Guerra no Iêmen

Avassalador, Ansar Alá ataca sede do regime títere em Adem

Ataques ao palácio presidencial e a instalações sauditas expõem os limites da proteção oferecida por Riade ao governo fantoche

O Ansar Alá atacou nesta quinta-feira (15) o palácio presidencial de al-Maaxiq, em Ádem, sede do governo iemenita sustentado pela Arábia Saudita. O ministro da Informação desse governo, Moammar al-Eriani, declarou que cinco mísseis foram lançados contra o complexo. O Ministério da Saúde informou que cinco pessoas morreram e outras 16 ficaram feridas nas proximidades do palácio.

O primeiro-ministro e os demais integrantes do governo estão a salvo, conforme o comunicado oficial, mas dois guarda-costas morreram. Correspondentes da emissora Al Jazeera relataram explosões e colunas de fumaça na região. Ainda não foi esclarecida a extensão dos danos ao edifício, que abriga o centro de poder do regime apoiado pela monarquia saudita.

A operação em Adem acompanha a intensificação dos combates em Taiz, no sudoeste do Iêmen, e dos ataques a aeroportos e instalações petrolíferas na própria Arábia Saudita. O Ansar Alá consegue, assim, combater as tropas fantoches de Riade em território iemenita e atingir o país responsável por sustentá-las. Nem a sede do governo títere ficou fora do alcance de seus mísseis.

O ataque expõe a fragilidade da proteção saudita. Enquanto pede reforços e novos bombardeios para recuperar posições em Taiz, o regime de Adem precisa defender sua própria sede. O reconhecimento diplomático internacional não lhe garante o controle do país, que continua dependendo da intervenção militar estrangeira contra a resistência iemenita.

A guerra chega a Riade

A coalizão dirigida pela Arábia Saudita informou que o aeroporto internacional Rei Khalid, em Riade, sofreu pelo menos 20 ataques nos últimos 11 dias. Outros aeroportos, instalações petrolíferas e portos também foram alvos. O balanço divulgado pela coalizão é de 17 mortos e mais de 300 feridos nos ataques contra o território saudita.

Na quarta-feira (14), o porta-voz militar do Ansar Alá, Iahia Sari, anunciou uma operação contra a Aramco, em Dhahran, além de ataques ao aeroporto de Riade e a uma refinaria na capital. Um representante do Ministério da Energia saudita confirmou que um edifício da companhia em Dhahran foi atingido. Afirmou que o impacto provocou um incêndio limitado, sem mortos ou feridos.

A Aramco tem sua sede em Dhahran, em um complexo que reúne edifícios empresariais e residenciais. Ao alcançar instalações da companhia, as forças iemenitas pressionam diretamente a indústria petrolífera saudita. A monarquia dispõe de recursos militares muito superiores aos do Iêmen, mas não conseguiu impedir que a guerra atingisse atividades fundamentais para sua economia.

As autoridades informaram que o aeroporto de Riade permanecerá fechado pelo menos até sábado (17). Companhias aéreas cancelaram voos, prejudicando as ligações internacionais da capital. Também foram registrados ataques ao aeroporto de Abha, no sul do reino, onde as autoridades anunciaram duas mortes.

As interrupções já afetam eventos com os quais o governo saudita procura atrair negócios e promover o país no exterior. O torneio de tênis Six Kings Slam, previsto para a próxima semana, foi adiado para dezembro. A conferência de investimentos marcada para este mês em Riade, conhecida como “Davos no deserto”, passou a ter sua realização questionada diante da continuidade dos ataques.

A monarquia enfrenta, portanto, consequências econômicas pela intervenção no país vizinho. Durante anos, aeroportos e outras instalações iemenitas sofreram destruição. Agora, Riade precisa lidar com o fechamento de seu próprio aeroporto e com a insegurança provocada pelos ataques. O correspondente da Al Jazeera em Saná, Iussef Mawri, observou que os sauditas têm mais a perder com a interrupção do tráfego aéreo, pois o aeroporto da capital iemenita já acumula anos de danos e restrições.

O porta-voz da coalizão, general Turki al-Maliki, apresentou imagens de passageiros fugindo durante ataques e acusou o Ansar Alá de receber mísseis balísticos de países da região. Mohamad Elmasry, professor do Instituto de Estudos de Pós-Graduação de Doha, relacionou a entrevista coletiva às falhas militares e de segurança sauditas. A passagem dos mísseis pelas defesas do reino compromete a capacidade de Riade de intimidar seus adversários.

Combates em Taiz

Em território iemenita, a disputa se concentra em Taiz e nas proximidades do estreito de Babelmândebe, passagem entre o Mar Vermelho e o golfo de Adem. O controle do litoral permite pressionar uma importante rota de comércio e transporte de petróleo. Nas áreas montanhosas, as posições elevadas são decisivas para dominar os acessos à cidade e à costa.

As tropas do governo fantoche anunciaram uma contraofensiva denominada “Alvorada do Iêmen”, destinada a recuperar territórios costeiros tomados pelo Ansar Alá nas últimas semanas. Seu porta-voz, Majid al-Nuzaili, declarou que foram realizadas 2.309 operações com aviões de combate, drones, artilharia e lançadores de foguetes. Afirmou ainda que 460 veículos militares adversários foram destruídos.

O comando reacionário também anunciou a suposta recuperação de áreas em Sabr al-Mawadim e al-Sarari e a contenção de um ataque a oeste de Taiz. Na cidade costeira de Dhubab, a Força Escudo da Pátria declarou atuar com as Brigadas dos Gigantes do Sul na defesa do aeroporto. São os resultados apresentados pelas forças aliadas à Arábia Saudita, que continuam solicitando reforços para a região.

Os relatos do correspondente da Al Jazeera, porém, mostram que os avanços não asseguram a manutenção das posições. Bombardeios sauditas obrigam as forças do Ansar Alá a recuar e permitem a entrada das tropas mercenárias do governo títere. Em seguida, os combatentes iemenitas organizam contraofensivas para retomar as mesmas áreas. Esse movimento se repete desde o início de setembro.

O governo de Adem pede novos ataques aéreos principalmente contra posições nos distritos de al-Misrakh e at-Turbah, importantes acessos a Taiz. A dependência da aviação estrangeira revela a dificuldade de suas tropas para derrotar o Ansar Alá em terra. Mesmo depois dos bombardeios, o movimento conserva forças para voltar ao combate e disputar os territórios perdidos.

A luta pelo litoral também preocupa diretamente a monarquia. Em reunião presidida pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o gabinete saudita declarou que não permitirá ameaças à sua segurança ou à navegação no Mar Vermelho e em Babelmândebe. A declaração acompanha os pedidos de intervenção feitos por seus aliados iemenitas.

Luta pela independência

O Ansar Alá controla Saná desde 2014 e sobreviveu à guerra conduzida pela coalizão saudita apoiada pelo imperialismo. A trégua acertada em 2022 interrompeu os combates entre essas forças, mas se desfez nos últimos meses. A retomada das operações encontra um movimento capaz de defender posições, organizar contraofensivas e atingir instalações dentro da Arábia Saudita.

Essa resistência tem raízes no próprio Iêmen. Apresentar o Ansar Alá apenas como um instrumento do Irã, como fazem seus adversários, serve para apagar a participação popular na luta contra a intervenção. Seu enraizamento nacional ajuda a explicar por que tantos anos de guerra e a superioridade material saudita não bastaram para derrotá-lo.

O regime de Adem depende de uma monarquia reacionária e aliada do imperialismo para impor seu domínio aos iemenitas. Contra essa tutela, a luta pela independência e pela soberania nacional dá à resistência do país uma importância que ultrapassa suas fronteiras. É por enfrentar a submissão a uma potência estrangeira que o Ansar Alá constitui um exemplo para os povos que lutam por sua liberdade.

A população iemenita continua pagando um preço elevado pela guerra de agressão imposta pelos sauditas a soldo do imperialismo. O Programa Mundial de Alimentos informou que os estoques de farinha de trigo em Taiz estão quase esgotados. O cerco à cidade provoca falta de combustíveis, gás e outros produtos. A Cruz Vermelha relatou que hospitais próximos às frentes de combate, em Marib, Taiz e no litoral do Mar Vermelho, recebem números inéditos de feridos por armas, com algumas unidades registrando mais de 700 atendimentos em uma semana.

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