O Diário do Centro do Mundo (DCM) aparece nas mensagens de Daniel Vorcaro como destinatário de pagamentos para suspender críticas ao Banco Master e atacar adversários do banqueiro. Reportagem publicada pelo UOL nesta quinta-feira (15) revelou novos detalhes das negociações: o entendimento descrito nas conversas previa a retirada de textos e a publicação mensal de uma matéria favorável ou contrária a pessoas escolhidas pelo grupo de Vorcaro.
Em 21 de outubro de 2024, Mourão, intermediário das negociações, comunicou ao banqueiro que o DCM estava pago e o acordo concluído. Antes disso, informou que o diretor do portal, Kiko Nogueira, perguntara quais seriam os alvos. Em maio de 2025, depois de uma publicação crítica ao Master, Vorcaro exigiu sua retirada. Mourão respondeu que o artigo fora apagado naquele mesmo dia.
O sítio que lançou uma campanha de acusações contra o Partido da Causa Operária (PCO), apresentando despesas com gráficas como indícios de corrupção, surge nas conversas do banqueiro como parte de um negócio de compra de influência. O público recebia notícias de um portal que se anunciava como progressista; nos bastidores descritos pelas mensagens, discutiam-se pagamentos, matérias que deveriam desaparecer e pessoas que poderiam ser atacadas.
R$50 mil por mês
Em 4 de março, conversas transcritas pela Polícia Federal vieram a público na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou uma nova prisão de Vorcaro. Seu interlocutor, Luiz Phillipi Mourão, conhecido como Sicário, mencionava a distribuição de dinheiro a terceiros e incluía o “DCM e mais dois editores” entre os destinatários.
Em junho, a Folha de S.Paulo publicou novas informações da investigação, que apontava um acordo de R$50 mil mensais para suspender notícias negativas sobre o Master e atingir adversários de Vorcaro. As mensagens incluíam reclamações sobre textos publicados pelo DCM e cobranças de pagamentos. Em setembro de 2025, Mourão solicitou que o banqueiro providenciasse repasses por meio de Fabiano Zettel, seu cunhado, citando uma cobrança relacionada ao portal.
Publicar uma notícia desfavorável em determinado momento, como tentou justificar o DCM, não responde às conversas sobre pagamentos e retirada de matérias. As próprias reclamações do banqueiro tratavam de textos que o incomodavam. Era justamente para impedir sua circulação que ele intervinha. O objeto da denúncia é a negociação da linha editorial, incluindo o uso do portal contra terceiros.
Para o banqueiro, a vantagem desse serviço era alcançar leitores de esquerda por meio de uma publicação que eles reconheciam como próxima. Uma defesa do Master num anúncio despertaria desconfiança. Apresentada como notícia, poderia passar por uma conclusão da redação.
A escolha de adversários acrescentava outra utilidade ao acordo. O dinheiro permitiria transferir uma disputa do banqueiro para as páginas do sítio, sem informar ao público quem encomendara o ataque. É essa interferência sobre a informação que precisa ser esclarecida nas conversas, além da existência dos repasses.
O “progressismo” do DCM
A apresentação do DCM como alternativa à imprensa burguesa sempre foi uma farsa. Isso nunca o impediu de viver da reprodução de artigos e notícias do Estadão, da Folha e de O Globo, por exemplo. Além disso, sempre buscou caçar cliques com um jornalismo sensacionalista e policialesco.
Kiko Nogueira, editor do portal, é um jornalista burguês e empresário. Sua apresentação profissional no próprio DCM registra passagens pela Veja São Paulo e pela direção de Alfa, Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.
Essa conduta merece ser confrontada com a relação anterior entre o portal e o PCO. O DCM convidara Rui Costa Pimenta, presidente do PCO, para participar regularmente de sua programação. Enquanto essa presença servia ao sítio, a participação do dirigente era bem-vinda. O rompimento ocorreu durante a publicação das reportagens do DCO sobre Guilherme Boulos.
Boulos, Warde e o IREE
Em novembro de 2021, o Diário Causa Operária investigou as relações de Boulos com o advogado e empresário Walfrido Warde e com o Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE). O trabalho examinou a aproximação do dirigente do PSOL com figuras da direita golpista e organizações ligadas à política externa norte-americana.
O instituto presidido por Warde reunia personagens como o general Sérgio Etchegoyen, chefe do Gabinete de Segurança Institucional de Michel Temer, e Raul Jungmann, ministro da Defesa daquele governo. Eram homens que haviam ocupado postos importantes no regime instalado depois da derrubada de Dilma Rousseff. A convivência de Boulos com esses setores era uma questão política que exigia explicação. Ele era assalariado desse pessoal.
As reportagens também examinaram as relações do IREE com a Global Americans e o financiamento desta pelo National Endowment for Democracy (NED). O DCO denunciou esses vínculos como instrumentos de influência do imperialismo norte-americano.
O DCM retirou Pimenta do programa Café da Manhã durante essa polêmica, devido às matérias do DCO sobre Boulos. Em seguida, o portal passou a publicar ataques ao Partido, deslocando a discussão das relações do dirigente do PSOL para acusações contra os responsáveis por investigá-las.
A reação protegeu os personagens questionados nas reportagens. Em vez de explicar o papel de Etchegoyen e Jungmann no IREE, ou discutir os vínculos internacionais do instituto, o DCM, a serviço de Boulos, procurou desacreditar o PCO.
A disseminação de mentiras contra o PCO
Uma das principais acusações explorava a contratação de gráficas pertencentes a militantes. O vínculo dos responsáveis pelas empresas com o PCO era apresentado como se demonstrasse desvio de dinheiro público. Mas a própria Justiça Eleitoral autoriza expressamente a prestação de serviços por empresas de militantes partidários. O jornalismo marrom do DCM tentava incriminar o PCO por uma atividade absolutamente lícita.
Em nota, o PCO apresentou dados da atividade gráfica: em 2020, o Partido gastara R$55 mil com os Correios para enviar mais de sete toneladas de material impresso a municípios de todo o País. Informou também a produção de mais de 10 milhões de unidades de materiais eleitorais em 2018 e novamente em 2020. A despesa tinha uma finalidade concreta, visível na atividade dos militantes.
Imprimir jornais, panfletos e cartazes é uma necessidade de uma organização política. O fato de a gráfica pertencer a um filiado não transforma o serviço em fraude. Seria necessário demonstrar que a impressão não ocorreu, que os valores eram falsos ou que os recursos tiveram outra destinação. A filiação partidária do fornecedor não comprova nenhuma dessas hipóteses.
A jurisprudência reunida pelo Tribunal Superior Eleitoral registra a inexistência de impedimento automático à contratação de empresas de pessoas vinculadas ao partido. Permanecem as exigências de documentação e comprovação dos serviços. O critério é a regularidade da despesa, e não a proibição de que militantes trabalhem para a própria organização.
O PCO denunciou naquela ocasião uma tentativa de provocar a polícia e o Judiciário contra o Partido. A nota advertia que o DCM pretendia reproduzir, em escala menor, o procedimento empregado contra Lula e o PT durante o julgamento do Mensalão e a Lava Jato: uma campanha de acusações destinada a preparar uma intervenção do aparelho de Estado na vida política.
A ofensiva policial
Em 11 de agosto de 2026, a Polícia Federal cumpriu busca em endereço de Pimenta numa investigação sobre recursos partidários e eleitorais. A decisão determinou também seu afastamento do cargo partidário por 180 dias. O PCO denunciou a operação como perseguição política contra a organização e seu candidato à Presidência.
O Partido aponta as matérias do DCM como parte da origem dessa ofensiva. A advertência feita em 2022 ajuda a compreender a gravidade da campanha: a acusação jornalística fornecia argumentos para apresentar a intervenção policial como necessária. Ao adversário político, reservava-se o tratamento de suspeito; à polícia e aos juízes, o poder de interferir na direção partidária.
É esse o portal que aparece nas mensagens de Vorcaro associado a uma mensalidade e à negociação de ataques. As despesas do PCO com sua propaganda foram exploradas como escândalo, enquanto o operador do banqueiro discutia pagamentos relacionados ao DCM. A pretensão de atuar como fiscal da moralidade alheia esbarra nas explicações que o próprio sítio deve sobre essas conversas.




