como culpados, enquanto as versões dos agentes responsáveis pela operação recebem autoridade de notícia.
Para Vorcaro, o tratamento era outro: acesso direto à direção e oportunidade de modificar os textos. Em 17 de novembro de 2025, dia de sua prisão, Tahan ainda lhe enviou reportagens sobre a venda do Master à Fictor. Atendeu aos pedidos de alteração e avisou ao banqueiro que o material estava publicado.





