A Unidade Popular (UP), o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) chamaram voto em Lula contra Flávio Bolsonaro no segundo turno. Deram um giro de 180º: de uma política ultraesquerdista e oportunista para ficar a reboque da frente com a burguesia. Nenhum dos três partidos consultou suas bases para tomar a decisão, embora se digam adeptos do centralismo democrático.
Em 8 de outubro, a UP convocou “o povo e toda a nossa militância” a votar 13, “contra o avanço do fascismo e em defesa da democracia”. O PCB publicou o chamado Agora é Lula! e orientou seus membros a ingressar nos comitês da campanha e buscar votos “casa a casa”. O PSTU preferiu a expressão “voto crítico no 13”.
O comunicado do PSTU oferece um retrato da contradição. A direção enumera o que Lula fez: manteve privatizações e a reforma trabalhista, aprovou o arcabouço fiscal e governou com o Centrão e a direita. Adverte que “confiar em qualquer setor da burguesia é preparar a nossa derrota” e condena o voto no mal menor a cada quatro anos. Em seguida, pede voto em Lula porque Flávio Bolsonaro seria pior. Ou seja, dizendo-se contrário à política do “mal menor”, a direção do PSTU chamou a votar justamente no “mal menor”.
O PCB atribui o crescimento da direita à “falência da política de conciliação de classes” e, poucas linhas depois, conclama uma campanha militante em defesa da representação eleitoral dessa conciliação. Se essa política abriu caminho ao bolsonarismo, seria necessário explicar por que sua continuidade o fecharia.
Esses partidos atacavam o PT de modo oportunista para conquistar uma parte da esquerda desiludida com os governos petistas. Como abutres, disputavam um pedaço de sua influência quando ele perdia apoio. Agora, com medo do “mal maior”, pulam no colo da frente ampla. Não se trata de uma frente para realizar uma reivindicação concreta dos trabalhadores, como uma greve ou a defesa de um direito ameaçado. Trata-se de recolocar no poder os responsáveis pela política que UP, PCB e PSTU dizem combater.
O golpe de 2016 expõe outra contradição. Enquanto a burguesia preparava a derrubada de Dilma Rousseff, o PSTU levantava “Fora Todos”, incluindo a presidenta entre os governantes que deveriam sair. Até hoje sua direção se recusa a chamar aquele processo de golpe. Michel Temer, e não uma organização revolucionária, ocupou o lugar de Dilma. PCB e as organizações que formaram a UP igualmente consideravam que o imperialismo não estava dando um golpe contra o PT e que o PT merecia ser derrubado… pela direita.
Todos achando que o PT desapareceria e eles assumiriam o lugar do PT como principal partido da esquerda.
Esses partidos se dizem revolucionários, contra a conciliação de classes do petismo, mas agora deixam claro que eles são apêndices do PT e das ideias do PT: “democracia versus fascismo”, como foi dito pela UP. Não há mais luta de classes para eles. É preciso apoiar o “mal menor”, pelo menos, porque Lula é menos pior que Bolsonaro. Essa não é uma política de uma organização marxista e comunista.
Também não se pode apagar a diferença entre 2022 e 2026. Quando o PCO apoiou Lula há quatro anos, sua candidatura reunia trabalhadores mobilizados contra o golpe, a prisão que o impediu de concorrer em 2018 e o governo Bolsonaro. O Partido criticava a presença de Alckmin na chapa, mas a frente ampla era uma aposta arriscada da burguesia, pois os partidos burgueses estavam debilitados e os trabalhadores estavam em um movimento ascendente. A capitulação do PT e a entrega do governo aos partidos burgueses enfraqueceram o movimento popular que elegeu Lula e fortaleceram a frente ampla.
Ao contrário de 2022, agora Lula tem atrás de si uma aliança consolidada com um setor da burguesia e os principais nomes da frente ampla são políticos capitalistas, burgueses, de direita e golpista como Alckmin, Tebet, Paes, Tabata Amaral, Marina Silva etc. O governo Lula foi um governo de concessões atrás de concessões à direita e aos banqueiros e ele está indicando que se for reeleito isso vai piorar ainda mais. Quer dizer, será um governo ainda mais profundamente direitista, capitalista e desses setores da burguesia representados por Alckmin e companhia.
O preço dessa aliança já apareceu no arcabouço fiscal, que limita despesas públicas, na manutenção da reforma trabalhista, nos juros altos e nas concessões de infraestrutura. Um novo mandato começaria sob pressão por mais cortes. Alckmin, Tebet e os setores que representam teriam ainda mais força para exigir concessões aos banqueiros.
Dizer “voto em Lula, sem apoio ao governo” não desfaz o compromisso político assumido numa campanha de reeleição.
Essa esquerda “radical”, sem consultar seus militantes, quer que eles e seus seguidores apoiem um governo dominado pela direita que vai atacar ainda mais os direitos dos trabalhadores caso seja reeleito. Tudo isso é medo do bolsonarismo, pois eles não têm uma política para enfrentar a direita, por isso correm para o colo do PT, que, por sua vez, está no colo da direita “democrática”, “moderada” e “civilizada”.





